Agustina e “O Susto”

por PN | 2019.07.16 - 10:52

Agustina Bessa-Luís é inquestionavelmente um dos maiores nomes da literatura portuguesa. Nascida em Vila Meã, Amarante, em 1929 deixou-nos no passado mês de Junho, no Porto.

Legou-nos uma vasta obra. Prolífica escritora, os seus quase 100 títulos são uma inesgotável fonte de prazer, sabor e saber para os seus leitores.

Até agora editada pela Guimarães, surge actualmente na Relógio d’Água com reedições bem escolhidas e conseguidas.

Uma dela “O Susto”, que faltava no meu acervo, teve a 1ª edição em 1958 e foi agora reeditada em Janeiro de 2019, com um excelente prefácio de António Feijó, meu docente sapiente, in illo tempore, na FLUL.

Conta-nos a “história” de José Midões, que não é senão Teixeira de Pascoaes.

O irmão do poeta, João Teixeira de Vasconcelos não gostou da forma como a sua família ali foi abordada e, numa dura carta pública, denunciou “a audácia atrevida, o ressentimento e o niilismo da autora.”

Agustina foi feroz na sua autodefesa. Na querela e à época, entre outros, interveio José Régio, o escritor vila-condense: Agustina não lhe perdoou a parcialidade e, em 1992 publica o seu romance “Ordens Menores”, cujo protagonista Natan não é senão José Régio, na ficção “um menino de ouro do Porto”.

No romance “O Susto”, além de José Midões – Teixeira de Pascoaes, perpassa também Álvaro Carmo, nem mais nem menos que Fernando Pessoa.

Este é um livro que só Agustina ousaria e teria competência para escrever. Depois de o ler dei vez à releitura de “Ordens Menores” lido à sua saída, em 92, e tendo ficado dessa leitura um subtil enublado nas teias tecidas de sua intriga.

Agora tudo se tornou claro. Límpido até. E nesta mistura de realidade e ficção, de verdade e verosimilhança, foi com enorme prazer que nos deixámos enredar com deleite na mundivivência de tão grandes obreiros das Letras portuguesas, pela pena arguta, extraordinária e impiedosa de Agustina retratados, no fundo, todos eles, contemporâneos, geniais e três deles conterrâneos.

Faça das duas obras sua leitura de férias. Pelo menos “O Susto” encontrará à venda… deixe-se levar com ele.