uma vez de tantas

por Maria José Quintela | 2017.06.14 - 19:21

 

 

era uma vez um homem que falava tanto que não conseguia ouvir. ouvia-se. enquanto falava rodopiava à volta de si. chegava e logo partia. partia e logo chegava.

neste giro dissimulava o próprio abandono. mas não sabia. o movimento dava-lhe a ilusão de coincidir o corpo com o tempo. retardava a chegada. pelo pavor de se gastar na paragem. ouvia-se. enquanto se ouvia não se gastava. pensava.

 

um dia esqueceu-se do que ia a dizer. calou-se. no mesmo instante parou. olhou em volta constatando que tudo mexia. teve uma vertigem. ai. mas o mundo não mexe. pensou. devo estar doente. a aflição crescia. e se o mundo desaba? gritou. mas a voz não saía. meu deus. não me ouço. estarei já morto? deus não é para aqui chamado. ouviu. eu ouço. pensou. que tragédia. vou morrer calado.

 

subitamente lembrou-se: não mudei as pilhas.