As Lições dos Jovens Mestres – Um momento mágico em Sernancelhe…

por Paulo Neto | 2014.03.03 - 13:57

Sernancelhe há muito nos habituou ao seu eficaz modo de promover a qualidade de vida do município. Certames, Feiras, Festas, Colóquios, Apresentações de livros, Castanhas, Aquilino Ribeiro e… Música… muita música!

Desta feita o Auditório Municipal encheu-se com mais de 140 pessoas para ouvirem “Youngclasses de Piano” trazidas por um filho da terra e exímio pianista de renome e  qualidade inquestionáveis: André Cardoso que as organizou com o apoio da Câmara Municipal.

Começou a noite musical com Elise Bachour, a mais jovem das pianistas, franco-síria que executou J. Haydn, a Sonata Hob XVI:52 em Mi bemol Maior; seguiu-se-lhe, do Japão, Miho Nagata, que tocou de Mendelssohn, Canções sem Palavras e Rondo Capriccioso. Finalmente, uma já nossa conhecida de actuação anterior, a moldava Ecaterine Baranov, que nos brindou com o Momento Musical nº 4 de Schubert e a Rapsódia Espanhola, de Liszt. Com esta última exibição Ecaterine fez vibrar o público, que lhe reconheceu o merecimento e na votação final lhe atribuiu o primeiro lugar.

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Para encerrar, as três virtuosas pianistas deram um presente a todo o Auditório que as aplaudiu demoradamente em pé ao fim de ouvir Rachmaninoff executado a 6 mãos.

Seguiu-se um beberete muito convivial, como é tão pródiga esta terra, com a simpatia e o calor humano que mesmo numa noite fria de inverno, a todos aproximou em jovial simpatia.

O Rua Direita ouviu André Cardoso …

RD: Que esplêndido evento foi este a que acabámos de assistir?

AC: Foi um concerto que contou com três pianistas, cada uma fez um pequeno apontamento musical, mostrando um pouco da sua personalidade e gostos musicais, dentro de um conceito para um projecto um pouco mais vasto, que é o de uma partilha muito próxima com o público e com estudantes de música.

RD: A ideia partiu de ti. Como e porque surgiu?

AC: Fui convidado para dar uma Masterclasses no Conservatório de Seia. Tinha 28 anos e não me sentia preparado. Achava que só os grandes mestres tinham sabedoria e experiência para orientarem essas aulas públicas. Acabei por recusar essa oferta mas pus-me a pensar que tinha muita coisa que podia partilhar, assim como muitos jovens pianistas e músicos podem partilhar, conseguindo criar uma empatia muito especial com os alunos. Não pretendo substituir as Masterclasses dos grandes mestres mas criar uma proximidade entre jovens pianistas levando-os a alcançar um excelente nível.

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RD: Quais os objectivos subjacentes a este evento ou a eventos deste género em que Sernancelhe é tão pródigo?

AC: É verdade. Sernancelhe tem apoiado estes projectos inovadores culturais tendo sempre muito sucesso. As pessoas já vêem Sernancelhe de uma maneira muito especial, quase mágica, diria. Quando vêm a Sernancelhe encontram um lugar que acolhe com amizade, cultura, ternura e a paz que a música também representa. Hoje tivemos, num dia tão negro com as notícias da Ucrânia, uma pianista franco-síria, uma moldava e uma japonesa a tocarem em perfeita harmonia, em simultâneo, com uma amizade profunda, mostrando que a cultura, a música são portadoras de paz e de união entre as pessoas.

RD: Este Festival tem futuro?

AC: Acho e espero que sim. Existe uma necessidade, em muitos locais, de haver concertos de música. Os alunos precisam de ouvir música. Acontece que em muitos Conservatórios, os alunos passam meses sem ouvir um concerto de música. Por isso tem que os haver mais regulares, não concentrados em pequenos festivais ou em grandes festivais periódicos. Têm que ser durante todo o ano, integrando a música no quotidiano das pessoas. Este concerto pode transformar-se, ir-se adaptando e inspirar outros eventos semelhantes.

RD: Quem é o teu compositor preferido?

AC: Os meus compositores preferidos são os que estou a tocar no momento, Neste momento estou a tocar Bach, Schubert e Schumann. São pois os meus preferidos.

A magia aludida por André Cardos resultou. Falámos com as três pianistas todas satisfeitíssimas com o calor humano que vieram encontrar, com a adesão espontânea deste público tão etária e culturalmente heterogéneo, deixando a promessa de levarem a terra e suas gentes no coração.