“A simplicidade é o último grau da sofisticação”

por Amélia Santos | 2015.11.26 - 10:03

 

um momento único com Benjamim Clementine –

Quem é Benjamim Clementine? Ouvi falar dele pela primeira vez há dois meses. Uma amiga com um refinado gosto musical – a Sónia Pinto – convidou-me para a acompanhar ao concerto que ele daria em Aveiro, dia 24 de novembro. A partir daí fiz uma pequena pesquisa e ouvi algumas músicas na internet. De facto, mesmo no youtube, somos surpreendidos por um vozeirão inquietante. Essa inquietação nasce de uma biografia sofrida, que natural e verdadeiramente contagia a sua performance musical. Benjamim Clementine é um jovem. Um jovem de apenas 27 anos, mas com experiências de vida que eventualmente lhe acrescentam tempo, muitos tempos à vida, àquela que poderá ser a norma para alguém com a sua idade. Não quer falar sobre si próprio, porque as pessoas gostam de histórias e as histórias da sua vida podem sobrepor-se à sua música, teme. Ele quer que a sua música seja a protagonista de qualquer referência que a ele se faça. E, não é difícil. Depois de ouvir Benjamim Clementine percebe-se extraordinariamente bem como é que a arte musical nos toca a alma. Parece uma voz investida de poderes mágicos, sobrenaturais, divinos… que contagia e arrebata quem a ouve.

A primeira música que ouvi chama-se “cornerstone”, talvez a mais conhecida entre nós. E é arrepiante ouvi-lo a si e ao seu piano, como se fossem uma só expressão e explosão de emoções. Mesmo sem entender a letra, consegue fazer-nos chorar… Como aqueles estrangeiros que ao ouvir fado choram, mesmo sem perceber o que se diz… Basta sentir! Depois tive curiosidade de ver a letra de “cornerstone” e fiquei gelada. O primeiro verso diz “I am alone in a box of stone”- estou sozinho numa caixa de pedra – e mais à frente repete “Its my home, home, home, home…” Este som «ome» só por si é melancolicamente triste e evocará aquelas que serão as vivências solitariamente amarguradas deste grande compositor, poeta, dotado de uma voz esplendida, que se não é vinda de um outro mundo, é certamente vinda de outros mundos ou submundos…

No concerto de ontem, fechei os olhos por várias vezes e deixei que fossem apenas os meus ouvidos a concentrar esta experiência sensorial e senti-me mergulhada neste mar repleto de azul, de ondas que nos levam e nos trazem, de vivências que, não sendo exatamente as nossas, nos transportam para algo que já vimos ou lemos…num filme ou documentário, num livro…e que nos marcou, nos magoou, nos lacerou…

Benjamim Clementine, de pés descalços, dá a mão ao piano. É uma presença forte, que no entanto sussurra quando fala. É tímido e contido, mas magnético e exacerbado.

A música salvou-o. Ele salva a música e a sua música salva-nos a nós…

Transcende. Transcende-se. Transcende-nos.

Ocorre-me, para resumir a performance que ontem tive oportunidade de ver e de sentir, uma frase de Leonardo Da Vinci que diz que “A simplicidade é o último grau da sofisticação”. É assim Clementine – um aristocrata que veio da rua…

 

(foto DR)

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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