Aos meus doentes: sobre a greve dos médicos

por Renata Aguiar | 2018.05.08 - 12:13

 

 

Hoje estou de greve – assim como amanhã e depois. Peço desculpa a todos os meus doentes que hoje chegarão ao hospital e encontrarão o gabinete vazio. Tive o cuidado de ver os exames e de deixar todas as consultas remarcadas; mas ainda assim, sei que ficarão indignados por uma visita ao hospital em vão.

Mas deixem-me falar-vos desta greve: derradeiramente, ela é por vós. É pelo Serviço Nacional de Saúde em que acreditámos e que vemos degradar-se todos os dias. O mesmo sistema que sufoca quem nele trabalha não pode ser capaz de cuidar de quem dele precisa. Falo-vos do meu caso, enquanto médica reumatologista – mas decerto o panorama seria semelhante se fosse cirurgiã, médica de família ou cardiologista.

É verdade que queremos fazer valer os nossos direitos. Queremos descongelar as carreiras médicas. Queremos concursos atempados para os colegas que, como eu, terminam a sua formação específica e aguardam quase um ano por um concurso. E de que forma é que isto mexe com os doentes? Porque, sem progressão e qualificação, não teremos a mesma capacidade para formar jovens médicos, e sem bons profissionais a qualidade da prestação de cuidados decairá. Por outro lado, o desalento da perspectiva de impossibilidade de progressão na carreira, bem como um período interminável sem respostas sobre o futuro, levam muitos médicos a procurar alternativas – nomeadamente a emigração ou a saída do sistema público.

Queremos melhores condições para os cuidados de saúde primários. Os médicos de família são basilares no funcionamento do SNS; mas como poderemos esperar cuidados de qualidade quando eles estão encarregues de ficheiros de quase 2000 utentes, a cujas necessidades – complexas ou simples – têm de dar resposta em consultas de 15 minutos? Como podemos aceitar que todas as tarefas que não se sabe bem a quem atribuir lhes sejam atribuídas a eles, que vivem já submersos em burocracia?

Queremos acabar com as empresas de trabalho médico temporário, nas quais são injectados balúrdios. Queremos antes que as necessidades das instituições sejam supridas de forma definitiva por médicos contratados, que pertençam à instituição e vistam a camisola dela. Porque eu volto ao meu hospital todos os dias, e visto por ele a camisola; o meu trabalho não termina nem a minha consciência desliga quando saio do meu período de trabalho espúrio numa instituição a que não pertenço. E isso faz toda a diferença.

Queremos não ter de trabalhar mais de 12 horas seguidas no Serviço de Urgência. Actualmente não faço urgência, mas fiz durante 5 anos, e sei bem o quão exigente e desgastante é. Não conheço nenhum doente que queira ser avaliado no serviço de Urgência por um médico que está a trabalhar há mais de 12 horas, aumentando exponencialmente a probabilidade do erro, nem tão pouco por um médico que, chegado a quinta feira, já trabalhou mais de 60 horas. Não é por sermos mandriões que não queremos fazê-lo: é por sermos humanos e não sermos capazes de exceder as nossas capacidades.

O que nós gostaríamos que os nossos doentes soubessem é que todos os dias nós trabalhamos no limiar das nossas possibilidades. Não há espaço para imprevistos – quando, na verdade, o previsível é haver todos os dias um imprevisto. Eu não quero que a minha vida exija, para sempre, que eu tenha de escolher entre a minha noção de dever e a minha vida pessoal. Não quero chegar a casa todos os dias mais tarde para assegurar que todo o trabalho fica feito – porque, como sabeis, o nosso trabalho não se esgota nas consultas. Há sempre resultados que não ficam atempadamente prontos para a consulta e que ficam por ver e por comunicar, exigindo uma actuação em concordância; há sempre os emails e os contactos telefónicos com as vossas questões a que queremos dar pronta resposta; há sempre relatórios que são pedidos para ontem; há sempre alguém que não escolheu ter uma crise antes da próxima consulta e que precisa de nós rapidamente; há sempre os contactos necessários com outros colegas e outras instituições, que nem sempre são fáceis; e por aí fora. E não há tempo nos nossos horários para estes “imprevistos previsíveis”. Sim, eu poderia sair à minha hora, alegando simplesmente que tenho demasiadas tarefas a desempenhar no meu horário laboral. Ninguém me poderia culpar por o fazer – a não ser a minha consciência. Eventualmente, a angústia de estar a remar contra a maré, acreditando que algum dia as coisas irão mudar, irá tomar conta da consciência. Quem poderá culpar-me quando eu decidir chegar a casa a horas, independentemente do que houver?…

O sistema em que trabalhamos mede a qualidade por números. Não quer saber se tratamos bem ou mal os nossos doentes, se lhes dedicamos a atenção de que necessitam ou não. Se somos humanos e empáticos ou se somos robôs gélidos. Quer apenas que façamos muitas consultas, que sejamos capazes de dar muitas altas (o que é impossível no caso da Reumatologia, porque as nossas doenças são maioritariamente crónicas, e exigem um acompanhamento ad eternum; perdoem-me se não lhes dar alta da minha consulta faz de mim um mau elemento). Os doentes deixaram de ser pessoas; são meramente números. São códigos. Porque até os nossos registos têm de estar de feição a que tudo possa ser codificado. O sistema quer que gastemos pouco dinheiro com fármacos, independentemente do que o nosso conhecimento considerar a melhor opção. O nosso sistema distingue as especialidades gratas das ingratas – aquelas que gastam dinheiro ao hospital com fármacos, exames e doentes crónicos, por comparação às que geram dinheiro através de cirurgias e uma elevada rotatividade de doentes nas consultas. São estes os parâmetros de sucesso.

O sistema em que trabalhamos não quer saber se nós estamos bem nele. As histórias de burnout repetem-se. Ser médico, como eu sempre quis ser (e, estou certa, todos os meus colegas quando sonharam sê-lo), é cada vez mais desgastante. A responsabilidade de cuidar de alguém é imensurável. A incapacidade para dar resposta às necessidades dos nossos doentes é tremendamente frustrante. E, quando temos alguém a precisar de ajuda à nossa porta, não podemos dizer-lhe que agora não dá e que a culpa é do sistema. A angústia que tantas vezes trazemos para casa, os horários trocados, as horas de sono que perdemos, o tempo que não passamos com as nossas famílias e amigos, o desrespeito que sentimos pela parte dos nossos superiores e até, por vezes, por parte dos nossos doentes, que não percebem a dinâmica em que trabalhamos – levam-nos muitas vezes a implodir. Já coloquei a mesma questão inúmeras vezes: quem vai cuidar de quem cuida, quando quem cuida sucumbir?

E por favor, não nos digam que somos bem pagos para o que fazemos. Procurem as tabelas salariais e surpreendam-se ao descobrir que nenhum de nós traz para casa um pote de ouro. Somos tão mal pagos como todos os funcionários públicos deste país. Não estamos a reivindicar salários, porque a situação precária é transversal; mas por favor, não cultivem a ideia de que somos uns mercenários.

Por isso, peço desculpa aos meus doentes por hoje não estar – nem amanhã, nem depois. Mas esta luta é também vossa, e espero que a travem ao nosso lado. Para que nós sejamos capazes de cuidar melhor de vós.