COISAS INÚTEIS

por Cílio Correia | 2017.04.04 - 13:38

 

Numa montanha viviam isolados dois camponeses. Longe um do outro. Independentes. Cada um em sua casa. Cuidavam das suas terras e do seu gado. Apesar disso, não eram dados a proximidades. Cada um fazia a sua vida. E pronto. Raramente se encontravam, mas ainda assim lá havia uma ou outra ocasião em que confraternizavam.

Numa delas, um dos dois camponeses resolve ir visitar o outro. Bateu à porta. Do lá de dentro veio uma voz rouca, mas que disse de forma distinta:

— Entre, a porta está aberta!…

E o vizinho não se fez rogado. Entra em casa do outro e nada disse. Sacou dum banco de madeira e sentou-se à mesa. O anfitrião também nada dizia. Moviam a testa. Franziam o sobrolho. Parecia um diálogo de surdos-mudos.

Entretanto, o dono da casa lança o olhar para o armário onde se encontrava, bem à vista, uma garrafa de aguardente. O visitante compreende-o, franze a testa como quem dá o seu assentimento à proposta.

O anfitrião levanta-se, dirige-se ao armário, pega na garrafa, traz dois cálices de vidro grosso e senta-se à mesa com a garrafa entre eles. Enche os dois copos. Começam a beber. Um copo atrás do outro. Permanece um silêncio absoluto. Vão bebendo e saboreando a bebida e o momento, raro, em que estavam juntos.

Mas eis que que a garrafa se aproxima do fim. Encheram os dois copos pela última vez. Esvaziaram a garrafa. E para festejar o último golo, o visitante levanta o copo à altura da boca e antes de o beber resolve dizer:

— Saúde!…

A resposta do anfitrião não podia ser mais inesperada e surpreendente. Ficou colérico e gritou para o outro:

— Estúpido. Estragaste tudo. Juntámo-nos para beber ou para dizer coisas inúteis?!!…

Regressou o silêncio e por ali se ficaram com o olhar pregado no vazio… até que um deles desfizesse a companhia.

 

(Histórias à lareira)