Deixem-se de m….. e limpem os matagais!

por Paulo Neto | 2017.10.18 - 12:45

 

 

O que é que hipocritamente e como o pior dos cegos nos recusamos a ver? Que o país é um imenso paiol cheio de combustível prestes a arder…

Basta circularmos por ele fora e, de preferência, com uma câmara fotográfica na mão, para retratarmos centenas de milhares de hectares que são uma selva abandonada, cujo solo tem mor das vezes uma altura superior a 20 cms de húmus estaladiço, que muito resiste ele às altas temperaturas, ao baixíssimo teor de humidade e à seca extrema que deixa as nossas barragens e rios à beira da aridez.

Enquanto, freguesia por freguesia dos 308 concelhos do país, não forem inventariados e cadastrados todos os terrenos ao abandono há décadas; enquanto não houver legislação que dê poder às autarquias para intervir com determinação perante os seus proprietários, obrigando-os a limpar o que é seu; enquanto não houver um exemplar investimento na desmatação do território; enquanto os autarcas não assumirem a coragem de perder votos com medidas “antipáticas, coimas e expropriações… todos os anos, com uma crescente incidência, devida também ao gradual aquecimento global que o homem insanemente tem provocado (vidé Trump e a sua recusa em assinar os acordos climáticos ou o crescente e irreversível abate de árvores na floresta Amazónica, pulmão da humanidade), os incêndios serão uma realidade cada vez mais descontrolada e gravosa.

Sem falar também nos que, directa ou indirectamente, com eles lucram e deles tiram vis e chorudos dividendos, sem curar se eles vêm ou não manchados com o sangue de dezenas de vítimas inocentes.

Não esquecendo os “paus-mandados” – geralmente uns pobres diabos marginais –  que os “mandantes” enviam para o terreno a “ajudar” a meteorologia hostil e o território adjuvante e permissivo, a troco dos 30 dinheiros de Judas.

Ouvi ontem alguém dizer que 2017 deveria ser o ano zero dos incêndios e 2018 o ano um. Pois que assim seja. Que se crie até um Ministério dos Fogos. Que se nomeiem técnicos – e não políticos de meia-tigela – para gerirem as situações e irem para o “teatro de operações” avaliá-las. Que se deixem de dar sinecuras a “boys” entediados e a políticos encostados. Que acabem as lágrimas de crocodilo perante as tragédias provocadas. Que ponham fim aos tão sentidos “dias de luto nacional”. Que a indignação perante os nefastos efeitos da calamidade se transforme em profícua acção para a evitar. Que todas as freguesias do país, que todos os seus concelhos sejam fiscalizados e duramente penalizados se não cumprirem uma nova lei de excepção sobre cadastro e limpeza de solo – e já agora que sejam mais do que 19% os concelhos a cumprir os Planos Municipais, ou seja, 58 de 308. Que se busquem os rostos que mandam os pirómanos para o terreno, seguindo o lógico curso navegável dos seus lucrativos interesses…

O resto… bom, o resto, se nada for feito, cabe à dança tribal pela chuva, ao milagre de Fátima, às ladainhas do arcebispo de Braga e à cumplicidade despudorada com os elementos.

António Costa tem aqui uma possibilidade de mostrar que é um político de acção com cabeça e competência… que tenha pois a coragem de ir em frente, cortar a direito, afastar os incompetentes, nomear os competentes, legislar aprofundadamente neste domínio, dar um sentido lógico à desorientada e descoordenada ANPC, acabar com o ineficaz SIRESP e, por fim, investir com rigor e monitorização constante as verbas adequadas para preservar Portugal, a sua flora, a sua fauna, as vidas humanas, as suas indústrias e comércios, a sua mais profunda riqueza, que dele faz a Nação que somos…, coisa que não foi feita nos últimos corridos e continuados 40 anos.

O fungar hipócrita é um mero teatro de pacotilha, um jogo de arremesso para tirar dividendos politiqueiros e fazer da morte de dezenas de inocentes uma ópera bufa de 5ª qualidade.

 

(este editorial foi escrito a 16 de Outubro)

Foto DR