Os ponteiros do eixo

por PN | 2018.04.04 - 22:06

(…)

“Cansada, Hipólito… Às putas e sacerdotisas – opróbrio!

Não é simples impudência o que contra ti vocifera!

Simples, só falas e mãos… Um grande mistério esconde

O seu tremor atrás do lábio que o dedo sela.”

(…)

Marina Tsvetáeva, 1923.

 

 

encareço a ideia da perversão como a de outro caminho

por isso saio da fila uniforme despido e nu de transgressão

há sempre uma rotação nos ponteiros do eixo

da cruz se faz um escorrega e da norma uma libélula

infinitas são as vias

a rotação do eixo não se detém

o arrepio vem da montanha deslizar célere no prado

a meta é além num foyer beige com sofás de plástico vazios

nunca osciles à sua vista

o sofá convida-te

roda mais o eixo e dá à queda impulso

não grites o baque e o ardor bastar-te-ão

melhor é o atalho que nos perde que os carris em que deslizas

perverso na via ora trilhada levo o ardor dos pés à tua nuca

talvez aí seja enfim o lugar um só vibrato

 

(“Um Mi sustenido não pode nunca ser melhorado; nem ser substituído por um Si bemol. As coisas são o que são. Ela gostava de mulheres, e ele gostava dela por isso.”)

| Chostakovitch e o seu amor por Elena Konstantinanovskaya | in “Os Mísseis de Elena”, “Central Europa”, William T. Vollmann.

-Desenho de Kathe Kollvitz-