Autarcas para três vidas… ???

por Paulo Neto | 2017.09.08 - 17:15

 

Imagine o leitor uma unida e interventiva família que tanto pode ser a Vale e Vale, como a Gomes e Gomes, ou Costa e Costa… uma família portuguesa, concerteza, muito dada de coração, cabeça e pulmão à res publica, também dita coisa pública ou do povo.

Missionários natos, decerto ungidos dinasticamene pelo divino, encontraram na acção política a essência rigorosa e vigorosa de sua terrena via sacra. Árdua tarefa, ademais, quando a este fatum se acrescentam umas reformazinhas, actividades privadas e, até, empresariais e/ou comerciais.

Um dos dos ditos terá exercido durante 23 anos de enfiada o digno lugar de vice-presidente de uma câmara municipal. De seguida, subiu um degrau, e durante 12 anos foi o nº 1 da autarquia. Agora e perante a embirrenta lei da limitação de mandatos, surge novamente como nº 2, voltando ao lugar onde se posicionou/poisou os tais 23 anos.

Esta ginástica do sobe e desce — ou “ascensorismo” — é fantástica e merecedora dos mais rasgados encómios, pois ninguém ousa sequer duvidar que só o espírito de bem-servir o povo e os seus munícipes o anima.

E se fortuna pessoal lhe assiste de pleno direito, nunca será despiciendo, além do poder e influência consignados, receber à volta de 2.500€ líquidos mensais, mais 900 de ajudas de custo, mais limusina de serviço, mais uma série de outras mordomias…

É justo que assim seja, pois servir desinteressadamente causa pública é espinhosíssima tarefa e mui ingrata missão.

O outro dos ditos exerceu funções de presidente da junta até mais não poder. Nas últimas eleições, em 2013, também perante a quezilenta lei da limitação de mandatos, indigitou sua cônjuge para nº1, baixando ele a nº 2. Deste modo ganhou a “regedoria” mais o anedotário nacional e quatro anos, céleres se escoaram. Agora, aparece novamente em nº 1, enfatizando assazmente e de igual modo a filantropia familiar que lhe assiste, sendo de somenos o salário a meio tempo ou tempo inteiro, mais a gratificação mensal auferida.

Este clã, pelo tanto que tem tão desinteressadamente dado de si ao concelho e à freguesia merece reconhecimento, louvores em sessão camarária em acta exarados, no Diário da República e, porque não?, bustos na Praça do Município a lembrar aos vindouros este modelar exemplo e exemplar entrega, estas excelentes práticas autárquicas, principalmente vistas naquele que já vai em 35 anos de porfiada devoção e, cheio de pujante energia, ainda se disponibiliza no seu altruísmo, a mais 4 para atingir os 39 e, depois, finalmente, se retirar após mais 4 como nº 1…

Há famílias assim, nascidas para servir seu semelhante e obrar no seu território.

Marcelo Rebelo de Sousa devia fazê-los comendadores, na certeza de que se o “saudoso” Aníbal ainda exercesse, no próximo Dia da Raça, não lhes escapariam os peitos à distinção…

(fotos DR)