“Antes de viver com os outros, tenho de viver comigo próprio.”

por Amélia Santos | 2016.03.08 - 12:36

 

Esta é uma das frases que sublinhei e reli várias vezes num maravilhoso livro de Harper Lee, Mataram a cotovia, em novembro último. Este título é obviamente simbólico e a justificá-lo surge, a dado momento do romance, uma advertência de pai para filho:

“(…) mas lembra-te que é pecado matar uma cotovia. As cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós (…)”

Harper Lee veio-me de novo à memória agora, porque morreu no dia 19 de fevereiro, um dia antes de Umberto Eco e, se a este último, por ser um escritor com tantas obras de exceção, a comunicação social dedicou algum tempo, com reportagens, recordando entrevistas que ele deu, alguns dos seus livros mais marcantes e frases célebres, já à morte de Harper Lee não foi dedicado quase nenhum tempo, nem mereceu, pelo menos em Portugal, quase nenhuma atenção. Foi uma espécie de rodapé dos noticiários. E eu, porque ainda vivo com a história magnífica de Mataram a Cotovia dentro de mim, senti esta falha de forma aguda e apeteceu-me dedicar-lhe algumas palavras…

Mas quem foi Harper Lee? Uma escritora americana que publicou muito pouco, mas que entre a escassa bibliografia, deu à estampa, em 1960, aquele que seria o seu livro de referência, Mataram a cotovia, premiado com um Pulitzer de ficção em 1961.

Li este livro, quase por acaso, levada por uma estranha atração pela editora que o publicou em Portugal, a Relógio d´Água, porque acabara de ler um livro marcante, com esta chancela e, irracionalmente, fui levada a comprar outros títulos sugestivos, com a encadernação familiar… Li-o compulsivamente e fiquei, desde logo, enfeitiçada pela história, que se situa numa pequena cidade do Alabama, durante a Grande Depressão, onde o racismo é ainda «a lei», a lei que impera. Mas fiquei rendida sobretudo com as suas personagens, com a família de Aticcus Finch, um advogado viúvo que educa os dois filhos à luz de uma verdade interior, de uma honestidade intelectual, de uma grandeza moral, que nos desarma a nós, leitores…

Pese embora, a rebeldia de Scout Finch, a filha e protagonista do romance, Aticcus não desiste de lhe fazer entender a importância de lutar por aquilo em que acreditamos, mesmo que isso nos custe sair da zona de conforto, largar «a tranquilidade dos cobardes» e arriscar ser irreverentes. Interrogar aquilo que parece estar estabelecido. Ousar ir mais além e contestar aquilo que julgamos não estar certo ou desajustado. Aticcus encoraja os filhos a refletir, a fugir à ignorância, a enfrentar os preconceitos e a lutar contra a hipocrisia e a favor da liberdade. Fiquei completamente rendida perante a grandeza desta família tão especial. Em vários momentos vislumbrei a nossa sociedade atual. Há personagens no livro que nos lembram personagens da vida real, que ainda hoje identificamos pelas cobardes semelhanças. A cobardia continua a ser praticada com muita elegância e mestria, fazendo crer aos mais desatentos que se trata de outra coisa qualquer… Usa-se o silêncio quando se devia usar a palavra e esta última vai perdendo cada vez mais o seu significado e importância.

Mas, nem todas as verdades são para todos os ouvidos, disse Umberto Eco, e com toda a razão!

Por isso sublinhei neste romance as palavras de Aticcus: “Antes de viver com os outros, tenho de viver comigo próprio. A única coisa que se sobrepõe à regra da maioria é a nossa consciência.” O pior é que alguns, de tanto viverem para os outros e pela regra da maioria, já não sabem viver consigo próprios!

Abençoados os livros que nos recordam com subtileza e inteligência as grandes verdades. Que nos oferecem espelhos onde vemos refletido aquilo que somos, no bem e no mal. Que nos oferecem a oportunidade de retirar a maquilhagem que está a mais e de nos fazer sentir mais confortáveis com a imagem que projetamos de nós.

E, subscrevendo aquilo que escreveu Harper Lee, numa carta a Oprah Winfrey, em 2006:

“Agora, 75 anos mais tarde, na sociedade da abundância, onde as pessoas têm portáteis, telemóveis e IPods, e mentes que parecem quartos vazios, eu prefiro teimosamente os livros.”, eu também!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

Pub