A persistente “lata” de Almeida Henriques

por PN | 2019.11.19 - 13:25

Este fim de semana Sernancelhe abordou, com figuras nacionais de proa e académicos de relevo o Centenário de Terras do Demo. Um trabalho sério e rigoroso concedendo contributo relevante para o estudo de Aquilino Ribeiro.

Hoje, para não variar e porque é dia de feira, deparo-me com mais um “delírio” do Almeida Henriques cronista – colega que muito prezamos mas não admiramos – na sua coluna Terras do Demo, no CM, provavelmente uma reclassificação do título do romance de 1919, em 2019 adaptado a Viseu.

A epístola muito dedicada aos problemas internacionais – é sempre muito mais tentador ver o orgalho no olho do outro – afunila para chegar ao ponto: as alegadas “fakenews” que “corroem e destroem a democracia” – da qual se erige em defensor – ele, que é um difusor de incumpridas “news” (só em obras a fazer são às dezenas), ele que recorrentemente se esquece dos factos e escreve com candura sobre as novas verdades. Em suma, escreve sobre o que sabe.

E aí senão que chega ao “punctum”, a sua grande dor de cabeça com o Brexit – é sempre bom preocuparmo-nos com os problemas dos outros – e a justificação para trazer cá um escritor, em mais um festival tinto no branco (ou branco no tinto, pois a ordem dos factores há-de ser arbitrária) que vem das brumosas landes falar sobre aquilo que põe “em causa o quotidiano, a paz e a promessa de felicidade”, mais “as incertezas políticas que sugerem tudo ser possível” e os perigos a que estamos sujeitos.

Emocionante, na verdade. Como ejaculatória “pour épater le bourgeois”, uma perfeição simbólica da pródiga retórica oca. Neste domínio, um “case study” até e uma rábula assaz interessante. No fundo, anuncia e pré justifica o gasto de mais uns largos milhares de euros.

Viseu carece intensamente de ouvir o J. Coe. Ficava muito mais barato lê-lo. Mas ler é assunto que cansa a maioria dos “colunistas a martelo” e críticos de circunstância e oportunidade.

Viseu também carece de mais uma centena ou duas de coisas fundamentais, mas essas dão trabalho e não chamam os faroleiros da comunicação.

PS: Também há jurisprudência e até autores que consideram que a democracia periga com eventuais actos de prevaricação de seus dilectos agentes. Mas isso é outra conversa…

Paulo Neto