|ON FOCUS #7

por Jose Cruzio | 2015.04.16 - 11:23

“É preciso ensinar os homens como se não ensinasse realmente,/propondo-lhes coisas que não sabem como se tivessem apenas esquecido.”

Alexander Pope (2009;238)

 

Esta citação retirada de “O Dicionário das Citações” (Âncora Editora), intencionalmente e enquadrada neste texto, pode ter diferentes leituras dependendo dos diferentes contextos que se enunciam em seguida.

Um segundo capítulo sobre as relações entre política (ou formas de a “fazer”)  e cultura, ou melhor, entre as diversas “culturas” dentro de uma mesma urbe ou território. Não me focarei num território em particular mas em diferentes territórios, contextos e sinergias (a haver, há-as). Confundir sinergia com “predominância” de um sobre outro será um erro bem grave. E com consequências, não a tão curto prazo como será óbvio.

Uma visão – se ética, sustentada e fundamentalmente potenciadora de uma rede na qual possa haver mobilização de potenciais espectadores – não interessará muito quando os mandatos são delimitados por quadriénios e pela “vontade” – tão “incerta” – dos eleitores, ao que parece ou quando “subserviente “ a propósitos ideológicos- culturais emanados quer de outrem com “poder” ou de aparelhos partidários.

A política, em si, é uma forma de cultura. Que nem todos “dominam”. E nem a “percebam”.

Somente o facto de ser político ainda que venha da mesma área ou tenha habilitações profissionais noutra não implica obrigatoriamente que se seja culto ou  “que se cultive” de forma abrangente e sem pruridos. Foram eleitos segundo uma visão e propostas programáticas definidas  tendo em conta o maior alcance e impacto que possam ter no eleitorado. Há quem afirme que entre o programa que é exposto e “dado” ao eleitorado difere significativamente daquele implícito e do conhecimento do aparelho. Ainda que sabendo que muitas das alíneas “não possam” ser posteriormente cumpridas devido a “circunstâncias contingenciais”, um termo muito,  e cada vez mais, utilizado para as justificar.

O designado “interesse público”  até é muitas vezes evocado quando “necessário”.

O ser político também não implica que se tenha tacto ou um raciocínio fundamentado como pertinente quando confrontado e tendo em conta factos demonstrativos.  Quanto menor o meio em que se move, mais notórios serão estes “pormenores”.

Ou quanto mais bem informados estaremos acerca de opções políticas tomadas – ainda que “sem cabimento” – noutros lados e contextos. Somente “contraditados” com ou pura demagogia ou verborreia “enrodilhada” ao que se acrescentam “agentes (aparentemente) passivos”.

Mesmo sendo-o  não implica (antes  dizer “implicar”  do que dizer ” obriga”, pois este último termo força a que se vá “mais além” e que se efectivamente cumpra!) que tenha uma visão sustentada e a longo prazo, com mais benefícios para a população do que para a “máquina” à qual se está vinculado.

O mesmo acontece também com diversos agentes incluindo os da cultura. Até mesmo o facto de pertencerem ao meio em que se movimentam também não “obriga” a que os seus actores tenham tacto ou raciocínio fundamentado nas opções tomadas – a não ser que tenham efectivamente aprendido e tirado ilações das experiências passadas. Para tal,  também convirá abrirem-se ao exterior e auscultá-lo devidamente,  e não “se fecharem em si” como comités, alguns com directrizes precisas e numa linha ideológica – financeira ou artística que nada tem  ou quer a ver com os possíveis “ganhos” para a Cultura em geral.

Poder-se-á pensar que para os que se inserem nesses meandros, seria fácil de “entrar” e “jogar” nesses meios. O mais certo é que depende da capacidade de cada indivíduo, seja de que área for,  de gerir habilmente, com todas as suas ferramentas ao dispor sejam elas informações – factos consumados e outros que deverão ser “confirmados” antes de se dar o passo seguinte – e, dependendo do ponto de vista,  ter um delicioso (e, por vezes, duro de tão enganador)“savoir-faire” bem como o “savoir-être” nos contextos sócio – profissionais que o exijam. Ainda que…

“Ter um espírito aberto não é tê-lo escancarado a todas as tolices. Há na tolerância um grau que confina com a injúria.”

                                                                                                Jean Rostand (2009;647)

 

 

 

 

 

Artista Plástico e docente de Artes Visuais, nascido em 1975. Vem de Coimbra e reside, actualmente, em Viseu.Ainda, acrescenta-se a vocação de “flâneur” na vida quotidiana. Observa tudo e todos e regista para “memória futura”.

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