Carta aberta ao Exmo. Senhor Presidente da República

por José Chaves | 2019.02.07 - 10:52

 

A propósito da crispação do senhor Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, face ao sentimento de discriminação dos polícias, materializado no comentário do Presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP), Paulo Rodrigues, convida-se o senhor Presidente da República a retirar a verdadeira ilação do comentário e da posterior difusão por um número incalculável de polícias e cidadãos por se reverem nas palavras de Paulo Rodrigues.

Em momento algum os polícias estiveram contra a visita do senhor Presidente da República ao bairro da Jamaica, nem quiseram alimentar o confronto, até porque sabem que nos confrontos, enquanto a posição da maioria dos cidadãos é no conforto da bancada, a dos polícias é na linha da frente, nas condições que o meio permite [algumas, muitos jamais imaginarão]. E, principalmente, porque os polícias têm as consciências plenas que naquele bairro, como nos restantes, moram inúmeras pessoas de bem.

No entanto, o que não vislumbraram e que lhes causou [causa] tristeza – não só no âmbito da intervenção em apreço, em que um polícia foi ferido, mas nas centenas de acontecimentos idênticos [oportunidades] –, foi a indiferença [percecionada] para com os polícias, principalmente com aqueles que sofreram ferimentos, alguns permanentes, ou que foram mortos.

Senhor Presidente da República, com quantos desses elementos, ou familiares, é que falou, pessoalmente ou mesmo por telefone, para lhes dar uma palavra de alento, como tão bem parece saber dar?

Quanto ao facto do senhor Presidente da República considerar que comparar comunidades e forças de segurança é diminuir o papel das forças de segurança, certamente encontraremos fundamento para essa afirmação na imprecisão das informações de que dispõe sobre estas forças. Uma análise rigorosa ao papel das forças de segurança, às condições [sociais e materiais] em que desenvolvem a sua atividade e às reivindicações recentes dos seus elementos, permite concluir, com facilidade, que estes apenas reagem [nestes e noutros contextos] no sentido de dignificarem o seu papel, não raras as vezes porque quem tem esse dever, legal e moral, em nome do Estado não o faz.

Por último relembra-se o senhor Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, que o sentimento é algo individual, intrínseco à pessoa, será o resultado da perceção que ela tem do ambiente em que se insere. Daqui surge a pergunta sobre a qual se exorta ao senhor Presidente da República uma reflexão profunda:

Se um polícia afirma que se sente discriminado perante determinados fatos, sejam eles por ação e/ou por omissão, e milhares dos seus pares se reveem nesse sentimento, quais são e onde se situam as raízes desse(s) sentimento(s)?

 

 

Vice-presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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