DN – Mudar para continuar…

por Paulo Neto | 2018.07.05 - 14:43

 

 

Com sede em Lisboa, o DN foi um matutino de referência, fundado em 1864 por Eduardo Coelho.

Vem do tempo da Monarquia, cuja queda anunciou, sobreviveu à República, ao Estado Novo, a duas Grandes Guerras, ao 25 de Abril.

Teve a escrever nele nomes como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Pinheiro Chagas, Cesário Verde, Fernando Pessoa, chegando mesmo a ter como director-adjunto um Nobel, José Saramago, que ficou com a má fama de ter ordenado a suspensão de 24 jornalistas por discordarem da orientação editorial do quotidiano.

Se em 2015 tinha uma tiragem média diária de 16 mil exemplares, em 1924 vendia cem mil exemplares por dia.

O “Negócios”, em Janeiro deste ano noticiava: “a passagem do DN a semanário, que vai implicar uma reestruturação da redacção, foi acelerado com a entrada dos chineses da KNJ Investment na Global Media e também com a contínua quebra das vendas da edição impressa.”

Entretanto, em 2017, as vendas baixaram para 7.500 exemplares. Este grupo detém também o Jornal de Notícias, a TSF e desportivo, O Jogo.

No editorial de 1 Julho, Proença de Carvalho, advogado e presidente do Grupo, refere:

“Os hábitos das pessoas na procura de informação e debate de ideias estão a mudar aceleradamente, os dias da semana não são iguais, nos de trabalho são frenéticos, aos domingos o tempo escorre lentamente. Nos dias de trabalho utilizamos o smartphone para sabermos as notícias do dia, ao fim de semana sabe-nos bem desfrutar jornais e revistas com o cheiro do papel.

Porque o jornalismo faz-se em qualquer meio. E se há coisa que a transmissão digital permite é fazer melhor jornalismo, a qualquer hora, sem fronteiras, permitindo chegar ao universo dos leitores que falam a nossa língua, em vários continentes, aos cidadãos de outros países que falam o português e aos nossos compatriotas da diáspora.”

 

No fundo, aquilo que nós próprios, na nossa humilde dimensão, escrevemos em Dezembro de 2013, há 4 anos e meio.

Sem ilusões, a notícia em formato de papel tem os dias contados. Há excepções, que mais não fazem que confirmar a regra. A maior delas é o CM que continua a vender em banca 80.472 jornais/dia, apostando num jornalismo sensacionalista, do tipo dos tablóides britânicos News of the World e The Sun.

Em que reside teoricamente o “sensacionalismo”?

“O sensacionalismo é uma forma de expressão da notícia que exagera na carga emocional e apela para um discurso que prioriza a espectacularização. Para Angrimani (1995) sensacionalismo nasce quando a notícia recebe um tratamento sensacional ganhando dimensões exageradas que não respeitam os limites da realidade.” (…) ” tornar sensacional um fato jornalístico que, em outras circunstâncias editoriais, não mereceria esse tratamento. Como o adjectivo indica, trata-se de sensacionalizar aquilo que não é necessariamente sensacional, utilizando-se para isso de um tom escandaloso, espalhafatoso. Sensacionalismo é a produção de noticiário que extrapola o real, que super dimensiona o fato. Em casos mais específicos, inexiste a relação com qualquer fato e a ―notícia‖ é elaborada como mero exercício ficcional. O processo de espetacularização busca no insólito e na extravagância, ingredientes que comovam e manipulem opiniões. O compromisso com a realidade defendido pelo jornalismo fica mascarado por uma série de técnicas que transformam notícia em mercadoria lucrativa…”

Daqui, uma mera ilação, este tipo de tablóides dá ao público o que o público quer ler. É inteligente na prossecução dos seus objectivos materiais, mas quando o 4º poder vira “sensação”, esta “yellow press“, mostra o que? Um público cada vez mais acrítico, acéfalo e “ligeirinho”.

Longa vida ao DN Digital!