COMO É QUE O MEU E O SEU VOTO MEXEM COM A MINHA E A SUA VIDA?…

por Carlos Vieira | 2019.10.03 - 18:54

O meu voto pode ajudar a melhorar (ou prejudicar, se me enganar na cruz) a minha vida e a do(a)  leitor(a), assim como  o seu voto também pode contribuir nesse sentido, ou, pelo contrário, pode ajudar a prejudicar a sua e a minha vida. 

Ou seja, votar é um acto muito sério, logo, o voto não deve ser decidido por moeda ao ar; não é um mero jogo em que se aposta na equipa com a cor que mais nos agrada ou com os candidatos mais sorridentes ou no cavalo que vai à frente nas apostas (sondagens),  mas exige algum esforço de análise para não nos virmos a arrepender, depois de termos prejudicado a nossa vida e a dos outros. E a abstenção, na maior parte dos casos, não passa de uma fuga de quem se sujeita de forma ignara a que os outros decidam da sua vida.

Pensemos juntos: esta solução de governo apoiado por partidos do centro-esquerda (PS) e da esquerda (BE, PCP e  PEV) melhorou ou não a vida dos portugueses? Aumentos dos salários, das pensões e dos apoios sociais, redução de impostos, como o IRS, redução das propinas no ensino superior, redução do desemprego, aumento do consumo.

Sim, é verdade que ainda falta muito para se ter um país mais decente. Um país com um Serviço Nacional de Saúde sem listas de espera como as que temos, com médicos e enfermeiros suficientes em todas as especialidades, sem obscenas promiscuidades entre o público e o privado; com serviços públicos de qualidade, no litoral como no interior; com uma escola pública mais inclusiva e mais apelativa; com um ensino superior mais democratizado; com uma ciência e uma cultura mais participadas e partilhadas; com mais emprego com direitos; com mais redistribuição da riqueza e menos corrupção; com mais habitação social e a preços controlados; com mais ligações ferroviárias entre as regiões e com o resto da Europa. 

A  maioria que suportou este governo provou que havia uma alternativa à austeridade, ao brutal aumento de impostos de Passos & Portas  e à emigração massiva de jovens por falta de empregos. O cabeça de lista por Viseu, Fernando Ruas, que Rio não reconduziu no Parlamento Europeu, não sei se devido ao “ofício de corpo presente” (há até quem o tenha avaliado e concluído que foi mais de “corpo ausente”), foi elogiado, há uma semana, num jornal regional, pelo seu ex-vice-presidente de Câmara que escreveu que um médico de Coimbra lhe teria dito que veio a Viseu e ficou impressionado com a obra deixada por Ruas: “as radiais, as circulares, as rotundas tão bem ornamentadas”. Tudo coisas redondas que nos fizeram andar às voltas durante 24 anos,  sem uma saída em direcção ao futuro. Convenhamos que Almeida Henriques, em seis anos, também pouco mais fez do que colocar cartazes nas rotundas com promessas de obras futuras.

Quanto ao candidato do CDS, veio agora indignar-se por o Plano Nacional de Investimentos não contemplar uma estação de caminhos de ferro em Viseu, mas quando o BE apresentou, no Parlamento,  um Plano Ferroviário que contemplava a linha Aveiro – Vilar Formoso, passando por Viseu e Mangualde, Hélder Amaral votou contra. Aliás, Hélder Amaral, no debate “Acessibilidades à Região de Viseu”, promovido pela Proviseu, em 20.05.2017, declarou que, para ele, Viseu já tinha uma estação ferroviária, em Mangualde, associando-se à proposta do BE, que eu próprio defendi na Assembleia Municipal de Viseu,  de criação de uma ligação por “shuttle” (autocarro exclusivo)  da Central de Camionagem de Viseu à estação da CP em Mangualde.

Voltemos à Geringonça. Nem sempre foi fácil negociar com o PS. Houve alturas em que os partidos de esquerda tiveram que ser inflexíveis, como aconteceu quando o governo de Costa acordou com o grande patronato uma descida da TSU dos empregadores. A contestação na rua também ajudou a derrotar esta cedência do PS à direita. Mas os partidos de esquerda não conseguiram impedir algumas medidas gravosas para o país, por não estarem abrangidas pelos acordos feitos com o governo. Foi assim que o PS entregou ao Santander o Banif e 2 mil milhões de euros do Estado, com a abstenção da PSD, apesar do voto contra dos partidos de esquerda. 

Percebe-se, assim, que um vice-presidente da bancada parlamentar do PS tenha dito que o PS precisava de ter uma votação que lhe permitisse “governar sem empecilhos”. Se o PS não precisasse do apoio parlamentar dos partidos de esquerda, certamente que não teria empecilhos para governar à direita, como já havia feito o governo de Sócrates.   Já o presidente do PS, Carlos César, em Viseu, aquando das jornadas parlamentares de Junho deste ano, se atirou raivosamente contra o BE,  obrigando António Costa, pouco depois, a deitar água na fervura, defendendo os sucessos da “geringonça”. Mais recentemente, porém, o próprio Costa resolveu zurzir no BE (enquanto tratava o PCP de modo paternalista, deixando Jerónimo visivelmente incomodado) e afirmou que se o BE tivesse a força do Podemos, teríamos em Portugal a mesma instabilidade que em Espanha. O que Costa não diz é que a instabilidade política em Espanha se deve em exclusivo ao primeiro-ministro Sanchez, do PSOE, que não teve a coragem para fazer um governo com os partidos de esquerda, apesar das cedências, algumas exageradas, de Pablo Iglésias; nem tão pouco para acabar com a “Lei Mordaça” criada por Rajoy (PP) em 2015, que censura, acusa e já obrigou vários artistas a fugirem para o exílio, e compactua com a existência de presos políticos, apesar de a ONU, num relatório de Maio deste ano, ter considerado as detenções de políticos e cidadãos catalães como “arbitrárias”, já que estes não promoveram actos violentos ou incitaram à violência, e um atentado à liberdade de expressão, reunião e participação política, apelando ao governo de Sanchez para que fossem libertados de imediato e indemnizados. 

Aquilo a que alguns chamam, sem originalidade, de  “políticas identitárias” do BE — o feminismo, o movimento LGBTI,  o anti-racismo, o ambientalismo – como se fossem causas de tribos isoladas, são as várias faces da mesma luta pelos direitos humanos, pela liberdade, pela igualdade, pela paz e fraternidade entre os povos e pela salvação do planeta, ou melhor, da humanidade, face ao estado de “emergência climática” que leva o Secretário Geral da ONU, Guterres, a clamar por acções imediatas em vez de conversa.

Concluindo: o nosso voto não mexe só com a nossa vida, pode ajudar também a derrotar a extrema-direita fascista que avança pelas fendas abertas pelos (neo)liberais nos EUA, e pela capitulação da social-democracia na Europa, cujo papel de emprestar um rosto humano ao capitalismo (mais ou menos selvagem) já não é mais necessário para os “donos do Mundo”.  As bandeiras da social-democracia que os partidos da “Internacional Socialista” deixaram cair há muito, estão hoje nas mãos dos partidos da esquerda, radicais na defesa do direito à Saúde, à Educação, à Habitação, à Segurança Social, ao trabalho com direitos, à Cultura e à Ciência, à mobilidade sustentável; de um sistema económico-financeiro que não delapide o Estado Social e crie emprego;  do controlo público da banca e dos sectores económicos estratégicos do país. 

 Só uma “sociedade socialista”, prevista na Constituição da República Portuguesa, na esteira do 25 de Abril, pode abrir caminho para a construção de “um país mais livre,mais justo e mais fraterno”. Assim saibamos votar nesse sentido.

Carlos Vieira e Castro