olhem para mim

por Maria José Quintela | 2017.06.13 - 10:21

 

 

o silêncio afugenta as pessoas. penso eu. mas ninguém parece enjoar o ruído.

há quem faça do ruído dama de companhia para compensar o vazio interior.

 

observo o movimento indiscreto de corpos incógnitos que se cruzam com o objectivo de provocarem a atenção. como se dissessem: estou aqui. olhem para mim. à espera que a atenção ancorada seja um abraço. ou então um meio para queimar o tempo e chegar mais cedo ao dia seguinte. outro dia com a mesma vontade de partir para fora sem recorrer a mapas e oráculos. sobretudo sem atravessar fronteiras de pele.

 

neste cruzamento de corpos transparece o contentamento gerado pelo ruído libertador. há uma pulsão para prevenir o silêncio que se instala entre quatro paredes e um espelho retrovisor cheio de planos e pormenores. o silêncio é um lugar estranho. pensarão. mas o mais perigoso é passar de lugar estranho a lugar íntimo. digo eu. melhor combater os fantasmas à luz do néon e de toques superficiais. já se sabe que ninguém tem nada para dizer e a vida é para ser fingida. debaixo do traje circunstancial aloja-se o tecido morto. quem tem medo do silêncio?

 

a exposição pública e ruidosa é o lugar perfeito onde todos podem correr o risco de se perderem e encontrarem no mesmo lugar da véspera sem precisar de marcar encontro. como se a existência fosse uma borracha de apagar a memória e fintar a vida excisasse o tecido morto. olhem para mim.