As emoções são tudo o que temos, no aqui e no agora…

por Amélia Santos | 2016.01.19 - 18:45

 

Neste fluir incessante do tempo, passamos os dias a correr. Para o trabalho e no trabalho. Para casa e em casa, com os filhos, as refeições, as preocupações. Vivemos em roda-viva. Num permanente vaivém, em stress. Quase não temos tempo para olhar com atenção verdadeira tudo o que nos rodeia, quer no trabalho, quer em casa. Por vezes escapam-nos coisas evidentes, pormenores que são reveladores da tristeza de alguém muito próximo, da mudança de comportamento de um filho, de uma alegria súbita. Escapa-nos o aqui e o agora, preocupados que estamos com o amanhã…

Quis o destino que, no presente ano letivo, encontrasse ainda mais experiências novas do que aquelas que se vislumbram no horizonte de quem muda de cidade e de local de trabalho. Aconteceu-me ter que lidar este ano com muitos meninos autistas, de diferentes níveis e graus de perturbação intelectual, comportamental e social. Desde aqueles que são intelectualmente mais fortes, aos mais fragilizados. Desde aqueles que se expressam oralmente ou por escrito, àqueles que quase não o conseguem fazer…

No meio destes meninos encontrei um muito especial, não por ser um aluno excelente, mas por me transmitir emoções únicas… Um menino que fez soar em mim aquelas campainhas emocionais e me fez parar para lhe dar atenção particular. Para ouvir o que ele diz e tentar encontrar um código de comunicação e empatia. Obrigou-me a estar atenta ao que ele é e como está, em cada dia… Ter este menino tão especial nas minhas aulas, levou-me a tentar perceber e encontrar a forma de o motivar, de o trazer para o mundo da sala de aula, para o aqui e o agora…

Este é um menino que vai para as aulas acompanhado por uma auxiliar da ação educativa. Um menino só, mas sempre acompanhado. Um menino que sorri enquanto nos ouve, mas que eventualmente chora no seu silêncio. Um menino que não suporta barulho, mas que não controla os seus ímpetos e às vezes grita, como no quadro de Edvard Munch. Um menino aparentemente calmo, mas que, desatinadamente, bate na mesa ou na parede, em jeito de desabafo ou descompressão. Um menino guloso, como todos os meninos, mas que é incapaz de comer um chocolate que lhe ofereço e fica com ele ali à sua frente sem se atrever a sucumbir à tentação… Um menino forte e frágil ao mesmo tempo.

Um menino que raramente nos consegue olhar nos olhos, mas que nos toca a alma.

Eu já lhe chamo “o meu menino”.

É acarinhado pelos colegas, este nosso menino. É apaixonado pelos Xutos e Pontapés, conhece todas as suas canções e letras de cor. Vibra, como qualquer menino da sua idade. Dança e salta com a alegria que a música e o ritmo lhe transmitem. E foi um enorme prazer fazer-lhe um teste especial, onde os Xutos, e fotografias dos Xutos, constavam em todas as páginas. Mas prazer maior foi ver a sua felicidade ao olhar para o enunciado… Indescritível recompensa!

O que esconde a cabeça deste menino? O que faz a sua felicidade? O que é a sua infelicidade?

Quem não se lembra do brilhante papel que Dustin Hoffman desempenha no filme “Rain Man”- Encontro de irmãos? Quem consegue deixar de se comover com a personagem?

Quem consegue deixar de acarinhar este “meu menino”?

Na verdade, como alguém dizia outro dia, “as emoções são tudo o que temos”…

 

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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