A real ficção I – Ler o amanhã

por Fernando Figueiredo | 2019.06.17 - 17:23

Hoje, 10 de Outubro de 2019, passada a euforia da campanha e a espuma das ideias voltamos à rotina do quotidiano.

Tempo de balanço dizem uns, tempo de projectar o futuro, dizem outros e por mim basta-me o presente de saber que é Dia Mundial da Saúde Mental, há que fugir de tanto lamento, promessas e balelas do costume.

Como diz o povo, as moscas lá vão mudando, mas de resto tudo se mantém! Foram 3 meses de porco no espeto, de sardinhada da boa, da boa pinga do Dão e no resto da campanha nem uma ideia diferenciadora para o Distrito, uma expectativa positiva, um compromisso com uma visão sustentada… mas também para quê! Pão e circo é bom e quem não gosta?!

Lá veio à baila o IP3 que já tem mais promessas de requalificação que quilómetros na sua extensão, o Centro Oncológico do Hospital de Viseu, cancro político de vários governos sem terapia nem tratamento adequado, a promessa do emprego para todos sendo que os todos são cada vez menos e… pouco mais!

O norte do Distrito irá continuar a ficar cada vez mais deserto, o centro cada vez mais sem água, o sul cada vez com mais eucaliptos mas São Bento continuará pujante com os nossos deputados agora eleitos a fabricar leis semelhantes às da província finlandesa “Etelä-Suomen lääni” enquanto a região continuará a ter uma economia semi-albanesa e uma expectativa tão positiva quanto a Somália.

Podiam, sei lá, ter assumido o compromisso de acabar com as portagens da A25 e A24 em defesa da interioridade, ou no mínimo a certeza de irem lutar para uma redução significativa do valor dessas portagens, deixando de serem as auto-estradas mais caras da Europa, podiam ter assinado um pacto de regime entre partidos, autarquias e CIMVDL sobre a necessidade de garantir mais e melhor água no Distrito seja por construção de nova barragem seja pela melhoria das bacias das existentes, podiam ter anunciado medidas diferenciadoras e realmente motivadoras quanto ao aumento da natalidade na região, como o cheque bébé no valor de 10 mil euros, a redução na taxa de água de 50%, etc., podiam ter lançado o programa “reflorestar é que está a dar” para as zonas montanhosas de Serra de Montemuro, Arada, Caramulo, S. Macário, Leomil, Laboreira, Sirigo, Chavães, Pereiro, Leomil, Zibreira, Lapa, S. Lourenço, Arestal, Outeiro Alto e S. Miguel, podiam ter anunciado o projecto “quem quer ser agricultor” cedendo terrenos baldios a jovens agricultores e subsidiando a produção dos primeiros 3 anos, podiam ter lançado as bases do CLAI para apoiarem as comunidades imigrantes que procuram instalar-se no distrito, podiam ter anunciado o programa “mais e melhor emprego” que através da CIMVDL apoia de forma diferenciada a criação de emprego e as empresas do distrito aproximando as zonas mais desfavorecidas das zonas mais industrializadas, podiam ter assumido o compromisso de tudo fazerem para abrirem mais estações dos CTT em especial nos concelhos onde esse serviço já desapareceu, podiam comprometer-se através do envolvimento da CIMVDL em fazer do aeródromo de Viseu uma plataforma comercial via área, podiam ter explicado o programa “no centro é que está a virtude” lançado para o turismo, cultura e defesa da identidade regional, podiam ter muitas outras ideias… pois, podiam mas não era a mesma coisa!

Ao invés de discussão de ideias para o distrito a campanha focou-se na norma mais fácil de apontar o dedo ao adversário, um porque pinta o cabelo, o outro porque nem sabe onde é Penedono, a outra porque só conhece o LGBT, a outra porque deixou a câmara numa lástima, ou porque é velho ou porque é novo, ou porque não tendo ideias o mesmo diz do adversário que também não as tem e assim se gastou o tempo e o dinheiro dos contribuintes.

Nas urnas foi o que se esperava. Os 50% de 2015 que não votaram continuaram alheios, prova de que nenhum dos candidatos foi tão emotivo e entusiasta que os convencesse. Da metade que ainda se deu ao trabalho de ir votar nenhuma surpresa quis trazer. A democracia já pouco importa. Nomes eleitos? Se nem ideias têm que importância isso tem? Voltemos à rotina que amanhã é outro dia, e hoje é Dia Mundial da Saúde Mental e isso sim, conta e muito!

Fernando Figueiredo

Forjado na Beira Alta, aos 56 anos dá-se por bem casado e aprecia a companhia de três filhos, dois ainda na fase de espalhar magia a toda a hora; em família dá-se como feliz, apenas por o fazerem feliz. Como os duros estudou na Academia Militar, que não é para meninos e na época em que ainda se viajava de pé no comboio mas teve ainda tempo para queimar as pestanas em Gestão de Recursos Humanos. 36 anos “militarizado” vê-se agora na reforma a procurar ser “civilizado”. Em termos profissionais esteve no Iraque e voltou para contar, também esteve em Timor onde bebeu água de coco e visitou Jaco, erro fatal que lhe deixou o coração preso nas valorosas gentes timorenses e nas paisagens únicas do País que ajudou a ver nascer independente já no Séc XXI. Nos tempos livre actualiza o blog mais lido e odiado do delta do Dão, o Viseu Sra da Beira, e ainda escreve textos para jornais mas, poucos o lêem. Homem sem grande preocupação em fazer amigos, escreve o que entende sobre quem não consegue entender. Tais liberdades já lhe valeram um par de processos em tribunal, sem nunca se ter declarado Charlie. A genética deixou-o sem um único cabelo mas está careca de saber que os valores do trabalho, da honestidade e da amizade são o maior legado que o pai lhe deixou. Benfiquista moderado, gosta mesmo é de um bom jantar na companhia dos melhores amigos. Agora como empresário e homem de negócios só aceita de lucro o necessário para viver e distribuir por outros e de comissão a 100% a ética, a responsabilidade e o profissionalismo. É garantidamente mais bonito ao vivo que em foto.

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