“À parte isso, temos em nós todos os livros do mundo…”

por Amélia Santos | 2016.05.05 - 09:03

 

Há um papel de embrulho da livraria Bertrand que tem escrito uma espécie de poema grande ou prosa poética, que fala dos livros, dos leitores, dos portugueses, do homem…

Fico sempre com pena de deitar fora esse papel de embrulho quando me oferecem algum livro ali comprado. Porque acho que aquele papel também é página de livro, poesia, frase para ler e reler. É a palavra com os sentidos… E, então, dei hoje por mim agarrada a um desses papéis, incapaz de me desfazer dele como faria com outro qualquer papel de embrulho, com flores, bonecos ou desenhos abstractos. Dei por mim a matutar na frase: “Somos livros”… Somos todos, efetivamente, livros, com melhor ou pior encadernação, com título visível ou apenas sugerido, que nos fechamos ou abrimos e nos deixamos folhear. Quiçá, com páginas em branco e sublinhados e anotações à margem…

Somos histórias passadas em tempos e espaços diversos. Narrativas. Temos em nós personagens principais, secundárias e figurantes. Convivemos com os vilões e os coadjuvantes. Lutamos contra os adversários. Somos protagonistas e eventualmente narradores suspeitos, porque partes interessadas na versão da história que contamos…

Somos um romance inscrito em cada memória, em cada fase difícil da vida e na superação de obstáculos. No sofrimento e na felicidade. No princípio e nos fins que vamos enfrentando ao longo do caminho, com as suas subidas íngremes e as calmas descidas. Somos o romance que habita cada casa onde vivemos, cada objecto de culto que nos rodeia. Somos os nossos silêncios, mais que os nossos gritos. Somos os nossos medos e as nossas fraquezas…

Somos o livro de poesia. “Temos em nós todos os sonhos do mundo.”

Temos em nós viagens, paisagens, o mar, a cidade e as serras. Irradiamos o sol e aluz e escondemos a lua e as sombras. Refletimos a música que ouvimos, mas também o som da chuva e os ruídos da cidade. As cores que nos encantam e os cheiros que nos inebriam.

Somos a noite calma e as insónias. O pensamento e a reflexão. O amor, a paixão e também a desilusão. Somos lágrimas de tristeza e gargalhada de alegria. Somos jardim e flores e emergimos num quadro de Monet. Somos a água que corre nos rios. Somos o canto de pássaro na primavera. Somos beleza e também fealdade.

Temos em nós toda uma infância de marcas visíveis e outras escondidas ou recalcadas. Somos relutância, coragem e cobardia. Somos mais as perdas  que as conquistas. Menos a sorte que o azar. Somos aquilo que procuramos e aquilo de que fugimos. Somos o que vemos, o que ouvimos e muito do que sonhamos. Somos mais as nossas dúvidas que as nossas certezas.

Somos a palavra proferida e a palavra calada. Somos os encontros e os desencontros, os encantos e os desencantos. Somos o que temos, mas sobretudo o que não temos.

Somos memórias e sonhos. Somos memórias sonhadas e sonhos recordados. Uma mescla perfeita de realidade e ficção. Somos biografias várias. Somos a nossa autobiografia.

Somos mais que o papel de embrulho belo e poético. Somos o livro envolvido por, e com, histórias… Somos livros, romances, poesia…

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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