Reler O Malhadinhas na era do efémero

por Eugénia Pereira | 2018.12.13 - 07:00

 

 

O primeiro livro que li de Aquilino Ribeiro foi, precisamente, a novela O Malhadinhas, na edição da Livraria Bertrand de 1958. Estávamos no início dos anos 80, quando os meus livros de cabeceira eram Fernando Namora, Marguerite Duras, Patrick Süskind, Milan Kundera e Gabriel Garcia Marques. O beirão de Carregal da Tabosa pareceu-me, então, excêntrico e impenetrável na linguagem.

Voltei a pegar-lhe mais de uma década depois, quando tinha por companhia o próprio Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, António Lobo Antunes, José Saramago, David Lodge e Michel Houellebecq. O mundo rural das aldeias perdidas no interior beirão já não me era estranho e a profusão de palavras já não se afiguravam indecifráveis, contudo, permanecia o anseio de compreender as estratégias narrativas e de descodificar os inúmeros provérbios.

Eis que o reli agora, nesta nova edição ilustrada por Bernardo Marques e enriquecida pelo prefácio da Profª Maria Alzira Seixo, na era da internet e dos livros virtuais, das máquinas literárias de beleza instantânea que são a minificção, a microficção ou a nanoficção, fortemente marcadas por estratégias que visam a obtenção da hiperbrevidade e por elementos da estética pós-moderna. É verdade, estamos quase a 100 anos da primeira publicação da novela, mas a anos luz da singularidade linguística de Aquilino Ribeiro.

Ler O Malhadinhas, pela primeira vez, no século XXI é penetrar, tal como diz o próprio autor, num “longo monólogo” codificado pela rusticidade da linguagem, num perfil psicológico denso e paradoxal, num Portugal rural praticamente inexistente e numa época já tão distante que o contacto que temos com ela é por via da escrita e da imagem, em suma, pela materialização da memória. Mas já o próprio narrador-personagem nos diz, no incipit, num tom testemunhal: “Quando comecei a pôr vulto no mundo, meus fidalgos, era a porca da vida outra droga”.[1]

Ora se fidalgos éramos, fidalgos somos, uns fidalgos que, na era da tecnologia, vivem atordoados com a velocidade relâmpago da proliferação de inovações que constantemente emergem e obrigam à criação de novas palavras.

Como poderão, então, estes novos fidalgos estabelecer uma adesão orgânica, uma ligação estético-afetiva, um contrato de leitura com O Malhadinhas? Pois será que a tolerância estética e a agilidade mental que requer a novela O Malhadinhas não se enquadram no seu investimento cultural? Será que o texto violenta as suas categorias de perceção e gere um efeito de estranheza inesperado, que causa uma rutura do efeito estético?

Pois não creio. Não o creio porque O Malhadinhas é, antes de mais, uma obra sobre a vida, sobre a existência, sobre a condição humana e, daí, a sua intemporalidade. Depois, como resistir ao tom mordaz e risonho do tio Malhadas: “Não andaria Nosso Senhor de terra em terra – eu cá nunca me avistei com ele – mas a verdade é que a neve vinha com os Santos e as cerejas quando largam do ovo os perdigotos. Bebia-se o briol por canadões de pau até que bonda. Um homem mesmo com os dias cheios tinha pena de morrer”.[2]

Surpreendentemente, neste mundo “líquido”[3], voltamos a interessar-nos por esta literatura, por palavras enraizadas no tempo e por sentimentos locais. Reler O Malhadinhas é acreditar que as raízes dizem a ontogénese da existência individual e coletiva e se constituem enquanto vínculo orgânico, um sentimento de pertença, uma experiência individual e coletiva, uma memória imemorial que participa de um desejo de conhecer os destinos comuns de um povo.

O ambiente natural de Barrelas, e da Beira, favorece o crescimento orgânico de um povo e deve, pois, ser encarado como o substrato sobre o qual a comunidade cresce e se desenvolve; o homem nasce, vive e morre. E, como tal, e segundo as próprias palavras de Helena Buesco, “nem o homem pode ser concebível sem referência a esse lugar que é o seu, e em que habita, nem o lugar pode de facto existir independentemente das figuras que nele se agitam”.[4] O ambiente natural, servindo assim de ecrã ao ambiente social, suscita algum mistério, no sentido em que nele reside uma forte ambivalência: ele é terra habitada por gente, mas também lugar gerador de uma profunda e intensa solidão.

A existência do almocreve é atravessada por conflitos que lhe conferem toda a sua intensidade. Para não dizer mesmo que são as suas múltiplas vicissitudes que explicam o cego impulso que impele a sua vida. Vive obstinado, está estruturalmente possuído pela violência, tem os nervos à flor da pele, reage impulsivamente, como se os seus atos assentassem numa tensão, num sentimento contraditório de aprisionamento e de liberdade, numa antinomia de valores, como se a sua entidade só tivesse existência em função do seu contrário. Vive numa ambivalência amigo-inimigo e age em função dela. Mas não fora já Hegel que dissera que a vida é um “matadouro”? Não é essa uma realidade, difícil, mas incontornável, própria ao Homem?

Ora, ele age em resposta a provocações, por princípio – mesmo que errado –, e as suas peripécias não podem ser separadas de um micromundo situado entre Barrelas e Aveiro. Aquilino fala do que conhece, de um espaço que é biograficamente seu, de uma pessoa, antes de ser uma personagem, e de outros tantos seres que ele transforma em figuras de papel, dando-lhes outra roupagem, mas guardando-lhes a essência.

Se a esta receção da obra acrescentarmos uma outra, que se prende com a materialização dialetal da língua, podemos encarar O Malhadinhas como uma obra firmemente ancorada num espaço e num tempo, que nos ajuda a saber o que fomos, o que somos e, porventura, o que seremos. A linguagem popular e coloquial mune-se de regionalismos, de expressões idiomáticas, de provérbios que ou bloqueiam ou fazem sorrir, mas que nunca nos impedem de continuar a ler, até porque somos constantemente interpelados pelo Malhadinhas, que nos quer ao seu lado e que a narrativa, por momentos, se enche de grande poesia: “Vossorias conhecem aquelas serranias onde Nossa Senhora apareceu a uma pastorinha de gado, que era muda…?! Se não conhecem, eu lhes digo: desertos mais danados, fraga sobre fraga, penedos sobre penedos, postos ali para purgatório do passageiro (…). Não era desta neve que doba mansa do céu e parece, bailando, o esflorar das pereiras na Primavera; era a neve ladroa – como para aí lhe chamam – a neve das moscas brancas que voltejam, giram, rodopiam, vêm de trás, de diante, de baixo, dos lados, metem-se por todas as fisgas e grelhas à busca do coiro vivo em que ferrar. Soprava-lhes o nordeste, o grande bufador, e era vê-las de asas ligeiras, enchendo o céu, a voar, a voar umas atrás das outras, ora muito juntas, ora desenrodilhadas, num vira sem fim”.[5]

Mas esta descrição poética não é exclusiva ao Malhadinhas, pois também na novela Mina de diamantes momentos há de sublime poesia: “As nuvens, tais caravelas negras, de bojo e velame vário, rotundas ou desmanteladas, singram no céu com moleza tão singular como a vertigem de que por vezes se possuem. Roçam e embatem na aeronave. Tornam-se obsessivas cocas, filhas do pesadelo, exorbitadas de senso, que procurassem entrar em sua alma”.[6]

Esta obra que, tal como refere o próprio autor, é espaçada “de uns bons 36 anos” d’O Malhadinhas – e, consequentemente, a menos distância temporal desta nossa nova era –, mas o Diamantino Dores, que tem por alcunha Dedê, também pertence a esse mesmo meio rural beirão. Contudo, porque vivera, por 25 anos, numa urbe, num outro país e noutra cultura, tornara-se urbano e brasileiro e cortara os laços com a terra natal, não tencionando lá voltar.

Para além do desfasamento temporal, das opções de ordem estética ou literária, do ambiente político e social em que ambas as obras foram escritas, outras coordenadas há, pois, que põem o leitor à prova.

Tal como referimos anteriormente, a personagem não é mais um beirão de gema, mas antes um Brasileiro, sem honra, ambicioso, intrujão, sedutor, cínico e sem princípios. Ora, se no Apêndice ao Prefácio desta nova edição se considera que o Malhadinhas não é um pícaro, talvez possamos considerar que o Dedê o é, pois tem origem humilde, saiu da terra para fugir à penúria, à miséria e à fome, vive marginalmente, é trapaceiro, vivaço de espírito e inteligente. Corrompe e deixa-se corromper para ganhar dinheiro, mas não com o objetivo de amealhar, pois tem, para ele, outros intentos: “Gastava no amanho, sempre bom fato de linho inglês, boas popelinas, boa lã colonial, no Jockey, no automóvel, com as mulheres”.[7]

Contrariamente ao Malhadinhas, Dedê começa por ser um anti-herói, uma vez que, no Rio, desenvolve artimanhas para enriquecer. Aproveitando as falhas do sistema, “unta a pata a procurador, a escrevente de procurador, a intermediários, a um genro do senhorio”[8] para que outros consigam concretizar os seus negócios. Vive de malandragem, tirando partido da inferioridade intelectual do Outro.

Ameaçado de morte pelo velho marido da sua amante mulata Helespontina, Dedê decide perder-se, por uns tempos, em terras lusas e europeias. Mas não sem antes levar os bolsos bem cheios de dinheiro para impressionar a sua gente: “Se não voltava riquíssimo, havia pelo menos toda a vantagem que constasse. Não há nada pior que a pobreza e que a sua irmã a modéstia”.[9]

Já na sua terra, não pondera os seus atos e entra num jogo perverso: quando uma das personagens tenta descobrir a origem da sua riqueza, não esclarece que “mina de diamantes” não é mais do que uma expressão idiomática e consequentemente é induzido a ajudar financeiramente pessoas, órgãos, instituições, etc.. Confirma, então, a ideia que adquirira no Brasil de que todos os seres humanos se movem por interesses pessoais, não havendo espaço para valores morais.

O enfoque narrativo de Mina de diamantes não é, pois, o mesmo d’O Malhadinhas: nesta última novela, o propósito é retratar a sociedade beirã como uma comunidade falhada, subjugada pelo dinheiro e pelo poder que este último confere. Neste sentido, uma das personagens, Bias Agro, o secretário de Diamantino, afirma, num tom cortante, o seguinte.

A diferença que há entre a Europa e a América (…) é que na América a roubalheira é organizada e aqui, não digo desorganizada, mas no estado de inorgânica. Na América tudo molha a sua sopa: o ministro, o vereador, o mestre-de-obras, o dono do hotel, o merceeiro, o engraxate. É o círculo napolitano dos comilões. Um mete a mão no bolso do vizinho, o vizinho no bolso do parceiro mais próximo, aquele no que está a seguir, assim por diante. Fechado o circuito, todos roubaram, portanto ninguém ficou roubado. Na Europa não. Nem sempre rouba o ministro, mas deixa roubar o secretário. Rouba o senador ou ajuda a roubar; não rouba o magistrado, mas fecha os olhos. Não rouba o chefe, mas permite que roube o manga-de-alpaca; rouba o estalajadeiro; rouba, se pode, o criado de mesa; rouba o engraxador…[10]

Aquilino disfarça-se sob as palavras desta personagem, mas fá-lo ainda com mais pessimismo numa carta que Dedê endereça ao seu amigo carioca Rosaria:

Os fogueteiros perderam de todo a dignidade como a perdem os parlamentares uma vez gloriosos. Já não há timbre em qualquer das pirotecnias. Os parlamentares, quando lêem os discursos, parecem fogueteiros a deitar o seu fogo mau e mortiço, e os fogueteiros deitam os foguetes como se tratasse de discursos lidos nas Câmaras, de forma a não levantarem eco.[11]

O fervor linguístico d’O Malhadinhas encontra-se aqui mais amenizado. Contudo, o autor continua a fazer malabarismos com as palavras e a usá-las como objetos preciosos identificadores de um lugar e de um povo. Assim, quando Aquilino se deixa vislumbrar no tom sarcástico da narrativa, usa de brasileirismos ou da eloquência de preciosismos verbais, deixando os regionalismos para o mundo fechado beirão.

 

As duas novelas que compõem esta edição situam-se estética, literária, politica e socialmente em universos paralelos, mas as aldeias perdidas da Beira e a sua comunidade continuam a ser o principal referente ficcional.

Tal como comecei por dizer, o muito velho e o muito novo acabam por se misturar inextricavelmente na cultura e o que retiramos destas duas obras, para além da qualidade estética e literária é a memória, pois não restam dúvidas de que Aquilino, bom observador, fala de quem e do que conheceu e daquilo que viveu.

 

 

[1] RIBEIRO, Aquilino (2018). O Malhadinhas. Lisboa: Bertrand Editora, p. 25.
[2] Ibid.
[3] Termo retirado do conceito de “modernidade líquida” de Zygmunt Bauman.
[4] BUESCO, Helena Carvalhão (2011) . “Literatura e conhecimento dos ‘dias de hoje? (Aquilino e Arnaldo). In MORUJÃO, Isabel & SANTOS, Zulmira C. (Coord.), Literatura culta e popular em Portugal e no Brasil. Homenagem a Arnaldo Saraiva. Porto, CITCEM: Edições Afrontamento, pp. 388-391, p. 389.
[5] RIBEIRO, Aquilino (2018). O Malhadinhas. Lisboa: Bertrand Editora, pp. 105 e 107-108.
[6] Ibid. p. 160.
[7] Ibid. p. 153.
[8] Ibid. p. 131.
[9] Ibid. p. 145.
[10] Ibid. pp. 224-225.
[11] Ibid. pp. 229.

 

(Ilustrações Bernardo Marques)