Morreu Nuno Rebocho

por Paulo Neto | 2020.01.15 - 22:51

Homem de letras, poeta, jornalista, lutador antifascista. Faleceu em Mafra, dia 12 de Janeiro, aos 75 anos. Soube-o hoje por uma publicação do seu colega Jorge Bastos.

Conhecemo-nos no final do século passado. Colaborou comigo, sempre disponível para “dar mão” a uma causa, no jornal “O Zurão”. Mais tarde, voltou a colaborar a meu pedido, aqui, na “Rua Direita”.

O Nuno era uma generosa força viva. Foi director de informação da RDP2 e jornalista onde tinha um microfone para falar. E que bem falava o Nuno!

Lutador antifascista, esteve preso quase meia dúzia de anos nas masmorras da PIDE, lutou no País Basco e foi homem de imensas causas políticas e culturais por todo o pais, tendo-se radicado em Cabo Verde, onde  desempenhou também funções de assessoria política. Aí organizou o Primeiro Encontro de Poetas de Cabo Verde. Na sua vida, até encontrou fugaz oportunidade de ser chefe de gabinete ou assessor de Viana Baptista, salvo erro no governo de Pinto Balsemão. Sobre esta breve passagem pelos gabinetes do poder, contava ele esta rábula entre gargalhadas:

“Quando entrei pela primeira no ministério, o porteiro, com uma vistosa vénia cumprimentou-me: — Bom dia, senhor doutor!. Ao que lhe retorqui: — Bom dia, mas eu não sou doutor. No dia seguinte o porteiro voltou à carga: — Bom dia senhor engenheiro! E eu respondi: — Bom dia, mas eu não sou engenheiro. Ao terceiro dia, o baralhado mas não rendido porteiro cumprimentou: — Bom dia, senhor major!… e aqui, não o castiguei mais… e passei doravante a ser o Major Nuno Rebocho…”

Tive a honra de incluir com ele uma antologia poética coordenada pelo Nuno, o Jorge Velhote e o Nicolau Saião, pai do meu colega João Garção. Intitulou-se “Na Liberdade” e foi uma homenagem aos 30 anos do 25 de Abril.

139 poetas e um aprendiz (eu próprio) enchemos as suas mais de três centenas de páginas. Entre muitos, Albano Martins, Ana Haterly, António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, José Eduardo Águalusa, José Fanha, José Jorge Letria, José Luís Peixoto, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Mário Cesariny, Mário Cláudio, Nuno Júdice, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teresa Rita Lopes, Tony Tcheka, Valter Hugo Mãe, Vasco Graça Moura, Xanana Gusmão… Foi uma bonita homenagem!

Nuno Rebocho foi toda a vida um jornalista irreverente e competente. O Nuno era uma escola andante, sempre pronto a ajudar, ensinar, colaborar. E a lutar…

A sua vasta obra poética, faz jus e é hino ao seu “engagement” político.

Confidenciou-me num dos seus últimos emails dos muitos que trocámos, que andava a tentar fazer a recolha de textos que tinha escrito e publicado em jornais, revistas e antologias e também a escrever as suas memórias. Não sei se chegou ao fim desta tarefa. Eram as “Arcas Encoiradas“… cujo título era homenagem a Aquilino, que ele também admirava.

O Nuno tinha sempre um projecto qualquer em mãos, tinha muito “mais que fazer” do que dedicar tempo a si próprio…

Boa noite, Nuno.

Paulo Neto

(Foto do Nuno com DR)