A “cultura” é uma farsa? O Sobrado que responda…

por Paulo Neto | 2018.01.12 - 10:32

 

 

 

Por vezes, ao lermos os grandes mestres da literatura, encontramos reflexões que, além de consubstanciarem muito do que pensamos, concedem ao escrito uma autoridade de grande prestígio.

O caso, ao ler de Mario Vargas Llosa, prémio Nobel 2010, no seu livro “A Civilização do Espetáculo”, da Quetzal Editora.

Citamos: “Na civilização do espetáculo, infelizmente, a influência que a cultura exerce sobre a política, em vez de lhe exigir que mantenha certos padrões de excelência e integridade, contribui para a deteriorar moral e civicamente, estimulando o que possa haver nela de pior, por exemplo, a simples farsa. Já vimos como, ao ritmo da cultura dominante, a política foi substituindo cada vez mais as ideias e os ideais, o debate intelectual e os programas, pela mera publicidade e pelas aparências. Consequentemente, a popularidade e o êxito conquistam-se não tanto pela inteligência e pela probidade, mas sim pela demagogia e pelo talento histriónico. Assim, dá-se o caso o curioso paradoxo de que, enquanto nas sociedades autoritárias é a política que corrompe e degrada a cultura, nas democracias modernas é a cultura – ou aquilo que usurpa o seu nome – o que corrompe e degrada a política e os políticos.”

Se transpusermos parte do parafraseado para o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viseu, podemos conjecturar alguns cenários e afinidades, mormente em muita “farsa” que por aí pulula, vestida com adereços culturais, não passando de mera “publicidade” e muitas  “aparências”, com milhões gastos a sustentar a “demagogia” e o “talento histriónico”. No fundo, como o escritor sustenta e sensu lato, uma eventual visão pérfida de uma cultura oportunista, corruptora da “política e dos políticos”.

E quando o executivo viseense anuncia e aprova com trombetas, rufar de bombos e toar de címbalos o orçamento camarário para 2018, de 98,8 milhões de euros, naquilo que Almeida apregoa ser o “maior orçamento dos últimos 8 anos”… faz-nos lembrar que, enquanto muitos municípios vizinhos, preocupados com o bem-estar e a qualidade de vida dos seus concidadãos, baixam IMIS, derramas e outros impostos, assim as finanças camarárias o permitem, este executivo, “gordo” de impostos cobrados, ancho da façanha e do saque, afirma pela boca do “boss”:

“A Câmara encerrou o ano de 2017 com um saldo de quase 29 milhões de euros que, com a sua integração da revisão orçamental, permite continuar a pôr em Viseu o selo de melhor cidade para viver com a aposta em setores estratégicos e na realização de investimentos estruturantes”.

Desmontado este dizer, de onde vêm os 29 milhões?

E este “continuar a pôr em Viseu o selo de melhor cidade para viver”?

E continuar com os “investimentos estruturantes”?

Os 29 milhões, caro munícipe contribuinte, vêm do seu depauperado bolso.

O selo é posto, mas os CTT privatizados esquecem-se de enviar a carta, há meia década esquecida no fundo do cacifo.

Os investimentos estruturantes são uma treta, que ainda ninguém viu ao fim de 5 anos de inacção.

Terminamos com a autoridade de Vargas Llosa: “Hoje em dia, em todas as sondagens que se fazem sobre a política, uma maioria significativa de cidadãos opina que se trata de uma actividade medíocre e suja, que repele os mais honestos e capazes e recruta sobretudo nulidades e espertalhões que veem nela uma maneira rápida de enriquecer.

Porém, decerto que o escritor se refere aos “espertalhões” dos países latino-americanos terceiro-mundistas…