À espera do caos?

por Paulo Rodrigues | 2018.07.13 - 15:53

 

O ranking Peace índex 2018 concluiu que Portugal é um dos países mais seguro do mundo. Bem vincado pelo próprio Ministro da Administração Interna, no dia 2 de julho, na cerimónia das comemorações dos 151 anos da PSP.

 

Não nos é propriamente estranha esta conclusão. Até porque sabemos bem o trabalho árduo que tem sido feito pelos polícias nas diversas áreas da segurança. No que diz respeito à PSP, tem conseguido manter o controlo da segurança e aumentado a tranquilidade pública, mesmo com responsabilidade nas áreas urbanas mais populacionais, através do combate ao crime organizado e violento ou através dos modelos de policiamento mais direcionado. Na verdade, este tema, que coloca Portugal num patamar de excelência ao nível da sua segurança, tem merecido os maiores elogios de entidades nacionais e internacionais, ao ponto de se ter tornado uma referência.

Não é por acaso que o número de turistas tem aumentado no País, praticamente durante todo o ano, sendo também bem visível o número de cidadãos estrangeiros que escolhem Portugal para viver, como tem aumentado o número de empresas internacionais a desenvolverem atividade nas cidades portuguesas. Em suma, somos um País promissor, muito por culpa do trabalho dos polícias, numa altura em que a Europa e o mundo vivem tempos de uma preocupante fragilidade ao nível da segurança. Portugal está, neste aspeto, em contraciclo.

É por tudo isto que não se percebe que o Governo mantenha uma postura de desvalorização dos problemas dos polícias e da própria PSP.

Leva-nos a crer que o Governo está à espera do caos para dar a importância devida a este setor, onde a PSP desempenha um papel crucial.

Esta atitude faz parte do déjà vu, nomeadamente com a dificuldade de combater os fogos no ano transato. Foi necessário aquele verão que matou mais de uma centena de cidadãos para que fossem atendidas as preocupações das instituições envolvidas. Será que com este triste cenário não aprendemos nada?

Os exemplos de situações problemáticas que nos estão a empurrar para um caminho dramático são muitos. Um dos insólitos aconteceu recentemente com um dos maiores Comandos de Polícia que não tinha frota automóvel suficiente para garantir o policiamento a um evento programado, como aconteceu com o Comando Metropolitano de Lisboa no policiamento ao Rock in Rio, e teve de pedir ao Comando Distrital da PSP de Setúbal viaturas emprestadas para poder suprir o problema. Refira-se que também o Comando da PSP de Setúbal não tem viaturas em número mínimo suficiente para as suas necessidades. Aqui aplica-se o velho ditado, quando o lençol é curto e se tapa a cabeça, destapam-se os pés.

Imaginemos se fosse uma situação imprevista, seja um ato terrorista ou outro incidente de grande envergadura ou complexidade, como já aconteceu em outros países da Europa. Como responderíamos? Quem iria ser responsabilizado por não dar a resposta adequada ou expectável?

Hoje temos uma policia com uma média de idades que ultrapassa já os 44 anos, temos comandos de policia, maioritariamente no interior, com médias de idade que ultrapassam os 50 anos. Será aceitável esta situação? Alguém pode dizer, com garantia, que nestes locais a segurança das populações está assegurada, mesmo nas ocorrências de maior complexidade?

Todos ficamos muito tristes e até choramos quando temos conhecimento de um suicídio na policia, mas alguma entidade levou este problema a sério?

Muitas perguntas sem respostas! A ASPP/PSP durante muitos anos levou este problema às mais diversas entidades responsáveis, organizou espaços de discussão, debateu internamente e apresentou propostas. Mas até ao momento tem sido um esforço inglório. Mas que saberemos, em tempo oportuno, exigir responsabilidades aqueles que  estão mais interessados em olhar para o interesse particular em detrimento do interesse publico.

A falta de uma política consistente e programada para a PSP, por parte dos governos, tem sido constrangedora. Neste momento, começa a faltar tudo, até a paciência dos polícias, que são aqueles que dão a cara pela irresponsabilidade daqueles que têm a obrigação de gerir as instituições deste País.

A segurança é um setor de elevada importância em qualquer Estado. Não seria razoável os Grupos Parlamentares, neste setor, chegarem a um entendimento para definir um programa racional, a médio/longo prazo, de investimento, garantindo meios adequados para o serviço policial, condições de trabalho e uma carreira justa e aliciante para os policias?

Está já a ser discutido o Orçamento do Estado para 2019, será que os deputados da estarão disponíveis a alterar o atual estado de coisas?

Será desta que o subsídio de risco vai ser aplicado aos polícias, quando já não existe sequer argumento para o colocar em causa? Será que é este ano que teremos as respostas aos problemas que estão a enfraquecer a PSP?

Exijam, como tem sido exigido, trabalho em quantidade e qualidade aos polícias, mas criem-nos as condições, tratem-nos com dignidade, respeitando os nossos direitos, e atribuam um vencimento de forma justa e de acordo com a nossa responsabilidade, risco e disponibilidade. Aí sim, teremos a certeza que continuaremos a ser um dos países mais seguros do mundo, independentemente dos desafios que tiverem de ser enfrentados. Os polícias têm cumprido, cabalmente, com o sua parte.

 

Paulo Rodrigues

Presidente da Direção da ASPP/PSP

 

Presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP)

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