A tragédia desta mulher, a tragédia de cada um de nós…

por Amélia Santos | 2016.02.24 - 19:12

 

Depois das notícias que chocaram o país sobre a morte de duas crianças numa praia de Caxias e sobre a alegada intenção da mãe em pôr termo às vidas das três, há um vazio que se instala em nós. Em nós, mães. Em nós, filhas de mães “heroínas” e em todos os seres humanos pensantes e emocionais.

Pese embora todos os debates e todas as opiniões de gente creditada nas mais diversas áreas sociais, da psicologia e da psiquiatria, que ora põem a tónica da culpa numa ou noutra instituição que não funciona, na falta de celeridade destes processos complexos, enfim… há um vazio que se instala em nós, em todos os que perdem algum tempo a refletir sobre o assunto. O que pode mover uma mãe a matar os próprios filhos? A acabar com a vida de crianças que certamente tantos sorrisos lhe dedicaram, tanta ternura lhe inspiraram nos mais diversos momentos da relação mãe-filho?

Há um vazio que se instala em todas as mães que sacrificam vidas pelos filhos, que tiram da própria boca para lhes dar a eles, que se abandonam a si próprias para poder proporcionar isto ou aquilo à sua prole. Quem não se emociona ao olhar para aquela assombrosa foto do australiano Warren Richardson que recebeu o prémio principal do World Press Photo, o maior concurso de fotojornalismo, agora em 2015? Na foto a preto e branco e com pouca luz veem-se dois refugiados adultos, numa madrugada, na fronteira entre a Sérvia e a Hungria, a passar um bebé pelo buraco da vedação de arame farpado. Impressiona os mais insensíveis. Fogem à polícia e fogem à morte. E um bebé dificulta tanto as coisas… Mas quem o consegue largar?

Mas há certamente um vazio maior em todas as mães que no meio de uma destruidora impotência perderam os seus filhos, sem nada poder fazer. E que nunca conseguem superar essa dor aguda e dilacerante que muda as suas vidas e as suas personalidades para sempre e irremediavelmente. Como conseguem estas mães olhar para estas notícias? Como conseguem encarar estas verdades cruéis e tão injustas para quem tanto queria poder cuidar e mimar os seus meninos?

Haverá algum compartimento da mente humana que nos ajude a compreender este gesto? Admite-se uma grande depressão, um esgotamento, cansaço da vida, sentimento de impotência, loucura. Mas, acabar com a vida dos próprios filhos? Não haverá outras possibilidades? Nada mais acode às mentes doentes destas mães? Bem sei que estas doenças serão causadoras de dores insuportáveis, irracionais e incapacitantes. Mas, acabar com a vida dos próprios filhos?

Há uma série de questões que cada um deve colocar-se interiormente. Quem somos nós, afinal? Do que somos capazes em situações extremas? Até onde vai o nosso egoísmo? E o nosso altruísmo? O que é certo é que, quando olhamos para a tragédia grega, encontramos tudo isto e muito mais. Não é um problema da contemporaneidade. É um problema do homem e da sua humanidade ou falta dela. É a dificuldade de lidar com frustrações. São os recalcamentos… Convém que cada um de nós dedique um pouco do seu tempo, não só a pensar nas tragédias alheias, mas também a pensar nas próprias…

Esta é, sem dúvida, a maior tragédia do ser humano. Muito mais que todos os crimes, este acaba com aquele resto de dignidade emocional. Esta mãe já morreu interiormente. Morreu no exato momento em que pediu ajuda, em que foi resgatada e se terá mostrado arrependida, segundo o relato do taxista que a socorreu…

O seu martírio é continuar fisicamente viva e confrontar-se a todo o momento com a sua miséria interior.

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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