Castanha de Sernancelhe – “o ferro de Portugal”

por PN | 2019.10.13 - 11:54

Quando falamos de castanhas esquecemo-nos que este fruto capsular, provavelmente oriundo da Ásia Menor, faz parte da nossa civilização há mais de 100 mil anos. O homem da pré-história nela ia encontrar o seu alimento calórico e também o dos animais.

As castanhas têm o dobro do amido (hidrato de carbono) das batatas. São ricas em vitaminas C e B6 e em potássio. Durante séculos foram o substituto do pão nos rigores das invernias (Fonte Wikipédia).

Aquilino Ribeiro, o escritor do Carregal, Sernancelhe, escreveu in “O Homem da Nave – Serranos, Caçadores e Fauna Vária” acerca do castanheiro e da castanha:

“Além de celeiro dos nossos avós púnicos e celtibéricos, era por vezes a sua casamata e almenara e, quando enfolhado, a abóbada verde sob que armavam festas e arraiais. De par com esta utilização, que outra árvore ou mesmo animal manifesta mais gosto pela altitude e mais denodo nas intempéries, braços ao alto, ramagem no vento, fincando o espigão nos penetrais do solo? A neve só lhe faz bem, e as raízes vão incoercivelmente através dos lezins nunca violados do granito à busca da veia, que passa recôndita, pedir-lhe uma sede de água. Os nossos antepassados conheciam as infinitas virtudes do castanheiro e veneravam-no como a uma divindade exclusivamente benigna.”

(….)

“À lareira, nos dias rígidos do Outono, quando o Natal não acaba de desembocar dos horizontes pardacentos e nos outeiros rincha o Noroeste, a miudagem da família pegava nas bonecras, as castanhas abortadas, também chamadas folechas, e punha-as em cima das brasas com uma gota de água ou mesmo de saliva com intenção àquela matrona da aldeia que andasse com a barriga à boca. Se a bonecra, ou castanha abortada estoirava, saía rapaz; se bufava, saía rapariga. E o diagnóstico era tão infalível que o barbeiro de Lamosa o inculcava como único quanto a resolver o bicudo problema que é a prenunciação dos sexos.”

(…)

Não lhe chamavam |à castanha| os nossos serranos, seus colaços, tão consubstanciada a sentiam consigo no solo e na vida, ao mesmo tempo que pretendiam significar o seu carácter de respeitabilidade: o ferro de Portugal?”

Nos próximos dias 25, 26 e 27 de Outubro em Sernancelhe homenageia-se a castanha.

A Festa da Castanha tornou-se um momento alto das celebrações anuais deste concelho. Milhares de pessoas acorrem vindas de todos os pontos do país e até do estrangeiro, para poder entregar-se às delícias deste fruto.

Fruto este que é hoje o produto endógeno de excelência deste território e uma fonte de vida de muitos produtores. As toneladas de castanha que saem de Sernancelhe, mormente na sua supina espécie “martaínha” são desejadas nos mercados nacionais e internacionais e, após a sua merecida reabilitação gastronómica, uma inesgotável fonte da mais apurada gastronomia internacional.

Do precioso estudo de Jorge Lage, “Castanea – uma dádiva dos deuses”, aqui lhe deixamos uma receita para fazer no seu lar:

“Sopa de feijão com castanhas – 500 gr. de feijão amanteigado; 500 gr. de castanhas piladas; 200 gr. de arroz; 1 ramo de coentros; 1 cebola; 1 dl de azeite, 1 folha de louro e sal q. b.

As castanhas são demolhadas de véspera. Coze-se o feijão com castanha em água com sal. Reduzem-se a puré, passando-as pelo passe-vite. Junta-se um litro e meio de água, os coentros, a cebola picada finamente, o azeite e o louro. Deixe ferver durante 15 minutos e adicione o arroz. Rectifique o tempero e deixe ferver mais um pouco.”

Pode acompanhar com “Terras do Demo”, tinto.

Se gosta de castanhas, se gosta de bom e salutar convívio e arraial, ponha na sua agenda:

25, 26 e 27 de Outubro em SERNANCELHE. Não falte!

Paulo Neto