As feridas abertas da Guerra Colonial

por Rua Direita | 2019.10.16 - 12:07

A Guerra Colonial durou mais do dobro da Segunda Guerra Mundial e fez milhares de mortos portugueses e africanos. Urge quebrar o silêncio e desconstruir os mitos em torno deste conflito e do passado colonialista de Portugal. Assim como é imperativo dar visibilidade e garantir direitos às suas vítimas.

O regime fascista desdobrava-se em esforços para esconder as vítimas da Guerra Colonial e para ocultar as vitórias dos Movimentos de Libertação Nacional. Era fundamental manter o delírio de uma guerra ganha à partida e não permitir a desmobilização dos militares e o descontentamento generalizado da população. No seu artigo, o coronel Carlos Matos Gomes explica-nos como este era um conflito perdido a dois níveis: ao nível da moral e ao nível da razão.

Já os investigadores Bruno Sena Martins e Miguel Cardina escrevem sobre como a constituição de Estados-nação cujas independências se afirmaram contra a dominação colonial produzirá um contexto marcado pela tensão entre a herança colonial e a celebração das possibilidades para novos começos.

O massacre de Batepá (1953), em São Tomé e Príncipe, o massacre de Pindjiguiti (1959), em Bissau, o massacre de Mueda (1960), em Moçambique, e o massacre de Wiriamu (1972), também em Moçambique, são aqui evocados nos textos de Inês Nascimento Rodrigues, Sílvia Roque, Michel Cahen e Carmo Vicente, respetivamente.

Do lado dos Movimentos de Libertação Nacional, recuperamos um texto de Amílcar Cabral sobre Libertação e Cultura e reunimos os contributos de Manuel Boal, que dá o seu testemunho sobre o setor da Saúde na Luta de Libertação da Guiné-Bissau, e de Adolfo Maria que, na sua adolescência, escolheu o campo para agir: lutar pela independência de Angola e pela liberdade do povo angolano.

A jornalista Diana Andringa nasceu no Dundo, Luanda Norte, Cresceu em tempo de guerra, e os seus heróis não eram generais, mesmo de luvas e monóculo, mas guerrilheiros e, mais ainda, aqueles dirigentes dos movimento de libertação que tinham avançado a proposta de negociações com vista às independências, os que, como Cabral, declaravam ter preferido fazer a guerra não com armas, mas com livros. Helena Cabeçadas, por outro lado, esteve dois anos em Moçambique durante a sua infância e descreve-nos o choque entre a África imaginada e a África vivida e o sistema de apartheid que se vivia em Lourenço Marques (atual Maputo). Ambas vieram a engrossar em Portugal as fileiras dos resistentes antifascistas.

No documentário “Poeticamente Exausto, Verticalmente Só – A história de José Bação Leal”, a realizadora Luísa Marinho dá voz a um jovem e promissor poeta, falecido em Moçambique durante a guerra colonial. Fernando Mariano Cardeira relata, por sua vez, a deserção coletiva de 10 ex-oficiais-alunos da Academia Militar.

“Descolonização e retorno à antiga metrópole: a memória difícil do fim do império” é o título do artigo de Elsa Peralta, que defende que a Guerra colonial, descolonização e retorno de África, é uma herança que ainda aguarda por uma plena inscrição no discurso da história e da memória do Portugal contemporâneo.

Sofia Palma Rodrigues traz-nos uma história que muitos esqueceram ou querem ignorar: a dos comandos africanos da Guiné, traídos por Portugal e abandonados à sua sorte sem piedade. Mas as vítimas desta guerra injusta não se esgotam por aqui: Catarina Gomes fala-nos sobre os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial e a necessidade de os retirar da invisibilidade e de lhes conceder a cidadania portuguesa; e o militar de Abril António Calvinho conta como a Associação dos Deficientes das Forças Armadas se assumiu como “a força justa das vítimas de uma guerra injusta” e como tem sido longa a luta dos DFA pelo reconhecimento dos seus direitos.  

Em “Estilhaços de uma guerra maldita”, Mariana Carneiro partilha parte da história do seu pai, Jorge Carneiro, evacuado de Moeda em 1970 para o Hospital Militar Principal, em Lisboa. Escreve que parte do seu corpo ficou em Moçambique e que com ele trouxe consigo a certeza de que era preciso acabar com a guerra. E estilhaços, com os quais Mariana cresceu.

Por ocasião da apresentação da última edição do livro “Nó Cego”, de Carlos Vale Ferraz, Carlos de Matos Gomes, António-Pedro Vasconcelos e João de Melo deram conta de como a Guerra Colonial ainda é um tabu e de como este é um conflito que, entre nós nunca existiu.

Beatriz Dias escreve como, passados mais de 45 anos das independências das nações ocupadas por Portugal, o colonialismo continua vivo, sendo o racismo o seu maior legado.

Por fim, André Amálio, que se tem dedicado ao teatro documental sobre o passado colonial português, explica como surgiu a companhia de teatro Hotel Europa, e defende que “o sector cultural tem que estar na vanguarda destas mudanças, trabalhando ao lado de outro tipo de agentes que estejam a refletir sobre estas temáticas na nossa sociedade”.

Para que alguns destes temas possam ser aprofundados, Mariana Carneiro compilou ainda uma seleção de filmes, documentários, séries, livros e artigos sobre a Guerra Colonial ou relacionados com esta temática.

Mariana Carneiro

Projecto na área da comunicação social digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana dedicado ao distrito de Viseu

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