As voltas de Santana

por Carlos Cunha | 2018.08.11 - 11:23

 

 

O que levará um homem na idade madura a querer sair de casa, pedindo o divórcio ao fim de quarenta anos de sólido matrimónio?

Uma relação tão longa é feita de altos e baixos. As fases de maior aproximação e cumplicidade, que se querem duradouras, vão alternando com fases de afastamento ou de conflito. Não vale a pena fingir, pois, ninguém vive permanentemente em lua de mel. Mas também ninguém esperava este desfecho nesta fase já adiantada da vida, sobretudo quando a relação entre os dois, tantas vezes posta à prova nestes quarenta anos de vida em comum, acabou sempre por resistir às pressões e turbulências internas e externas feitas por amigos e familiares.

Alguém, ainda incrédulo com este final, repete até à exaustão “para o que lhe havia de lhe dar” e remata invariavelmente certeiro “já tinha idade para ter juízo, com esta idade quem é que o quer?”

Sempre tivera fama de desassossegado, de “enfant terrible” e de conquistador, as mulheres não resistiam ao seu charme, ao cabelo curto bem penteado para trás acamado com gel, ao modo eloquente como se expressava. Tinha uma inegável capacidade oratória, análise fina e astuta, discurso coerente, apelativo capaz de arrebatar uma plateia, que, no final, o aplaudia incessantemente e muitas vezes de pé.

Quando decidiu abandonar a casa onde um dia foi feliz, alguém o escutou em jeito de desabafo dizendo que gostavam muito de o ouvir discursar e até aplaudiam algumas das suas ideias, mas já não o levavam a sério. Cansaram-se dele e ele cansou-se deles ao fim destes quarenta anos!

Num assomo de desvario disse que não se revia na atual direção que o casamento estava a levar e sentindo-se a sufocar e a mirrar a cada dia por dentro, resolveu não adiar mais a decisão de sair, quando há bem pouco tempo ainda tinha disputado, uma vez mais, a liderança daquela casa. Se calhar foi demasiado impulsivo quando cedeu à tentação de sair. Devia ter feito um detox espiritual como fazem algumas estrelas do meio artístico ou político. Pegam na trouxa e vão para Bali desintoxicar, que agora está na moda!

Não se deu a esse trabalho, decidiu sair. Foi e pronto está feito! Mas afinal ele já entrou e saiu tantas vezes, mas parece que esta será a definitiva, assim dizia o e-mail que fez chegar às cúpulas do partido. Dizem que houve quem o tentasse demover, que a sua saída apenas iria dividir um eleitorado que parece estar a dispersar-se noutras direções.

Não sei se será desta, o mais provável é haver um volte face, deixa saudades e os congressos sem ele não terão a mesma animação, haverá mais cinzentismo e menos emoção.

Não sei se foi um ato de coragem ou de irracionalidade, o que é certo é que deu um passo em frente enquanto outros preferem afiar a faca até às próximas eleições legislativas num taticismo político interessado apenas em afastar Rio da liderança.

Bye bye Santana Lopes ou será apenas um até breve?

 

(Foto DR)

Carlos Cunha é militante do CDS-PP de Viseu e deputado na Assembleia Municipal. Licenciado em Português/Francês pela Escola Superior de Educação de Viseu concluiu, em 2002, a sua Pós Graduação em Educação Especial no pólo de Viseu da Universidade Católica Portuguesa.

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