Aquilino Ribeiro, Uma Luz ao Longe – “ter olhos que a descubram”

por PN | 2018.11.11 - 19:13

DEDICADO A TODOS OS MEUS AMIGOS(AS) DO CONCELHO DE SERNANCELHE, MUITO ESPECIALMENTE A JOSÉ MÁRIO CARDOSO E CARLOS SILVA SANTIAGO.

 

 

 

Palavras‑ chave: Uma Luz ao Longe, Aquilino Ribeiro, sentimento religioso anticlericalismo.

Keywords: Uma Luz ao Longe, Aquilino Ribeiro, religious feeling, anticlaericalism.

 

A primeira obra, publicada por Aquilino Ribeiro em 1913, Jardim das Tormentas, vê prelo com doze contos. Entre eles, “A catedral de Córdoba”, “Voluptuoso Milagre”, “Sam Gonçalo” e “À hora de vésperas”, cujos títulos, logo à partida, remetem para um contexto de sentimento e intriga religiosa. Também o anatoliano título não se furta à regra, entendido como visão não adâmica do mundo.

Por seu turno, a derradeira obra publicada em vida do seu autor, em 1963, Tombo no Inferno – O Manto de Nossa Senhora, tem título que fala pelo conteúdo.

De permeio, as seguintes obras: A Via Sinuosa, tal caminho da cruz, Valeroso Milagre (separata mais tarde incluída em Estrada de Santiago), O Homem que Matou o Diabo, Arca de Noé – III Classe, S. Banaboião Anacoreta e Mártir, Por Obra e Graça, O Servo de Deus e a Casa Roubada, Natal Português, O Livro do Menino Deus, O Arcanjo Negro, Humildade Gloriosa, Sonho de Uma Noite de Natal, Dom Frei Bartolomeu dos Mártires.

Esta presentificação da temática religiosa na obra aquiliniana, aqui se referindo apenas nos títulos, é isotópica, se não na intriga em geral, na recorrência com que se evidencia no cômputo de quase todas as suas obras. Tão curiosa quanto saída da pena de um agnóstico confesso. Muito poderíamos lavrar nesta fértil veiga; porém, achámos ajustado cingirmo‑nos àquelas que são as primícias de Aquilino, com os mistérios, inspirações, imposições e opressões da mundivivência religiosa, pela primeira vez sentidas e impostas no Colégio da Lapa, onde ingressa a 10 de Junho de 1895, com dez anos, para fazer a equivalência ao curso do liceu, e de onde sai, cinco anos volvidos, sincronia que nos é romanceada, autobiograficamente, em Uma Luz ao Longe (1948).

É preciso conhecer o espaço ríspido, áspero e severo do planalto da Lapa, os rigores extremos do seu clima, com invernias álgidas de sol posto à meia tarde e estios com canículas tão bravas que até as lajes parecem fumegar; é preciso conhecer a mole maciça do Colégio, num granito escuro e espesso curtido pelos séculos; a camarata número 33 com os seus dezasseis metros quadrados ensimesmados naquela rocha sombria e numa madeira escura, iluminada por uma janela rompida a sul, o quarto de Aquilino, ou, aqui de Amadeu (o que ama a Deus); o seu refeitório, suas salas de estudo; o passadiço para a Igreja da Nossa Senhora da Lapa, rasgado em arco de volta redonda, mal alumiado, durante o dia, por magro janelo e o interior severo deste Santuário, para abranger com os sentidos aquele topos e entender o modo de Adolescer em Clausura, parafraseando Carina Infante do Carmo[1].

De seguida, tentar entrever a rotina quotidiana de um colégio de padres onde a escolástica vingava impenitente à mistura com as brincadeiras viris, estudo psitacista, alguns jejuns e muitas preces místicas. E, deste contexto, tentarmos abarcar quão determinante foi esse período para o jovem Aquilino, que teve no Padre Joaquim Francisco Ribeiro, pároco da igreja do Espírito Santo, no Carregal, a uma légua antiga da Lapa, seu estremado progenitor.

A propósito do título desta obra, escreve o seu autor:

Havia encontrado o meu símbolo. Aquela luzinha, assim flébil e celestial, ficou ‑me com efeito de emblema na vida. Nas horas de maior negrume, quando era para desesperar de todo, surgia‑me imprevistamente no báratro dos cuidados. Pequenina, bruxuleante, vinda de longe, crescia e iluminava ‑me o caminho. Filha da própria ralé, providência de infelizes e aflitos, nunca por nunca deixou de raiar. Creio que ela existe igualmente para todos os humanos, e não deve ser outro o fanal que os guiou através das convulsões físicas e sociais do mundo. A questão para o indivíduo é ter olhos que a descubram. (Ribeiro, 1948: 224)

Esta luz, símbolo de esperança e de otimismo de um homem criado segundo tradições eclesiásticas, será também a luz da fé. Mas não de uma fé na religião cristã que lhe é incutida unilateralmente nas duas primeiras décadas de vida, antes uma fé na vida, no homem seu semelhante, nos animais, na terra madre, no vitalismo da natureza, na justiça e igualdade humanas, no amor…

De resto, o sagrado e o profano convivem cordialmente em Aquilino, num paganismo entremeado de erudição teológica e recalcitrante culto católico.

Voltemos a Uma Luz ao Longe e ao espaço onde se escoa a ação:

O lugarejo da Lapa, terra de padeiras, era nada mais nada menos que o produto do camartelo eclesiástico. (ibid.: 20)

Se a inicial opinião é de cariz negativo, não o deixa de ser também a visão do Santuário e do Colégio, que se lhe segue:

Até ao santuário, com a fachada jesuítica de tope, ligado por um arco de passadiço à bisarma de pedra lavrada que era a residência da Companhia, havia duas curiosas albergarias para peregrinos e visitadores e quartéis em profusão, espécie de celas a alugar aos rústicos que vinham dealbar a alma nas semanas rústicas do S. Barnabé e Espírito Santo. (ibid.: 20)

A sua dolorosa entrada para dentro do negro granito das “muralhas de cantaria” colhe o simbolismo mor do apartamento com o exterior, na cruel separação do seu fiel canito de mefistofélica graça, Barzabu, forçada à brutalidade do pontapé nos quadris, arremessado pela bestialidade do Sr. Saraiva, nada atreito às boas práticas e muito arrenegado de modelares exemplos. Amadeu sentiu, naquele porfiado amor e no sofrimento de Barzabu, “a primeira lição de desumanidade!”.

E é curioso que tal lição lhe tenha sido transmitida no pórtico do Colégio, face ao “torvo moloque de granito e sombra”, dentro do qual irá passar a próxima meia década da sua ainda tão cândida existência.

É o ritual da separação que também o presidiário sofre, quando castigado pela privação da liberdade, se vê obrigado a virar costas ao mundo, que a freira professa ao entrar da porta conventual, que o místico determina na solidão do seu eremitério…

Logo no decurso da acomodação, a funérea negatividade do espaço toa pungente no peito infantil do enclausurado:

Uma vez remontada a escadaria lôbrega, metemos por um extenso, largo, larguíssimo corredor soalhado, de castanho. Cada uma das tábuas daria madeira para duas tumbas. (ibid.: 29).

E sem transição, após esta curta e ciceronada visita, é empurrado para os pés da Nossa Senhora da Lapa, “escondida e bela como uma ninfa”, numa cafurna, no meio de um “silêncio atrido, o silêncio pausa ‑viva das igrejas e dos túmulos”, com este remoque seco do Sr. Saraiva, a quem até o nome é propício, à laia de ritual partida pregada ao imberbe caloirinho das berças, que na aldeia, com a despudorada liberdade e impunidade dos pardalecos, lhe devastava os pinhões dos seus estimados pinheiros mansos:

– Deixo ‑o aqui. Reze para se fazer gente e se corrigir de vícios e maus costumes. Entre no seio da Virgem: (ibid.: 30)

Para Amadeu, logo adiante constatar, na sua familiaridade infantil com casas do Senhor, onde tanto decerto teria brincado:

As igrejas são silenciosas como o fundo do mar.

O espectáculo não me ofuscou. Conhecia já tudo aquilo, os símbolos, os castiçais, os altares e suas doiraduras, a lâmpada acesa do Altíssimo, a estupefacção dos santos e o ar de ficção humana da Divindade. Conhecia ‑o de meus pais, de meus avôs, que pagavam o dízimo à Igreja, queimavam o judeu, penavam derreados com os bens ‑de ‑alma, matavam, roubavam, e vinham ali dealbar a alma suja, saburrenta de pecados, pávida e arrependida até o primeiro retorno sobre a barbárie ancestral. Sim, averiguei mais tarde que a conhecia de toda essa caterva de gerações crentes e fanáticas, sôfregas a viver e no entanto temerosas do inferno, e acabando por jogar a cartada da beatitude eterna à força de trintários e legados pios.

Portanto, as igrejas não descerravam para mim nenhuma espécie de inédito. Mas aquela, com a lapa fulcro de toda a sua tradição devota, com os mil e um painéis parietais contando, em balbucie de todo primária, os milagres da Senhora, ‘o homem de cobra na boca, a árvore a abater‑se sobre o lenhador, o navio a arder no mar’, com o retábulo em alto relevo dos legionários a jogarem a túnica de Cristo crucificado, exalava um pitoresco que me refazia da imersão mística a que pretendera sujeitar ‑me o Saraiva, menigrepo nazareno. (ibid.: 30‑ 31)

Naturalmente que esta reflexão, produzida em 1948, dista mais de meio século do acontecimento narrado, mas indicia o cerne do seu facto.

A permanência no Colégio da Lapa era meio para fazer os estudos que lhe permitiriam o ingresso no seminário e uma carreira eclesiástica quase obrigatória, pondo ‑o em contacto direto com métodos de pedagogia e uma ciência escolástica impositivos da premência da aceitação de uma religião que ajudava a crescer e a libertar o corpo e a mente do vício. Porém, ao contrário e arrepio destes princípios, blandiciosa, a realidade escorregava dentro de um fechamento onde se erigia a solidão, o medo, o pecado, a idolatria, a hipocrisia, o fanatismo e a sujeição. Há uma lei dominante com a qual, logo de início, Amadeu choca. Entra em rutura com aquilo que percebe ser uma humilhação, uma privação da sua personalidade. É o inconformismo a erguer a sua voz. O inconformismo que parece irromper aqui no seu natural rebelde e que, até ao final de sua vida, não mais o deixará. Até que ponto já estava bem vincado dentro dele ou foi aqui despertado e acicatado pelos remoques cruéis dos próprios companheiros que dele troçavam sem rebuço nem pudor?

– Orelhas tem ele!; – E que beiçana!; – Tem cara de tanso!; – É mesmo um gorila!; – Chegou ontem das brenhas! (…) o desavergonhado; tem mesmo cara de judeu; — É o retrato do mafarrico!; Parece o bicho cacheiro, é pior que um gato assanhado… (ibid.: 54)

A cena de pancadaria que se segue, com o Mascarenhas, evidencia não só a libertação de toda a raiva que nele se acumulara em tão curto espaço de tempo para tanta inúsita humilhação, como também a presciência da sua diferença perante aquele “canil de cachorros assanhados”:

O que contava era a hostilidade que se açulara contra mim em toda a canalha… Que havia de odioso em mim para me receberem daquele jeito? (ibid.: 54)

Há quatro momentos que se concatenam para, e num ápice, desencadear toda a amargura e revolta em Amadeu: a brutalidade do Saraiva ao apartá‑lo de seu cão Barzabu; o gesto arbitrário de humilhação ao lançá‑lo de joelhos aos pés da Virgem, nas profundezas do Santuário; a animosidade do acolhimento por seus pares e as seis palmatoadas vigorosas e injustas ministradas pelo Pe. Mourão. Todos são o rastilho da revolta. Mas voltemos ao segundo momento… Amadeu na escuridão cortada pela bruxuleante e fantasmagórica luz das parcas velas, faz o inventário do local para onde fora atirado, aparentemente pouco impressionado com o aparato circundante:

Dorido dos joelhos, levantei ‑me e comecei a percorrer a igreja como um museu. Diverti ‑me com o Menino Jesus, de casaquinho à Marialva, celebrado no Santuário Mariano com a Senhora da Boa ‑Morte no seu coro de lacrimárias, com o presépio, ou o Novo Testamento através da alma semi ‑pagã do povo lusitano, segundo interpretação de Machado de Castro. Depois de tudo ter visto e comentado com os meus botões, deitei balanço à situação. Era costume fazer aquilo com os recém ‑chegados àquele ninho de peneireiros? Sorte de vigília de armas à Loiola, recalcamento da fibra carnal, exercício ascético, ensaio de monocato, numa palavra, uma dose farta de purga mística a bem do sistema de claustração professado na Casa? Só sabia que me enfadavam. (ibid.: 31 ‑32)

E é aqui, neste descrédito e perceção do abuso cometido, que Amadeu sente a primeira ânsia de fugir, de se “pôr ao fresco”, que o acompanhará vida afora, sempre que privado de sua preciosa liberdade, sentindo ‑se ali abandonado e parte de um ritual iniciático que, ao invés de um atordoamento místico, lhe espicaça a curiosidade inata e o enfadamento, decerto acutilado pela longura do dia, a mudança radical de hábitos e o apetite, que não seria despiciendo num catraio daquela idade há tantas horas a “voar num céu de hilros”. E Amadeu, avesso à reza imposta pelo Saraiva, continua sua minudente e reativa descoberta do espaço soturno, sombrio e prenhe de fantasmas sussurrantes no sopro do vento roçado nos lapêdos, a sugerir, nessa voz difusa, os augúrios do tempo a vir:

Na aresta da penha, como em querena de nau, contorcionava ‑se dentro do seu absidíolo a Mater Dolorosa. Expunha o peito lanceado pelas sete espadas, e todavia à força de teatral a sua lástima não se tornava comunicativa. Ali perto, na capela do Conde da Lapa, alcandorava ‑se sob a forma de pomba o Divino Espírito Santo. Compunha ‑se seu trono aurifulgente de colunas e capitéis coríntios da mais especiosa talha. E logo à sua direita, muito nédio e bonito na nudez pueril, exibia ‑se um S. Sebastião atado à árvore do suplício, o harpão das setas cravado até à raiz. (ibid.: 33)

Este desfile trágico passa sob os olhos curiosos do jovem Amadeu. As contorções, os peitos lanceados, as setas cravadas, mais não são que uma exposição gratuita de um pathos impressionante, mas aposto em argentino trono e fulgente nas talhas adornadas. E o jovem Amadeu, na entretessitura da ficção, estranhava apenas que aquela fosse a “casa do imenso, temeroso, omnimodamente soberano Deus” (ibid.: 33 ‑34).

Mas, em simultâneo, rente à intimidação, emergia um laivo de diversão que o remetia para as tergiversações teologais:

Ele estava ali? Estava ali como em toda a parte, pairando acima da minha insignificância sem deixar de pairar sobre o Cosmos, imperscrutável aos olhos. Assim fora doutrinado e eu o cria.

(ibid.: 34)

E será esta a primeira dúvida que em Amadeu é suscitada face a toda uma educação religiosa muito liberal e este contacto opressivo com a casa do Senhor. Ele, que até ali ouvira recomendações do género: “– Está quietinho, que Nosso Senhor ralha!”; “– Deus castiga‑te!”; “– Reza a Deus que te faça um homem!”. E é deste modo que Amadeu o refere:

O facto apurado pela minha sensibilidade crítica era que o ente supremo, me podia punir sem pau nem pedra, que me ralhava, que mais não fosse, por meio do trovão (…) morava naquele paredal. Não o via, porque incorpóreo por subtileza e perfeição, lhe repugnava a investidura da matéria. (ibid.: 34)

Se a inteligência de miúdo assim congeminava, na sua imaginação buliçosa, a figura de Deus, uma espécie de avô, ora tolerante, ora punitivo, uma espécie de nababo capaz de, como um ilusionista, tirar da cartola, na sua mágica infinita, no fundo, uma lâmpada de Aladino, prestes a conferir desejos se as palavras certas, o santo e a senha, fossem proferidas, Amadeu, perante o adiantado da hora e nele crescendo o incómodo aversivo do abandono, peregrina pelos quatro canto do templo e vai constatando com ironia:

Mas as figurações divinas que gradativamente o representavam a Ele ou a Ele em suas irradiações com a Pomba, como Cristo Crucificado, como a Senhora das Dores, anjos e serafins, denotavam um voo mais que rasteiro da fantasia humana, um voo em céu sem estrelas, muito para baixo das nuvens, um pobre céu de pardais. E tudo, como acto de integração na essência inefável, se me afigurava de mediocridade aflitiva. (ibid.: 35)

E é Aquilino a falar. À distância de 53 anos, a sua memória busca o entendimento dos factos que o conduzem à indiferença e que, logo ali, como um batismo de fogo, lhe são inculcados, naquele “recinto de fraga” prisioneiro, onde “flutuava um odor mefístico, misto de incenso e de raposinhos”. O jovem Amadeu bocejava, e cansado de marchar sobre os seus passos, remirando as botas de S. José, deixa “levedar a cólera”. E a cólera dá lugar à raiva quando, finalmente, chega o Saraiva para, com uma desculpa mesclada de cinismo e chalaça chocarreira, o conduzir ao frente a frente com o Pe. Leonel, figura simpática, que, premonitoriamente, depois de muito o apreciar, lhe dispara:

–        Vamos, vamos, a pinta é boa… olhos sobre o verde… verde é muito afirmar… Verde impreciso, por lampejos, sinal de personalidade! Sim, senhor, a pinta é boa. E continua:

–        Boca rude, presságio de horas amargas – proferiu sorrindo. – A tua cara não é de conformista, coitado! Nariz petulante… vá, vá, temos aqui um homem.

E Amadeu sente o à ‑vontade para desabafar, para afirmar o seu descontentamento, a sua contrariedade. A sua desilusão se, porventura, tivera alguma ilusão sobre o Colégio da Lapa:

–  Gostas da Lapa?

–  Não senhor! – respondi terminantemente.

(…)

–  Não vieste para o Colégio de vontade, dize lá..?

(…)

–  Quero ‑me ir embora –

–  Queres‑ te ir embora? Chegaste há bocado e já te queres ir embora? Que bicho te mordeu?

–  Não me mordeu bicho nenhum. Reconsiderei e adquiri a convicção que não me dou cá. Deixe ‑me ir embora…

(….)

–  Isso passa ‑te – tornou o Pe. Leonel, conciliado.

–  Meteu ‑te medo tanta pedra?! Realmente a primeira impressão é de hostilidade. Sabes, temos uma compensação, estarmos imunes a terramotos. A tectónica terrestre cederá em toda a parte menos na Serra da Lapa.

(…)

–  Vai‑ se carpintejar daqui alguém, Sr. Saraiva! Não tenha medo! (ibid.: 39‑40)

A humanidade, sentiu ‑a Amadeu pela boca e mão do Pe. Leonel, esse asceta de meia‑idade, rodeado de livros, pálido e de olhos azuis, de fisionomia simpática. Um franciscano. Justo. Com quem sonha, a ajeitar ‑lhe a roupa da cama com uma ternura paternal. Mas as primeiras impressões estavam irreversivelmente colhidas. Aquela alma cândida encalia‑ se na extensão desolada da Lapa povoada de penedos, aquela cabeça sonhadora, privada da sua liberdade montesina, sentia a clausura, mas, mais que tudo, sentia, pelo pé, mão e palavras do Saraiva, a injustiça humana, a opressão e a desilusão perante uma religião que lhe queriam à força incutir e impor, pelo castigo, pela penificação desedificante de um bárbaro, tão abrutalhado como dúbio nos seus comportamentos parcialmente admitidos e tacitamente acatados naquela comunidade que o vai formatar, sem resguardo, nos próximos cinco anos de sua vida.

Uma Luz ao Longe é obra ancha nesta matéria. Porém, cingido à compressão do tempo aos dois primeiros capítulos nos remetemos, não obstante a presciência de eles conterem a essência de um porvir anunciado e na certeza de que os sentimentos religiosos aqui se marcam, identificando com nitidez uma linha duradoira na cosmovisão literária de Aquilino, da qual não arredará pé até à publicação final.

O evidenciado anticlericalismo emotivo não é diatribe contra a religião. Aquilino, o jovem crente, de uma religiosidade instintiva e animista, se agnóstico se torna, não deixa, em toda a vastidão da sua obra, de espraiar amplamente os seus sentimentos religiosos, se bem que numa perspetiva que critica a conceção desumanizada da verdadeira espiritualidade, mas sem notórias desavenças com a cultura teológica. No prefácio dedicado a Brito Camacho, em Andam Faunos pelos Bosques, que seu autor diz ser “uma rapsódia pagã em bemol”, promete sem cumprir ser este o seu último romance de húmus eclesiástico, e acrescenta:

Mas neste livro os abades não são mais do que um acidente; a personagem central é o génio da espécie. Às almas santas, aos censores que me acoimam de cronista encartado de clérigos como Camilo de Brasileiros, direi que são estes os últimos e irrevogáveis do meu guinhol. (Ribeiro, 1931: 8)

Contudo, tal obsessão, se passada com Amadeu, não deixa de se evidenciar com Libório de A Via Sinuosa e com Macário de O Homem que Matou o Diabo, todos eles sociologicamente destinados a uma carreira eclesiástica. Libório diz ‑se “formado num ambiente de ruínas e santidades”; e é simbolicamente paradigmático o esmagamento de que é vítima, nesta passagem:

Um dia, estando no coro de S. Francisco, tombaram sobre mim o saltério e o hinário, livros de estante, de envergadura a neles as vozes eternas poderem cantar, por todos os séculos, a eternidade do Criador. Com as costelas a ranger e a cara num santo sudário, escabujava debaixo deles, quando o meu bom mestre apareceu.

Macário, ao entrar no Convento da Fraga pela mão do Dr. Mendanha,

(…) teve a impressão de poisar no pináculo do mundo, um mundo morto, onde esvoaçassem sem ruído nem pressa gigantescas asas negras” (…) trago ‑lhe o rapaz, padre Augusto, mas, torno a repetir, não é para fazer dele um bonzo. Por amor de Deus, não mo fanatizem nem lhe quebrem o génio, que é alevantado, com rezas e penitências.

A título de mera confirmação, sete anos volvidos após a saída da Lapa, com passagem pelo Colégio da Roseira, em Lamego, por Viseu e pelo seminário de Beja, onde ingressa em outubro de 1902 e de onde é expulso em Novembro de 1903, escreve Aquilino em 1907, no auge do seu revolucionarismo e ano de sua primeira detenção, no jornal Vanguarda, acerca do referido seminário:

O seminário de Beja é o limbo das dioceses. A ele se acoitam todos os ordenandos das outras partes escorraçados por demasiadamente espertos ou palúrdios. (…)

Mas o seminário de Beja não é gratuitamente um ‘refugium peccatorum’. Quem leva a demissória tem que levar a bolsa bem recheada, e disposições de ser mártir e escarradeira.

Começa o edifício por ser um cárcere de tijolo, sem ar nem luz. Higiene absolutamente alguma. O regime alimentar é um fac‑simile do divino mestre nas montanhas. As autoridades, uns pequenos carrascos, oprimindo à moderna, do alto da sua bondade oleosa.

Tirante alguns professores, aquilo é um sobado de que partilham a tanga e o ceptro os manos Ançãs. Dissimilhante à superfície, no fundo parecem ‑se como dois ovos de gibóia. Um deles é o sacerdote pimpão da lei mosaica, abatendo o toiro do sacrifício com uma punhada, alto e ossado como um poste telegráfico; o outro é uma criatura feita de bolinhos de açúcar, e vinho de camoezas, tocador de lira às plásticas de Maria, mavioso e terno como uma bandurra de fadista. Estes siameses correm para as ambições como para dois nortes, a todo o custo, de moral grossa, intrigando, pervertendo, espadeirando.

Um é comendador e faz tirocínio para bispo; outro, epicurista desembuçado, dá ‑se à vida, com chácara, vacas malhadas, mulher, mesmo às portas da cidade sob o olhar do paço episcopal. (…) Fecham ‑se as escolas e abrem ‑se destes viveiros, em que se matam lentamente pobres seres, sacrificados como uns eunucos, a um porvir odioso mirabolante.

A afeição que Aquilino nutre, por exemplo, pela Nossa Senhora e pelo Menino Jesus da Lapa retrata ‑se em O Livro do Menino Deus, entre outros, assim como a demonstrada por Santo António de Lisboa se evidencia em Humildade Gloriosa. Mas se este afeto compassivo por oragos de sua quase devoção deixa entrever resquícios lamentosos de um sentimento religioso que se afastou, definitivamente, de um Libório Barradas, de Lápides Partidas, irrompe em cólera, numa total eclesiofobia, quando recorda o prefeito‑sacristão do Saraiva, o injusto Pe. Mourão ou os manos Ançã…

E é aqui, à mistura com uma memória e um substrato vivencial teológico, que surgem teografados os ecos da sua cosmovisão literária, espécie de segunda pele nunca completamente despida, de “um cético com nostalgia da fé”, no dizer de Paulo Pereira, persistentemente apresentada na meia grosa de títulos que fazem a sua obra.

 

Bibliografia

RIBEIRO, Aquilino (1948). Uma Luz ao Longe. Lisboa: Bertrand.

(1918). A Via Sinuosa. Lisboa: Bertrand.

(1930). O Homem que Matou o Diabo. Lisboa: Bertrand.

(1931). Andam Faunos Pelos Bosques. Lisboa: Bertrand.

 

resumo
Analisam ‑se, neste artigo, as modulações do sentimento religioso documentadas na multímoda produção ficcional de Aquilino Ribeiro, da nostalgia do sagrado à mais violenta eclesiofobia, concedendo particular destaque à autobiografia romanceada de Uma Luz ao Longe.

abstract
This article seeks to analyse the modulations of the religious feeling as documented in Aquilino Ribeiro’s diverse fictional production, ranging from the nostalgic yearning for the sacred to the most acrimonious eclesiophobia, focusing particularly on his fictional autobiography entitled Uma Luz ao Longe.

 

[1] Cf. Carina Infante do Carmo (1998). Adolescer em clausura. Faro: Universidade do Algarve.

 

(Fotos pn@)