A derrota do Carneiro em Castro Daire!

por Pedro Figueiredo | 2017.10.14 - 14:32

Passados os primeiros momentos de reacção mais acalorada aos resultados eleitorais é tempo de se analisar com mais detalhe as causas e as consequências destes resultados.

Como é sabido, era defensor da mudança de políticas e de protagonistas, lutei e votei contra o “regime” instalado, e apesar de não ter votado no PSD, (agora até parece que toda gente votou),fiquei contente pela sua vitória e pela derrota do Carneiro! Seria uma enorme hipocrisia da minha parte dizer que não gostei de assistir à derrota do meu maior adversário politico dos últimos 10 anos, assim como seria uma enorme falta de vergonha se viesse agora aproveitar a onda e colar-me a uma vitória de que não faço parte. Faço parte da derrota do Carneiro!

Ora da análise que importa fazer é essencial perceber as causas da derrota do PS Castro Daire, Carneiro e Vereadores.

Destacaria então quatro grandes causas dessa derrota:

A primeira grande causa advém da personalidade, e da forma de estar na política do Fernando Carneiro. Todos sabemos que em 2009 o PS venceu em Castro Daire muito devido à popularidade e a acção deste, mas não só. Venceu também devido ao trabalho feito anteriormente em especial em 1999 e 2005, à equipa desse ano  que incluía socialistas com passado no partido, bem distribuídos pelo concelho, e ao trabalho de base em várias freguesias como Cabril, Ester, Reriz e Mões. Foram estas vitórias, estas pessoas, a que se juntaram em 2009 outras pessoas vindas de outros sectores da sociedade Castrense e até de outros partidos que fizeram a primeira vitória do PS em Castro Daire.

Mas é ainda em 2009, aquando da formação do gabinete de apoio à presidência que se começa a perceber como iria ser o formato de actuação do novo executivo. Quando o Fernando Carneiro convida para o apoiar familiares e amigos, desconhecedores do concelho e com competência duvidosa, em detrimento de pessoas com competência política, socialistas, ou não, que o poderiam ajudar a superar as suas próprias dificuldades na acção politica.

A juntar a isto temos ainda de salientar, a forma como algumas das pessoas que mais contribuíram para a vitória de 2009,foram “saneadas” das suas competências quer no executivo, quer nas funções de funcionários do município, assim como a forma autoritária, arrogante e de espezinhamento politico e social como tratou todos os militantes socialistas que tinham alguma ideia nova ou diferente das suas. Desde 2007 que foi purgando militantes e simpatizantes socialistas, humilhando-os e promovendo campanhas difamatórias quer publicamente quer nas redes sociais. Criou tantas “ovelhas negras” que chegamos ao ponto delas serem mais, e mais activas na batalha eleitoral.

A segunda causa foi o erro estratégico de direccionar a grande maioria das iniciativas políticas e medidas do executivo com o objectivo de satisfazer as possíveis vontades do eleitorado sénior. Como foi evidente durante estes tempos, este segmento do eleitorado permitiu à dupla Carneiro/Aida fazer valer os seus maiores trunfos, conhecimento de muitas pessoas e das suas vidas, e o facto de ter lidado com os processos de obtenção de reforma ou pensões de muitos dos seniores do concelho, enganando-os, e aproveitando-se da falta de informação dos mais idosos. O problema desta estratégia é que é por natureza de curta duração, pois os mais susceptíveis a ela são os mais idosos e com menos esperança de vida, e em 8 anos muitos partiram. Ficando um eleitorado sénior menos susceptível de ser enganado, mais informado e mais conhecedor dos seus direitos.

Esta vertente está ainda relacionada com a falta de iniciativa politica para os jovens. Todos sabemos que os jovens na faixa etária dos vinte e poucos anos aos trinta e tal anos são poucos, e de pouca expressão eleitoral pois a grande maioria saiu do concelho, e os poucos que ficaram estavam sob alçada política (tachos) dos interesses, o que levou a que estes fizessem pouca mossa na derrota eleitoral. Coisa bem diferente aconteceu com os jovens dos 18 aos vinte e poucos anos, muitos a votar pela primeira vez, que na sua grande maioria votou contra o Carneiro. São os jovens que enquanto adolescentes se viram obrigados a pagar passe nos transportes escolares, ao passo que os idosos lhes ocupavam os lugares nos autocarros e viajavam sem qualquer custo, independentemente do seu nível de rendimentos. Estes jovens, mais cultos, mais adeptos das novas tecnologias, e das redes sociais, batalharam publicamente neste assunto durante o mandato, e durante a campanha foram entusiastas na partilha e na divulgação daquilo que era mais negativo do executivo, e na promoção das alternativas.

A terceira grande causa foi a forma como se esclareceu o eleitorado. O PSD/CDS teve uma estratégia agregadora dos seus militantes mais influentes, juntando o que havia estado dividido, apresentando medidas novas, e de forma mais eficaz. Basta fazer uma avaliação dos cartazes de cada lado. O PS centrado num único slogan, e numa única pessoa, e o PSD/CDS com vários slogans e com uma mensagem mais clara.

Durante a campanha surgiram vários episódios comprometedores para o PS, como foi o caso da reportagem da TVI transmitida no Jornal das 8, que deu um pontapé no medo de muitos, assim como o alerta para a situação do concelho, expondo muitos dos problemas que se iam escondendo num concelho sem comunicação social local. Outros casos como o dos envelopes, ou da utilização da Festa das colheitas, foram amplamente divulgados pelos novos meios de divulgação. A utilização da internet, quer através do Facebook ou dos blog’s, permitiu fazer chegar a mensagem ao eleitorado mais novo, e por meio deste aos restantes. O que era transmitido por estes canais eram casos reveladores daquilo que seriam os próximos 4 anos caso não se desse a mudança. E permitiram ao eleitorado perceber por um lado que não havia que ter receio de ninguém, e por outro ir-se apercebendo que o desespero do PS significava que a mudança era alcançável, e que o seu voto podia fazer a diferença.

A outra grande causa foi o facto do PS, o executivo e a dupla Carneiro/Aida ter criado através das promessas, do facilitismo, e da falta de exigência uma expectativa elevada em muita gente. Muitos criaram a expectativa de que teriam o emprego para o familiar, e afinal eram apenas uns meses a receber o IAS e sem quaisquer condições laborais e o emprego estável era para a família do presidente, que teriam a obra X, a estrada alcatroada, e o que viram foi desculparem-se com o tribunal de contas, que teriam o problema do abastecimento de água resolvido e tiveram infinitas falhas de agua, que teriam a EN 225 requalificada e tiveram cada vez mais buracos para ultrapassar, etc etc

Depois desta derrota eleitoral o PS vai ter enormes dificuldades para voltar a vencer eleições no concelho. Esta gente que dominava o PS Castro Daire agora que perdeu o poder vai abandonar o partido, porque deixa de ter interesse nele, só cá estavam porque o usavam como “veiculo” para chegar ao poder. Para provar tal basta vermos o seus empenhamentos e os resultados eleitorais nas eleições de índole nacional durante estes últimos 10anos, o PS sofre consecutivamente, no concelho, pesadas derrotas.

Perante isto, urge criar uma alternativa para o PS Castro Daire já nas próximas eleições concelhias. Uma alternativa que renove, que una, que traga de novo para o seio do PS os militantes e simpatizantes socialistas que foram mal tratados durante estes 10 anos. Essa alternativa terá de ser capaz de arrumar a “casa”, “reconstruir” a secção de Mões, patrocinar e apoiar a criação de outras secções nas freguesias onde o PS tem maior implementação de base. Tem de incluir, ouvir, e valorizar os autarcas eleitos nas freguesias, quer os que venceram quer os que não obtiveram êxito eleitoral. Tem de ser capaz de trabalhar e criar um projecto para o concelho a médio prazo. Um projecto, que inclua socialistas e outros independentes com competência, mulheres e jovens, e que tenham uma visão inovadora e de futuro para o concelho. Tem de saber lidar com os novos detentores do poder, criticar e apontar os possíveis erros que venham a cometer, mas também ser capaz de lhes apresentar novas ideias e propostas positivas, e quando for o caso estar a seu lado para defender o concelho.

Depois desta derrota, e de todas as de âmbito nacional no concelho, e não esquecendo todos os alertas feitos no passado, a Federação de Viseu, e os seus dirigentes, especialmente o presidente da federação, devem finalmente perceber o erro que cometeram ao patrocinar e apoiar a candidatura ilegal do Fernando Carneiro a presidente da comissão política concelhia, assim como a passividade com que lidaram com o fim da secção de Mões, e com o linchamento político de alguns militantes. Devem admitir perante estes os erros que cometeram, pois só assim terão destes o apoio necessário para as batalhas eleitorais que se travarão futuramente. Deve ser o PS Viseu, na pessoa do Presidente da Federação a ter a hombridade de vir a Castro Daire admitir os erros e dar o “pontapé de saída” do novo PS Castro Daire.

Quanto aos vitoriosos, PSD/CDS, desejo que tenham o melhor mandato possível, pois deles depende muito do futuro do concelho. Que não desiludam quem deles criou expectativas. Que sejam capazes de dar andamento aquilo que de positivo (pouco) estava a ser feito e que façam a limpeza dos males existentes (muitos). Um bom mandato destes não pode passar ao lado da defesa do rio Paiva, da promoção e do desenvolvimento turístico, e da melhoria das acessibilidades, quer das estradas municipais degradadas quer da EN 225. O próximo mandato tem de ser a construir! Com liberdade e responsabilidade!

Pedro Figueiredo, 32 anos. Licenciado em Engenharia do Ambiente, Técnico Superior de Amostragens na Sondar.I, Grupo ISQ, natural de Cabril, Castro Daire

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