O rebotalho público

por Paulo Neto | 2017.04.10 - 14:51

 

 

Os nomeados políticos do “ancien régime” são como as mimosas e as silvas: plantas invasivas e persistentes. Só mesmo carradas de potente pesticida para extinguir esta praga daninha.

E porém, impunemente, esta maltasia pulula por aí, a fazer subservientes vénias onde cheira uma poeira de poder e a exercer a sua autocracia quando, em geral, sem qualquer mérito ou competência que lhes assista, abocanha nas fauces escancaradas o exercício de autoridade para a qual, nem profissional, nem academicamente, nem por carácter, algum dia deu ou mostrou inequívocas provas para fundamentar o assento em que o pretor-companheiro os colocou.

Por seu turno, o pretor-companheiro há muito se auto desconsiderou completamente pela inacção, pelo agir partidário, pelo frete político e pelo pseudo ars bene dicendi onde estriba a sua retórica de catacumba e onde assume a sua não assunção de coisíssima nenhuma.

Gente infecta, em termos de actuação, de postura e de eficaz incompetência.

A política há muito que tem vindo a estruturar estes clones da verdade, estes hominídeos da oportunidade, estas larvas do oportunismo. Fulaninhos que estão a chegar ao ómega das carreiras sem saírem do elevador da frustração e da grua da ascensional locomoção.

Ademais, se foram criando uns bachareleiros de última hora, lodaçais da mais cabal inoperância do serviço público. São os-chefes-de-qualquer-coisa, sem conteúdo funcional nem desejo de o ter – o trabalho não serve em todas os fatos – espécimes que gostam de falar, atroar, estrepitar como os anjos em talha de altar barroco, soprando nas trombetas flatos de faz de contas. São os intermédios de cerviz curvada aos intermediários dos pretores. O rebotalho da administração pública.

Portugal transformou-se aos poucos nisto, porque foi injectado, em serviços sérios e competentes desta casta de serviçais sem nível, sem mérito e sem outra capacidade para além de fazerem de contas que coordenam qualquer coisa, sem nada coordenarem, de facto e efectivamente.

Esta triste rábula faz-me lembrar um empresário de Viseu ausente em África que dava aos serventuários cartões de visita onde, por baixo do rutilante nome, mandava imprimir: “Director de..”; “Coordenador de… “; “Administrador de…”; “CEO de…” e, depois, em alternância como o pisca-pisca e numa gestão de expectativas à político, lhes pagava nos meses de 30, esquecendo-se de o fazer nos de 31… E a rapaziada, anuente, subserviente, acarneirada, rastejante, olhava para o cartão de visita, para todo o poder ali consignado e toda a autoridade lá investida, e engolia em seco a saliva e o fel da fome.

Enquanto estas pragas propugnarem e infectarem os lugares, a administração pública, séria, judicativa, diligente e honrada… é medida pelo mesmo alqueire que mesura estes regentes-do-quase-nada.