Pobres das “Terras do Demo”, na pena de Almeida Henriques…

por Paulo Neto | 2017.11.07 - 22:20

 

 

É inspiratório ler a crónica de Almeida Henriques, no CM, um quotidiano à sua estatura, entre dois goles de bica quente, no café da esquina, a uma hora calma da outonal manhã.

As “Terras do Demo”, obra de Aquilino Ribeiro publicada em 1919, merecia melhor sorte que a de ser genérico de plumitivos deste fino quilate e lato alcance. E provavelmente, mereceriam ser referenciadas ipsis verbis, do prefácio que o escritor dedicou ao seu amigo Carlos Malheiro Dias:

“O vale, que as explora, trata-as despicientemente por Terras do Demo. Sem dúvida, nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem lucros, à margem da civilização.”

Quase um século volvido da sua escrita, as “Terras do Demo” tornaram-se por ironia do destino, no “Cavaquistão” lusitano. Provando que e de facto, Cristo não rompeu ali sandálias, para tão aziago fado.

Procrastinação” se chama a ejaculatória desta semana e serve a dita para falar dos incêndios – assunto raramente tratado – e sobre a seca – tema de muita conveniência, quando no horizonte se esboça uma privatização das Águas de Viseu.

Como nunca adregaríamos a destrinçar o significado do título, o escrevente alerta, no final “Este é um mal endémico com um nome difícil de pronunciar: procrastinação. Um eterno adiamento de uma acção necessária.” E ficamos esclarecidos, porque o dito substantivo, remotíssimo e eruditíssimo, significa apenas adiamento ou demora. O que, convenhamos, na sua singeleza, não daria pompa alguma ao título.

E então o que é que andam para aí os “malfeitores” do Governo a procrastinar? Todas as boas resoluções para as catástrofes actuais, dos “trágicos fogos” às “calamitosas secas”.

Atraso, impreparação e irresponsabilidade” são o apanágio destes governantes. “Atraso do ordenamento territorial e do modelo centralista da organização do Estado; impreparação para responder aos fenómenos críticos do despovoamento, da desertificação e das mudanças climáticas; irresponsabilidade do Estado e dos agentes políticos.”

Nem mais, de uma cajadada matou três coelhos… e depois, com as mãos ainda a pingar o tépido sangue dos laparotos, lavou-as na linfa de um camião-cisterna, como Pilatos.

Nem o anterior Governo  ordenou o território, nem descentralizou o Estado, nem povoou a Nação, como Dom Sancho I, nem mudou o clima. E porquê? Porque era constituído por gente responsável e por agentes políticos profícuos e eficazes. Por isso mesmo, e para não operarem asneira, deixaram para o Governo seguinte a empreitada…

Se este “choradinho” não fosse piegas e hipócrita, seria talvez um caso de ponderação, mas… vindo de quem vem, desacredita cabalmente “as perdas e os gemidos de um País Real, abandonado e entregue à sua sorte…”, passe embora o fino lirismo, a lembrar Soares de Passos, no celebérrimo “O Noivado do Sepulcro”:

Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

(…)

E que Soares de Passos nos perdoe e Aquilino Ribeiro ao autarca seja tolerante, mas cada vez que leio os seus ensaios, nada mais m’ocorre que os úlimos dois versos deste excerto:

O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.