Almeida Henriques o Reconquistador

por Paulo Neto | 2017.04.18 - 16:55

 

 

A última prédica do nosso estimado autarca viseense no seu dilecto órgão de comunicação social, o Correio da Manhã, como já vem sendo hábito, é uma peça de alto recorte opinioso e de finíssimo quilate literário. O homem tem jeito para a coisa e, se o futuro lhe for adverso, o director Octávio Ribeiro sempre o pode colocar à frente da delegação de Viseu.

Segundo o cronista – não, não falamos de Fernão Lopes – “o Sucesso lusitano é reconhecido primeiro lá fora e depois cá dentro.” E será este o conceito predicável do sermão…

Sucesso maiusculado, logo nos dá ideia duma musculação da “coisa”, de algo prenhe de êxito, de muita louvação, porém em causa própria.

Pena é que não o tenhamos todos ainda visto, bizarro é que (quase) todos os munícipes o ignorem; lamentável é que nós todos não o sintamos da mesma forma que Almeida Henriques parece senti-lo. Em boa verdade, e em sentientes causas, há-os mais sensíveis do que outros…

A “Reconquista”, assim escrita, parece até, por força motriz do prefixo de repetição, um acto duplicado, retomado, renovado.

Ou talvez Almeida Henriques se estivesse a referir à primicial, datada de 722 e terminada em 1492, com o fim do Reino de Granada. Provavelmente, ele o neo-Reconquistador, falaria do seu avoengo Pelaio ou Pelágio e das lutas travadas entre ibéricos e árabes. Ou talvez se referisse à Guerra Santa da época das Cruzadas. Talvez se focasse somente na conquista da cidade de Faro, em 1249, por D. Afonso III. Talvez.

No entremeado da ejaculatória, refere, e bem que “O que nos faz muitas vezes pequenos não é a realidade em si; são algumas cabeças.” Perfeitamente de acordo. Aliás, eu próprio o senti quando e pela primeira vez comprei um capacete para andar de moto e descobri que era “cabeçudo”, pois gastava XL.

A realidade, já o escrevia uma percursora do nosso edil, Anaïs Nin, “é o que vemos e temos dentro da nossa cabeça”. O resto, lixeiras, trapalhadas, duvidosas legalidades, festarolices e etc. são obra do Saramago e do seu “Ensaio sobre a cegueira”. Nada de complicado… é preciso lançar os olhos para o infinito e lá no horizonte divisar as caravelas. E talvez ler em simultâneo o “Ensaio sobre a Lucidez”, também do referido autor. Porque não? Ler faz tão bem.

Já Pessoa escrevia a pensar, premonitória e provavelmente, em Almeida Henriques:

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!

E lá escreve ele “que somos capazes do maior provincianismo bacoco”… por este olhar para fora sem vislumbrar o que temos dentro. Saberá do que fala, pois nesta matéria parece ser um genuíno líder…

E esta “Reconquista” vem a propósito de uns milhares gastos em pub (“quem não comunica não existe”) e dos espalhados “atributos e charme no Porto para seduzir turistas e convencer consumidores” Da pinga, claro.

Um reparo, caríssimo, pois creio-o licenciado em Direito, o Código do Processo Penal diz (ou dizia) o quê acerca de sedução? Engano, dolo, fraude? Indução ao cometimento de actos contrários à vontade por palavras enganosas? Será crime? Que exagero… decerto que não! Seduzir turistas é só ciciar-lhes ao ouvido, tal António Variações: “são cá da terra e têm muito encanto”.

O meu amigo é certamente um vanguardista expert em marketing… Por isso, se a “sedução” não resultar, porque não trazê-los empurrados pela lança de Pelágio? Ou vêm a bem ou vêm a mal.

São mesmo bárbaros, ceguetas, surdos e coxos, estes turistas…