A política-poluição…

por PN | 2017.08.22 - 11:36

“Antigamente, o vento soprava com violência, provocando morte e destruição. Um homem vivia perto de Spences Bridge com os três filhos. O mais novo sonhava com a glória. Um dia anunciou que ia apanhar o vento numa armadilha. Disseram-lhe que era impossível. ‘O vento não se pode ver.’ O rapaz preparou apesar disso vários gargalos vezes seguidas sem sucesso, porque a abertura era demasiado larga. Noite após noite fê-la mais estreita; e uma manhã viu que o Vento tinha sido apanhado. Teve uma grande dificuldade em envolvê-lo na sua capa e levá-lo para a aldeia. Riram-se no seu nariz, quando anunciou a captura. Para provar o que tinha dito abriu a capa: o Vento soprou furiosamente e quase demoliu a cabana. Suplicaram ao herói que o fechasse. Ele libertou finalmente o Vento contra a promessa de que nunca mais atormentaria os homens…”

Lévi-Strauss, C., “História do Lince“, Ed. Asa, 92

Não sei porque analogia, este mito lembra-me os políticos, tanto na ganância do jovem como no Vento-tormento dos Homens…

A classe política pertence ao âmbito dos geradores de poluição.

Contaminam a paisagem com as suas figuras e os placards propagandísticos. Inquinam as notícias na comunicação social, destroem a natureza com a alarvidade dos seus “monumentos”, com a venda da beleza ainda existente aos mamarrachos arquitectónicos e pseudo-ecológicos, salgam a terra que pisam, etc.

Alteram os bons costumes populares a troco interesseiro das boas graças do voto, mas e fundamentalmente, imoderadamente, aniquilam a linguagem em discursos cheios de efeitos cénico-cómicos onde as palavras perdem o sentido, preteridas pela cosmética da sua antítese, sendo distorcidas a paroxismos onde o ruído, cultivando o significante, asfixia o significando e anula o signo.

O discurso dos políticos não significa senão o abuso e a espoliação da pureza mágica inicial do Verbo, da palavra, da parábola. É a não-Palavra.

Crêem-se Orfeus e como tal criadores de harmonia, numa revolução sonora da cacofonia, não ignorando que a magia do silêncio é a morte do charlatão.

A comunicação ou partilha desapareceu na unilateralidade do seu sentido. Nada é comum. Um papagaio não palra para transmitir uma ideia, um pensamento, uma mensagem. Fá-lo para não morrer de tédio, aparentar dotes que não lhe assistem, conquistar a mão-cheia de alpista que o mantém e por achar tanta graça ao som que emite como alívio ao defecar.