As árvores que se abatem

por Anabela Silveira | 2018.06.02 - 19:54

 

Sem pagamento de coimas, terminou ontem o prazo dado pelo governo para a limpeza das matas. Escrevi bem: matas e terrenos próximo das localidades (50 m das edificações isoladas e numa largura de 100 metros nos aglomerados populacionais) que, em verdade, estavam entregues ao matagal que não pede licença para crescer. E ainda bem. Comprova o poder da mãe natureza que não se deixa dominar. Mas o tempo quente aproxima-se e todo o cuidado é pouco. Ninguém quer acordar ao toque de sirenes e sentir o beijo mortífero de labaredas.

 

Mas, que eu saiba, não foi publicado qualquer decreto que mande decapitar as árvores património natural dos jardins das escolas deste país. Pode-me ter passado ao lado tamanha enormidade, já não digo nada. E que eu saiba, na urbe do vinho e da vinha – branco, tinto, rosé ou jeropiga – ainda não foi afixado um edital que leve tudo raso o que é verde dentro dos recintos escolares. Que eu saiba… mesmo assim, era imperioso que se salvassem as videiras…

Ora este intróito vem a propósito do abate de árvores no recinto da Escola Básica de Grão Vasco, a sofrer um processo de requalificação. O abate começou hoje de manhã e logo por um enorme arbusto de azevinho que, como todos sabem, é uma espécie autóctone rara, ameaçada de extinção.

Foi então por uma espécie protegida, proibida de ser colhida, transportada e comercializada em Portugal, que se iniciou a purga ao verde no jardim daquela escola, para se passar a uma frondosa e esbelta árvore que, no canteiro defronte às janelas da secretaria, no rés-do-chão, e sala de professores, no 1º andar, dava as boas vindas quase desde o ano da fundação do estabelecimento de ensino, a 13 de Setembro de 1969. Quase meio século transformado em rolamentos!

Não sei se outras árvores acabarão em toros para a lareira ou se a delapidação se ficou por estas duas, nem se o projecto de requalificação contempla o verde. Se mais não fosse, este acto põe em causa conteúdos programáticos de algumas disciplinas, nomeadamente no que concerne à preservação das espécies em extinção.

Chegados aqui impõem-se uma série de questões:

– A requalificação do edifício impunha a alteração do jardim e o corte de espécies vegetais?

– Se impunha, que espécies vegetais foram marcadas e porquê? Há fundamentação para o corte do azevinho? Se não, porque foi derrubado?

– Quem pode responder às inquietações de tanta gente: a direcção titubeante? A autarquia? O ME? O projectista?

Sei que hoje foi um dia negro para aquela comunidade escolar. Sei que muitos professores foram apanhados completamente de surpresa com o barulho dos moto-serras. Sei que ficaram estarrecidos e poucas respostas esperam que lhes sejam dadas. Tem sido sempre assim…

O tempo quente vem aí. É verdade! Mas aquele recinto não era um matagal a precisar de podão para dominar a natureza rebelde.

 

 

 

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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