Perfídia jornalística

por Paulo Neto | 2017.11.15 - 16:09

 

 

 

« Il est impossible de parcourir une gazette quelconque de n’importe quel jour ou quel mois ou quelle année sans y trouver à chaque ligne les signes de la perversité humaine la plus épouvantable, en même temps que les vanteries les plus surprenantes de probité, de bonté, de charité, et les affirmations les plus effrontées relativement au progrès et à la civilisation.
Tout journal, de la première ligne à la dernière, n’est qu’un tissu d’horreurs. Guerres, crimes, vols, impudicités, tortures, crimes des princes, crimes des nations, crimes des particuliers, une ivresse d’atrocité universelle.
Et c’est de ce dégoûtant apéritif que l’homme civilisé accompagne son repas de chaque matin. Tout, en ce monde, sue le crime : le journal, la muraille et le visage de l’homme. ”

Baudelaire

 

O Baudelaire alcançava longe. Ninguém dúvida disso e do seu grande génio. No intervalo da sua criação literária, discorria sobre outros temas como este, do qual deixamos o excerto supra.

Se dantes a imprensa escrita, o mais antigo média de informação, era também o média de referência, hoje está em vias de perder o seu espaço para novas tecnologias entretanto postas à disposição do leitor e também por desmérito do seu modo de agir.

Todos os dias o jornal faz uma espécie de síntese do essencial ocorrido na véspera e ao abordá-la tenta analisá-la, aprofundá-la e perspectivá-la para os leitores.

E é aqui, neste ponto do ângulo ou da perspectiva que reside grande parte da perfídia que torna algum jornalismo na mancha negra dos médias existentes.

Dois exemplos banais tirados da 1ª página de hoje do quotidiano CM:

Ao noticiar a greve dos professores faz este título: “Mais 113 milhões não travam greve dos professores”, fazendo incidir os custos da greve, direito legítimo consignado na Constituição, à classe global em causa, num acto de diabolização que se prende com um efeito e não as suas causas. Ademais, ao lado direito do título, aparece como que por acaso, uma fotografia do ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues, com o seguinte título “Ministro internado por falta de equilíbrio” e com o subtítulo “Saiba qual é a doença de Brandão Rodrigues”. Juntar as duas notícias tem um efeito de notória perversidade, ao tentarem matar de uma cajadada dois coelhos, mas também ao referir o “internamento” e a generalização da verdadeira doença como “falta de equilíbrio”. Se lermos noutro contexto “Internado por falta de equilíbrio”, tal leva-nos para os domínios da psiquiatria ou ainda pior.

Na mesma página, publica outro título “gordalhufo”: “Galiza dá lição a Portugal”, com o subtítulo: “Um mês após inferno das chamas Costa visitou distrito de Viseu”.

Se a fotografia mostra um primeiro-ministro vergado ou curvado a sair de uma casa consumida pelo fogo, o título a caracteres vermelhos, cor do fogo e da reprovação parece vergar Costa à admoestação do mestre. Mas o subtítulo é outra reprimenda: Costa demorou um mês a vir ao distrito de Viseu, como se tivesse medo ou nada a dizer, e as “chamas” que foram um “inferno” – o que é indiscutível, pois foram mais do que um inferno — aqui, com a dupla substantivação, tem um carácter “caceteiro” que se coaduna perfeitamente com todo o espírito político-tendencioso da “notícia”.

O leitor comum não pondera estes enfoques, nem reflecte na manipulação de que está a ser objecto. Deixa apenas no seu subconsciente a ideia de que os professores são uns “malandros”, o ministro da Educação um “desequilibrado” e o primeiro-Ministro um “cobardolas” ineficaz.

Assim se faz jornalismo agamelado. Viseu tem disso bons exemplos.