Aquilino e “A Condessa da Ega”, um romance (?) que não viu prelo…

por PN | 2017.04.26 - 00:06

 

 

Aquilino é uma renovada surpresa para os seus bibliófilos.

Ontem, chegou-me à posse uma edição da Lello, da obra “Maria da Fonte“, de Camilo Castelo Branco. Não está datada. No verso destacam-se os títulos publicados nessa colecção. O nº 9 é “O Cavaleiro de Oliveira”, por Aquilino Ribeiro. Sabendo que esta obra foi publicada em 1922, podemos conjecturar, embora sob pena de abuso, que esta edição do estudo histórico de Camilo sobre a Maria da Fonte, será da primeira meia década ainda dos anos 20.

Ainda no verso, nos “novos volumes a publicar” vem a surpresa “A Condessa da Ega” por Aquilino Ribeiro. Ora, esta obra – como outras há – nunca viu prelo.

Existiria em manuscrito? Que foi feito dela? Porque não foi ela editada?

Acerca de outro título que nunca viu prelo, “Hilário Barrelas em Paris. O que viu e ouviu”, mas cujo manuscrito existe e já o tivemos em mãos e sob o olhar…

http://www.ruadireita.pt/culturalmente-solido/a-proposito-de-um-prefacio-palestra-no-auditorio-aquilino-ribeiro-sernancelhe-3457.html

http://www.daoedemo.pt/noticias/detalhes/1481

http://www.cnc.pt/artigo/1823

 

De acordo com o blogue “Guerra Peninsular – As Invasões Francesas”…

A condessa da Ega

O 2º Conde da Ega, Aires José Maria de Saldanha, enviuvando em 1795, casou em segundas núpcias com D. Juliana Maria Luísa Carolina Sofia de Oyenhausen e Almeida, filha da notável Marquesa de Alorna.

Entre 1807 e 1808 o conde, recentemente regressado de Espanha onde fora ministro plenipotenciário, recebe de forma entusiástica os franceses e chega mesmo a tomar parte activa na nova admnistração liderada por Junot. O seu palácio, conhecido por da Ega ou Saldanha e onde estão hoje instalados os Arquivos Históricos Ultramarinos, sofre obras de embelezamento da fachada e interiores, sendo o cenário para grandes festas em honra dos novos governantes.

Junot era frequentador assíduo e encantado pela formosura de D. Juliana fez dela a sua amante oficial enquanto esteve em Portugal. Mas o idílio só dura até à convenção de Sintra, altura em que o casal se vê obrigado a fugir para França acompanhando os seus protectores, de Napoleão recebem uma pensão de 60.000 francos anuais, que gozam até à sua queda em 1814.

Em 1811, um tribunal condena os portugueses que estavam em França à morte, sentença que nunca seria aplicada e em 1823 outro tribunal anula estas sentenças permitindo o seu regresso a Portugal. O Conde opta por se manter afastado da cena política e vem a falecer em 1827. D. Juliana casa novamente com o Conde de Strogonoff, um russo e falece em S. Petersburgo no ano de 1864.

O palácio abandonado, serviu de hospital para as tropas anglo-lusas e depois como quartel general de Beresford, a quem D. João acaba por doar o edifício em 1820. A família só consegue reavê-lo após uma longa demanda em tribunal em 1838, mas dificuldades financeiras levam à sua venda.

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Armas dos Condes de Ega

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Uma curiosidade:

” STROGONOFF E SOPA JULIANA” 6 de setembrode 1834 “- Mas que invenção vem a ser esta? gritou a marqueza – Ora, senhora minha mãe – veio acudir Henriqueta, dama camarista da rainha. – Estamos só a pôr em prática as receitas que a mana JULIANA mandou da Rússia. Um dia destes levo-as ao paço. – Sabe bem que na Rússia as pessoas perdem os dentes por culpa do clima e da alimentação, não se trata de um privilégio exclusivo do conde STROGONOFF! – É certo que, segundo diz a mana, o conde não tem dentes, mas é também certo que era esta a ementa mais comum dos soldados russos, e o conde Strogonoff, nosso ilustre cunhado, vá lá saber-se porquê, afeiçoou-se ao prato… – Dizem que tal se deve ao cozinheiro de Sua Majestade o Czar, que aprimorou a receita  com outros temperos. Dizem que o conde o protegia de tal forma que o cozinheiro resolveu batizar a carne com o seu nome. – E vai dizer-me que ontem  a minha mãe também não apreciou a receita da sopa que a JULIANA mandou, como sendo muito ao gosto do conde?-couves, cenoura, beterraba, nabo e aipo, tudo desfiado? – Pois olhe que o mano muitos elogios lhe fez! Também foi receita da Juliana e até já a batizámos: SOPA JULIANA!”

In blogue “Cavalo Selvagem

 

Estes pormenores são meros acessórios ilustrativos… ficamos a saber quem seria ou era a protagonista (estaríamos perante um romance ou novela de personagem/uma biografia/uma análise histórica???) … mas nunca saberemos o que Aquilino sobre esta intriga teceu ou iria urdir.

Convém não nos esquecermos do João da Ega, em “Os Maias”, de Eça de Queirós. Mais que provável alter ego do romancista…

O Palácio da Ega, situado na Rua da Junqueira, Calçada da Boa Hora, em Lisboa, encerra hoje o Arquivo Histórico Ultramarino.

A partir daqui, desta tessitura inacabada, quantas ficções poderíamos nós tecer?

Há um livro com o título: “Juliana Condessa Stroganoff” e subtítulo: “Filha da Marquesa de Alorna – A vida da portuguesa mais influente da Europa no século XIX“, de Pedro Norton, que confessamos não ter ainda a ocasião de ler… Edições Leya – Livros de Hoje, 2012.