A efemeridade do objecto?

por PN | 2019.12.03 - 13:13

Hoje, ao ler uma revista francesa de carros clássicos, num número “hors-série” dedicado aos “100 collectors des années 50”, constatei com alguma nostalgia, ter tido 8 desses 100 modelos apresentados.

Não é mau “score”, convenhamos.

Hoje, a especulação no sector dos automóveis clássicos leva gente endinheirada a comprá-los a esmo e em qualquer estado para os enfiar num grande armazém e esquecer a chave durante uma década, cientes de que mais vale investir neste mercado do que ter o dinheiro no banco.

Esta especulação gerou uma procura crescente para uma oferta cada vez mais reduzida. E assim, os preços dispararam em flecha para valores a raiar o proibitivo, em certos modelos.

Por exemplo, um Citröen ID (Idée), em França, dependendo do estado, negoceia-se entre os 18 e os 55 mil euros.  A título de mero exemplo, desfiz-me de um ID de fins da década de 50 (creio que de 58 ou 59), por dez réis de mel coado, ou seja, quase dado. E ainda foi preciso encontrar quem o quisesse…

Ou, in extremis, um Ferrari 250 GT pode ir dos 500 mil aos 70 milhões de euros…  Decerto que na Arábia Saudita, encontrarão um sheik entediado.

Provavelmente, se todos nós prevíssemos este potencial aumento de valor guardaríamos os “brinquedos” do passado e, hoje, ou usufruiríamos deles e do prazer da sua condução ou estaríamos a tentar vendê-los a excelente preço. Porém, quem tem posses, meios e garagem para manter hibernados os clássicos de há meio século?

Ademais, nesta era da efemeridade onde tudo num instante se torna “demodado”, ultrapassado, impraticável… nesta era hiper consumista, com um mercado a pôr novidades cá fora a um ritmo alucinante, ciente de que há compradores “esbaforidos” e endinheirados para correr atrás do “dernier cri”, quem guarda aquilo que pejorativamente se chamava de “calhambeque” na garagem? Um nostálgico com posses, ou um “passionnée” racional, que descobre um simpático “deuche” (2 cv), um popular “carocha”, ou um “mini” a preço ainda acessível, para se entreter nas horas de ócio no seu longo e gratificante restauro.

Nostalgic way”, decerto, mas com muito prazer…

Paulo Neto