“A amiga genial”

por Amélia Santos | 2015.07.19 - 12:18

 

O título encantou-me, mas devo confessar que fui atraída para este maravilhoso livro um pouco pelo mistério que envolve a vida da sua autora: Elena Ferrante. Supõe-se que este seja um pseudónimo de uma escritora italiana, de Nápoles, que não quer dar a conhecer a sua identidade, porque diz ela acreditar “que os livros, uma vez escritos, já não precisam dos seus autores. Se tiverem alguma coisa para dizer, mais cedo ou mais tarde encontram leitores; se não, não…”. Nos dias de hoje, de facto, não é vulgar encontrar alguém que queira negar a notoriedade e o reconhecimento público. É quase anormal. Estranho, no mínimo. Mas não deixa de ser curioso refletir sobre o assunto… No entanto, o que me leva a escrever este texto não é o mistério que envolve a sua autora, de quem já sou uma fervorosa admiradora, mas o seu romance – A amiga genial. Li-o com tanto prazer e encanto que tive uma imensa pena quando o senti chegar às últimas páginas.

E, confesso que fui fazendo muitas pausas, ao longo da leitura, para pensar. Para refletir em pequenos pormenores que nos perturbam, que nos inquietam a mente… Para reavivar e reaver memórias minhas, umas remotas, outras recalcadas, outras semiesquecidas… E foram, na verdade, pormenores, pequenos pormenores, que me fizeram acender luzinhas e soar campainhas interiores. Uma resposta fria. Um silêncio perturbador. Um sentimento filial que foge aos cânones. (Pre)sentimentos de inferioridade. Delicados ciúmes. Ações que contém violência em ínfimas doses. Coragem desafiadora. Proibições…

A história de uma amizade (genial) guia-nos desde a infância de duas meninas (Lenú e Lila) e vai assinalando momentos cruciais da sua relação, que vão marcar irremediavelmente a vida e a personalidade de ambas. Lenú/Elena, a narradora, e Lila vão crescendo ao mesmo ritmo que cresce o entusiasmo do leitor, que sofre com as suas dores e se alegra com as bem-aventuranças. E, de repente, é como se esta história passasse a ser também a nossa ou nós fizéssemos parte desta. Tão giro!

Viajamos até aos nebulosos seis, sete, oito anos, entramos pela adolescência e passamos em revista memórias, fantasias e algumas reminiscências, com uma leve sensação de “déjà vu”. A magia desta autora passa também pela capacidade de nos fazer estremecer e sobressaltar, quando nos deparamos com uma descrição de vivências que foram nossas, de sentimentos que nunca conseguimos explicar ou verbalizar, de contradições interiores e daquilo que se nos afigura de mais íntimo. Assim, ao longo desta encantadora narrativa de uma amiga genial, vamos encontrando também a nossa identidade, aquilo que somos e que fomos. Compreendemos melhor os nossos mistérios.

A todos os amigos de quem falei no livro, fui dizendo que ele é genial, como o título. Genial pela escrita simples, despojada. Pelo constante interesse que a narradora desenvolve no leitor, que quer ler sempre mais e mais…Pelo brilhantismo com que conta coisas do quotidiano e fala de vidas comuns, como a de qualquer um de nós! Um romance poderoso e honesto que entra pelos subterrâneos da nossa personalidade e nos arrebata.

O dia em que acabei a leitura, fiquei com uma estranha sensação de vazio e de silêncios. Queria mais! Inconformada, praguejei e reclamei, porque não é justo acabar ali… Soube depois tratar-se de uma tetralogia. Procurei, procurei, mas não havia ainda traduções em português. Ontem vi uma notícia que dizia que no dia 20 deste mês de julho, chegará às livrarias a parte dois “História do novo nome”… Já estou a ver quem será uma das primeiras compradoras e leitoras!

Licenciatura em Estudos Portugueses pela FLUL (1996)
Pós Graduação em Museologia pela FLUP (2008)
Mestrado em Ensino do Espanhol pela UBI (2011)

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