A MINHA “TRIUMPH” ERA UM LUXO…

por Cílio Correia | 2017.03.30 - 09:21

 

Não me lembro que idade tinha quando ganhei uma bicicleta, mas recordo de ter que tirar uma carta de velocípedes, depois de fazer exame com o pândego do Sr. Melo, de Nandufe, na Câmara Municipal, onde havia um grande livro com sinais de trânsito.

O exame decorria no meio do corredor, diante dum livro aberto nos sinais de trânsito, num balcão inclinado, uma espécie da carteira de escola, em tamanho adulto. Para passar tinha que acertar nuns quantos sinais e só podia falhar dois. Se sabíamos andar de bicicleta ou não isso era coisa de somenos, agora os sinais eram imprescindíveis.

A minha bicicleta verde, marca “triumph”, era uma máquina uns degraus acima da “nova fermen”, outra marca. Tinha três velocidades, um guiador direito cromado, um selim de corrida e uma campainha. Nunca me serviram de grande coisa os carretos de três velocidades, andava quase sempre em “terceira”. A força motriz estava nas pernas e era um ver se te avias, de manhã à noite, com intervalo para as refeições. Tinha uma campainha branca, cromada, que era uma maravilha.

Foi muito útil. Corri seca e meca com a minha bicicleta “triumph” que caiu de velha, enferrujada, encostada a uma tangerineira no quintal. Para aprender ainda cheguei a dar uns tombos. Mais do que andar de bicicleta, o desafio era aprender a andar sem cair ou com o mínimo de danos físicos, para depois me levantar. Esse era o segredo que guardei como ensinamento para a vida: nunca dar nada por perdido, cair, mas levantar no instante seguinte. Não sabia, mas era assim que se aprendia, tal como na vida.

Nessa altura, disputava as ruas aos escassos carros que atravessavam a aldeia, carroças puxadas por burros e vacas. Agora estão demasiado sossegadas. Sem gente. Restam dois carros estacionados já com ervas por baixo, rentes aos muros para não estorvar e aos portões das casas e alguns cães numa correria louca a ladrar aos pneus dos carros, motorizadas ou bicicletas. Não perderam o vício. Há anos que não fazia este caminho. Coisas da minha aldeia.