Aquilino: revolver o chão áspero da sua leira…

por Paulo Neto | 2017.09.23 - 20:46

 

 

“Há um par de bons anos, quando vim a primeira vez de visita ao vosso vizinho Aquilino, trazido pela curiosidade de o ver na casa da Soutosa, longe do Chiado janota que ele animava com a sua forte presença de serrano e onde com ele convivi, reparei então, sobre a mesa de trabalho, anichada junto ao vão da janela que dá para o recolhido pátio das tílias, naquele retrato de Balzac – gordo e de colarinho aberto, a mão enfiada na carcela da camisa, cabelo revolto, face robicunda, parece que ao mesmo tempo radiante e lívida da insónia – mostrando-se, como após uma dessas suas frequentes alucinações criadoras, em que dia e noite, o possesso, não largava mão da pena. Ainda lá se encontra o retrato, no mesmo lugar – várias vezes o tornei a ver – encaixilhado na moldurinha metálica, de recorte e gosto românticos. Nessa ocasião, debrucei-me sobre a fotografia e quando em silêncio volvi os olhos para Aquilino, o velho amigo sorriu-me, com certa sombra de irreprimível melancolia no rosto aberto e franco, para dizer, encolhendo resignadamente os ombros:

— La bête de somme.

Deste modo designam os franceses o animal de carga.”

Estas foram palavras proferidas por Manuel Mendes, o escritor, o amigo, o correligionário de tantas lutas, o padrinho da neta mais velha de Aquilino, numa palestra proferida no Clube dos Rotários de Viseu, no dia 23 de Junho de 1966, volvidos três anos sobre a sua morte.

(foto do espólio de Abel Manta, gentilmente cedida pela neta do pintor, Isabel Manta)

 

Hoje estive na casa da Soutosa e elas vieram-me à cabeça ao entrar no escritório e deparar com a mesma secretária e a referida fotografia.

Aquilino, ao retratar Honoré de Balzac, o pai da “Comédie Humaine”, “antologia” onde em 1845 juntou 95 das suas obras, está a autorretratar-se, a ele, também “homme plume” que da sua escrita toda a vida viveu, excepção feita aos parcos anos de professor no Liceu Central de Camões e de seguida, como 2º bibliotecário na BN, a convite do seu amigo Raúl Proença.

La Bête de somme” é também um metafórico epíteto para o escritor português que Aquilino tanto admirava. Camilo Castelo Branco, que em São Miguel de Seide vivera a “vida verdadeiramente dramática de um galeote das letras, a cavar com génio e lágrimas o escasso pão do seu sustento e a glória de um grande escritor…”

A visão adequadamente ficcionada do Escritor de quem, por obra e graça do divino, jorram milhares de páginas que fazem encanto e gozo de seus leitores, é uma mera fantasia.

“Também Aquilino nos deixou a lição varonil e admirável de uma vida longa de trabalho, no apelo instante da tarefa a realizar. – Ai, as horas perdidas! – Mas o escritor das Terras do Demo impunha-se como outra espécie de homem, hercúleo, sadiamente fecundo e pertinaz, radiante de poder e energia, cuspindo cada manhã com afoiteza nas mãos, bom cavador que pega na enxada – era este o símile de trabalho que mais lhe agradava – e de sol a sol, ano após ano, revolve o chão áspero da sua leira.”

Ir a Soutosa, à Fundação Aquilino Ribeiro, sentar-se num banco do parque das tílias, “palácio dos seus pardais”, ou entrar portas adentro do seu exíguo escritório de pouco mais de 12 m2, em térreo piso, por duas janelas rasgado, é recriar na memória a infinita grandeza de Mestres que, na Rue Berton em Paris, na Soutosa das Terras do Demo, ou em São Miguel de Seide, lá para as bandas de Vila Nova de Famalicão, deram ao mundo centenas de milhares de páginas, arduamente suadas e escritas para prazer de tantos milhões de leitores. Mas é mais, é apaziguar-se num “santuário” que ainda hoje, vivamente, corporiza a figura emblemática do Escritor e nos traz aos olhos e ao coração um percurso de vida pleno de coerência e de coesão em torno dos seus ideais nunca abandonados, de modelar Fraternidade e Liberdade.

A propósito, já foi à FAR, a Soutosa?