BREVE REFLEXÃO SOBRE A POSSÍVEL CAUSA DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS DE 2017 EM PORTUGAL

por João Gomes | 2019.07.23 - 21:20

1. INTRODUÇÃO

No início de 2006, publiquei o artigo: “Forest fires in Portugal: how they happen and why they happen” (Fogos florestais em Portugal: como acontecem e porque acontecem) na revista International Journal of Environmental Studies [1], com o objetivo não só de fazer uma análise do problema, mas também para apontar soluções e alertar a comunidade científica internacional para este assunto.

Como cidadão e como cientista não posso deixar de lamentar que, volvidos 12 anos sobre os terríveis incêndios de Julho/Agosto de 2005, que ameaçaram cidades como Lisboa e Coimbra, este meu artigo de 2006 se mantenha absolutamente atual, ou seja, os estudos estão feitos desde há anos, diversas soluções e estratégias foram apontadas e nada significativo foi feito pelas autoridades competentes. Habituámo-nos, em Portugal, a aceitar mais ou menos passivamente este fatalismo, ao ponto de estar declarada a “Época oficial de incêndios” à semelhança da época balnear que ocorre todos os verões. Na realidade, todos os verões se verificam intensos incêndios, que animam a “silly season”, reabrem o debate sobre o problema dos incêndios florestais, espera-se ansiosamente pela definição de uma estratégia adequada de ordenamento da floresta nacional e de uma estratégia de prevenção, mas tudo cessa em Setembro/Outubro quando a maior parte dos incêndios se extingue e, assim, o assunto “morre” e só renasce cerca de 9 meses depois na “Época oficial de incêndios” do ano seguinte. Ano após ano, a área ardida aumenta, a floresta nacional vai desaparecendo com marcada influência negativa na economia nacional e na daqueles (muitos) que dependem da floresta, e no corrente ano de 2017 vieram a resultar em mais de 60 mortes na tragédia de Pedrogão Grande.

Foto DR – Patrícia M. Moreira

2. A HIPÓTESE HELIOCÊNTRICA DA ORIGEM DE FOGOS FLORESTAIS

No entanto, a publicação do artigo em 2006 cumpriu alguns dos objetivos atrás enunciados: foi lido e citado por muitos colegas de outros países e resultou numa colaboração intensa com o Doutor Milan Radovanovic, Director do Instituto Geográfico Jovan Cvijic, de Belgrado, na Sérvia, que também é anualmente assolada por incêndios florestais à semelhança de muitos outros países da orla mediterrânea. Dessa colaboração resultaram diversos artigos, livros e capítulos de livros internacionais, dos quais o mais marcante terá sido: “Solar activity as a possible cause of large forest fires – A case study: analysis of Portuguese forest fires” (A actividade solar como uma causa possível de grandes fogos florestais – Caso de estudo dos fogos florestais portugueses), publicado na prestigiada revista Science of Total Environment em 2008 [2].

Neste trabalho avançámos com uma hipótese inédita até à data: muitos dos fogos florestais cujas causas não são, aparentemente, determinadas podem ter como fontes de ignição partículas sub-atómicas de elevada energia que resultam de aumentos extraordinários da atividade solar, como tentarei resumir de seguida:

i) como se sabe, a atividade do Sol, que nos ilumina, é o conjunto de reações de fusão nuclear, que naturalmente, libertam partículas sub-atómicas tais como protões animados de grande quantidade de energia. Estas partículas são emitidas para o espaço e viajam a grande distância em função da energia de que estão animadas (a Terra dista do Sol cerca de 149,6 milhões de km);

ii) em determinadas circunstâncias verificam-se grande aumentos extemporâneos de atividade solar, ou seja, da intensidade das reações que ocorrem no Sol, originando-se “Ventos solares”, em que as referidas partículas sub-atómicas têm energia ainda mais acrescida e, por isso, podem viajar até muito mais longe. Estima-se que estes protões podem viajar a velocidades entre 550 e 1000 km/s, estando a temperaturas de cerca de 1 milhão de ºC;

iii) o planeta Terra está, geralmente, “escudado” face à penetração dos protões emitidos pelo Sol pela existência de uma atmosfera terreste animada pela dinâmica de ventos e ainda pela existência de um campo electromagnético intenso;

iv) contudo, em determinadas circunstâncias que podem ocorrer no Verão no hemisfério Norte e no Inverno no hemisfério Sul (o que coincide com a grande ocorrência de fogos florestais nessas regiões), de intenso calor, aumento do sentido e da intensidade de circulação dos ventos dominantes e muito baixa humidade, o “escudo” protetor fica extraordinariamente diminuído, o que pode coincidir com os referidos períodos de grande intensidade da atividade solar, ficando assim o planeta exposto à penetração de protões solares com energia superior a 10 e 100 milhões de eletrões-volt;

v) protões animados destas elevadas energias podem atingir espécies florestais, o que associado a temperaturas elevadas do ar e baixas humidades, podem vir a constituir apreciáveis fontes de ignição bastante incontroláveis;

vi) este tipo de fenómenos que ocorre na superfície solar é ainda responsável pela criação de fenómenos extremos na atmosfera terrestre como sejam ventos ciclónicos, conforme se demonstrou em [3].

As correlações estatísticas efetuadas entre os períodos de ocorrência “ventos solares” e a ignição de grande fogos florestais permitiram estabelecer uma relação causa-efeito com significado estatística nos incêndios florestais de Julho/Agosto de 2005 em Portugal, assim como nos incêndios florestais que ocorreram em Deliblatska Pescara, e outros locais dos balcãs, em Julho de 2007 [4-5] e, recentemente, Radovanovic obteve correlações estatísticas significativas para muitos dos incêndios florestais ocorridos nos EUA entre 2004 e 2007 [6].

3. O INCÊNDIO DE PEDROGÃO GRANDE DE JUNHO DE 2017

De momento não se encontra devidamente esclarecida a causa da ignição do grande incêndio que ocorreu em Pedrogão Grande a partir das 14h38 do dia 17 de Junho de 2017 e que resultou em mais de 60 mortes e mais de 45.000 ha ardidos. De início as autoridades apontaram como causa uma “trovoada seca”, ou seja, uma grande descarga elétrica atmosférica não acompanhada pela ocorrência de precipitação, fenómeno que é comum no Oeste americano, mas não tanto na Europa. Houve ainda relatos de ventos muito variáveis em intensidade e direção, o que, aliado a temperaturas do ar próximas dos 40 ºC, humidades relativas muito baixas, um extenso período de seca intenso, e a existência de espécies florestais muito inflamáveis e mato invasivo, resultaram numa propagação muito fácil e rápida do incêndio.

Embora, ainda não estejam concluídas as análises e os testes de correlação causa-efeito sobre a possível origem heliocêntrica deste incêndio, há desde já a registar a coincidência das condições meteorológicas análogas às dos incêndios de Julho de 2005, assim como os relatos relativos à ocorrência de ventos ciclónicos o que poderá ser perfeitamente consentâneo com a ignição de origem heliocêntrica.

E se for esta a origem o que haveria a fazer no sentido de prevenção e/ou estratégia de combate ao problema?

Além das reformas estruturais e das estratégias apontadas no artigo de 2006 [1] e da adoção de técnicas de combate que passam pela utilização de superabsorventes que tornam muito mais eficaz o combate a incêndios com água [7], podem vir a ser desenvolvidas as seguintes estratégias:

a) monitorização regular da atividade solar e das condições propícias à emissão de protões solares animados de muito elevada energia e temperatura, o que só poderá ser efetuado à custa de uma rede de monitorização por satélites focados na monitorização da superfície solar. Esta monitorização só será eficaz se for feita de forma sistemática, baseada em cooperação internacional e apoiada em modelos de penetração na atmosfera terrestre. Note-se que, uma vez detetados esses aumentos de atividade solar, que resultem em ventos solares, dispomos de 2 a 3 dias para podermos atuar nas regiões em que é previsível que venham a ser mais assoladas pela queda dos protões solares.

b) instalação de “pára-raios” de grandes dimensões (comparáveis a torres de suporte de geradores eólicos) devidamente eletrizados para poderem atrair protões solares.

Qualquer destas possíveis soluções estão, atualmente, muito longe de estarem operacionais e requerem uma forte aposta e consequente investimento em investigação e desenvolvimento no sentido de poderem vir a ser algum dia postas em prática.

Referências

[1] Gomes, J., “Forest Fires in Portugal: How it happened and why it happened”, International Journal of Environmental Studies, 63(2), 109/119 (2006) – DOI: 10.1080/00207230500435304

[2] Gomes, J., Radovanovic, M., “Solar activity as a possible cause of large forest fires – A case study: analysis of the Portuguese forest fires”, Science of Total Environment, 394(1), 197/205 (2008) – DOI:10.1016/j.scitotenv.2008.01.040

[3] Gomes, J., Mukherjee, S., Radovanovic, M., Milovanovic, B., Popovic, L., Kovacevic, A., “Possible Impact of the Astronomical Aspects on the Cyclonic Motions in the Earth’s Atmosphere”, in “Solar Wind: Emissions, Technologies and Impacts”, Borrega, C., Cruz, A. Editors, Nova Publishers Inc., New York, 2012 – ISBN 978-1-62081-979-1

[4] Radovanovic, M., Gomes, J., “Wildfire in Deliblatska Pescara (Serbia) – Case analysis of July 24th 2007”, in “Forest Fires: Detection, Supression and Prevention”, Gomes, E., Alvarez, K. Editors, Nova Publishers Inc. Eds., New York, 2009 – ISBN 978-1-60741-716-3

[5] Radovanovic, M., Milovanovic, B., Gomes, J., “Endargement of undeveloped areas of Serbia by forest fires”, Journal of the Geographical Institute “Jovan Cvijic”, 59(2), 17-35 (2009) – DOI: 10.2298/IJGI0902017R

[6] Radovanovic, M., Vyklyuk, Y., Milicevic, S., Jakovljevic, D., Pecelj, M., “Modelling of forest fires time evolution in the USA on the basis of long term variations and dynamics of the temperature of the solar wind protons”, Thermal Science, 19(2), S437-S444 (2015)

[7] Radovanovic, M., Gomes, J.F.P., “Solar activity and forest fires”, Nova Publishers Inc. Eds., New York, 2009, 131 pp. – ISBN 978-1-60741-002-7

[8] Bordado, J.C.M., Gomes, J.F.P., “New technologies for effective fire fighting”, International Journal of Environmental Studies, 64(2), 243-251 (2007) – DOI: 10.1080/00207230701240578

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João F. P. Gomes, Professor Coordenador com Agregação

Investigador CERENA – Centro de Ambiente e Recursos Naturais, IST/UL

ISEL – Instituto Superior de Engenharia de Lisboa

(Fotos DR)

Licenciado, Doutorado e Agregado em Engª Química. Professor Coordenador c/Agregação no ISEL, Dept. de Engª Química e investigador do CERENA - Centro de Recursos Naturais e Ambiente, IST/UL.

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