O manjar da rataria…

por PN | 2017.12.02 - 22:27

“Ils se croyaient libres et personne ne sera jamais libre tant qu’il y aura des fléaux.”

Camus, La Peste, Gallimard, 47.

 

 

Há indivíduos que pela vida fora trilham vias sem escolhos, não porque façam por isso mais que os outros, mas porque o “destino” os bafejou com a incomensurável fortuna de estarem sempre no lugar certo no momento adequado.

Basta até, um dia, há muitos anos, numa reunião alguém ter lembrado: “Está aqui este moço. É calado e fiel. Faz o que lhe mandamos. É o indicado para o lugar.”

Depois, ano após ano, sem tugir nem mugir, vai permanecendo o “indicado”.

Até que um dia, já chegado a um lugar cimeiro, definitivamente afastado dos mandantes iniciais, começa a ganhar autonomia, a copiar poses e algumas ideias de sucesso do “prêt-à-porter standard”, a fazer uns jeitinhos a este e àquele — que nunca lhe saem do bolso fundo — a recobrir seus actos do verniz cosmético “à la mode”, de prestimoso se nomeia e rodeia de meia dúzia de parasitas de uma geração cheia de embalo, élan e apoucada de escrúpulos e, como os ratos de Camus, chegam todos juntos e de malas aviadas, a uma cidade feliz.

Em poucos meses destilam sua peste, rodeando-se de roedores oriundos de todos os canos fétidos da urbe. E esta milícia de medíocres sombrios e obtusos percebe, de repente, que se está bem ao sol e que, não mais têm de se esgueirar pelos esgotos subterrâneos..

A peste que trazem no sangue alastra então às suas incautas vítimas, ainda deslumbradas com as migalhas sobrantes do regabofe do “indicado”.

Aos ratitos pequenos e atarantados juntam-se as ratazanas de fino faro e voraz apetite. A festança vira forró, a grande farra dilata-lhes os apetites e distende-lhe os estômagos. A comezaina torna-se labor quotidiano. Um dia, de repente, percebem que o corpo inchado já nem nos cadeirões lhes cabe. Os movimentos, outrora ágeis, agora crónicos no alçar do garfo às fauces, automatizam-se e atrofiam todos os membros, os outros orgãos e, até, embotam o cérebro minúsculo das ratazanas, tornadas bolas lustrosas, nédias e tartamudas.

Uma manhã, chega à cidade outrora feliz, um bando de felídeos irados, violentos e famélicos. E de um só gesto, da rataria fazem um suculento manjar…

 

“…le jour viendrait où, pour le malheur et l’enseignement des hommes, la peste réveillerait ses rats et les enverrait mourir dans une cité heureuse.”