Almeida Henriques e a “mama”…

por Paulo Neto | 2018.01.31 - 15:22

 

 

 

Era uma vez um cordeirinho … que gostava muito de mamar. E se nos primeiros tempos da sua curta existência não tirava a boquinha do fecundo úbero, passaram-se os tempos, chegou a adulto e, nunca se deu ao trabalho de pastar. Era mais simples ir à materna teta saciar-se. Entretanto, a ovelha ia definhando com aquele constante sugar. À sua volta, os outros cordeirinhos pensaram, “se ele faz, porque não fazermos nós também?” E vai daí, todos se deram de boca à mama, emagrecendo as ovelhas e tirando-lhes o leite, que era a riqueza do pastor. Este, crendo estar perante uma qualquer maleita, desprovido de escrúpulos, ávido de lucro, vendeu o rebanho inteiro para o matadouro mais próximo.

Almeida Henriques, o nosso cronista predileto da 3ª feira, no “saborosíssimo” CM, desta feita brindou-nos com uma prosa titulada “O mau aluno manda”, com cujo conteúdo, até parcialmente concordamos. Mas… esta conjunção adversativa é uma chatice…

Citando um filósofo do século XIX para introdução – fica sempre bem e dá verniz cultural – refere: “quão pouco moral seria o mundo sem o esquecimento”. Exacto, caro colega de croniquetas, se os portugueses não fossem tão esquecidos, o colega incluído, talvez nos lembrássemos todos de tudo quanto não fez e agora reclama: quer um exemplo? O IP3… Mas mais, clama contra o Estado por ter tomado uma medida drástica para limpeza das matas em pouco tempo, sabendo que a época crítica começa em Maio e a limpeza das zonas ditas perigosas se prende com aglomerados habitacionais e urbanos, onde o risco ameaça o ser humano.

Não podemos virar-nos contra um Estado que faz e contra um Estado que não faz. Não podemos pedir o escalpe de ministros e ir ao cabeleireiro da esquina encher da laca os caracóis. Que o mesmo é dizer, se o Estado é responsável, há enorme incúria da parte dos privados, de algumas autarquias e do próprio Estado, detentor de muito matagal abandonado.

O colega apoda-o de “mandamento divino”, a esta legislação que obriga à limpeza em redor de estradas, casas e fábricas. Talvez o seja, talvez seja até, além de divino, salvífico. E se com esse mandamento se salvar uma vida, ele justifica-se. E recordemos, se todos cumpríssemos o nosso cidadão dever, alguns não teriam que morrer por essa preguiçosa e negligente omissão.

E diz o colega, preocupado com a sua “leira”: “Só no concelho de Viseu, que bem conheço, o simples cumprimento da limpeza florestal no perímetro de 50 metros das casas traduz-se em três mil hectares.

Muito bem, de uma assentada admite implícita e tacitamente ter, em zonas de alto risco, três mil hectares para limpar. Mas admite mais: bem conhecer essa realidade…

Então de que está à espera para cumprir o seu autárquico dever? De uma calamidade, para ir frente às televisões, pungentemente, chorar “lágrimas de crocodilo”, ou aguarda que o seu “querido Estado” lhe venha limpar o que o “colega” não limpa?

Poupe mais nas pândegas e gaste-o onde é imperiosamente preciso, sob o risco de se parecer com o cordeirinho-mamão da historinha supra…