Medalhão ao peito

por Patricia Maia Noronha | 2015.09.17 - 21:06

 

O sol entra com toda a força pelo vidro da frente do autocarro como se quisesse dizimar este lote inteiro de passageiros. O motorista é uma sombra magra ofuscada pela luz. As mãos – como fios – agarram o volante.

Vai bem-disposto o motorista. Apesar de apanharmos todos os semáforos vermelhos, o gajo assobia alegremente. Não consigo falar com ela. Tento a cada semáforo vermelho e nada. Não há maneira de atender e da última vez já estava desligado.

O motorista, além de assobiar, não sabe conduzir. Carrega que se farta no acelerador quando fica verde e trava a fundo quando fica vermelho. Ainda há pouco uma velhinha ia ficando estatelada no meio do chão se não se tivesse agarrado com toda a força ao gorro de um miúdo.

A velhinha equilibrista olha agora para mim zangada:

– Helá, helá veja lá o que está a fazer!!

– Desculpe?

Com os dedos gordos e secos, aponta para a camisa branca onde se destaca uma nódoa azul.

– Fui eu? -, pergunto ao mesmo tempo que os meus olhos se fixam na minha caneta que tem a carga toda de fora e rebentada. Os meus dedos estão da mesma cor da nódoa. Consegui esmagar a carga da caneta com os nervos.

– Isto nunca mais sai! -, atira a velhota furiosa, o dedo em riste.

– Pode sempre tingir a camisa de azul -, digo eu numa fraca tentativa de remediar a situação. Mas a velha ainda se enfurece mais.

– “Pode tingir de azul”, olha o engraçadinho…

E deita-me um olhar furioso. As pessoas olham todas na nossa direção na esperança de assistir a uma discussão. Mas a velhota não diz mais nada. Pedindo desculpa, arrasto-me discretamente bem para o fundo do autocarro. Entre os outros passageiros, ainda vejo os olhos da velha que me fulminam até ao fim da viagem. Aposto que vai contar a toda a gente que um canalha do 47 lhe deu cabo da camisa imaculada.

Estamos quase a chegar. Se o condutor não se espetar contra um poste nem atropelar um peão ainda a apanho em casa. Em todas as paragens volto a insistir, furioso, com o telefone. Uma criança agarra a mão da mãe e olha para mim assustada. Eu pisco-lhe o olho. Ela desvia o olhar uns segundos e volta a olhar para mim. Continua assustada.

Cheguei. Estou em frente ao prédio dela mas as janelas estão todas fechadas. Toco três vezes – e com toda a força – na campainha. O prédio permanece quieto. Volto a insistir. E mais outra vez. Às tantas a vizinha debaixo vem à janela.

– Oh senhor João, olhe que a Joana não é surda. Se estivesse em casa  já tinha aberto a porta não acha?

– Estou preocupado sabe? Vim cá ontem mas não a encontrei. Hoje a mesma coisa.

– Humpf, – responde ela, encolhendo os ombros de impaciência.

E só por isso toquei outra vez. A dona Inácia abre muito os olhos debruçando-se sobre o parapeito como se isso me impedisse de tocar novamente.

– Ai homem, por favor. Ninguém merece.

– Mas dona Inácia, será que ela está bem? Pode ter acontecido alguma coisa sabe? Pode estar inconsciente. Pode até ter morrido.

– Ainda esta manhã a vi no Mini-Preço, fresca como uma alface.

– A sério?? -, disse eu mais alto do que queria – Fico a pensar que me está a esconder alguma coisa… -, acrescento, desta vez numa voz que só eu consigo ouvir.

Ficamos alguns segundos ali parados. A vizinha à janela a olhar para mim. Eu em frente à porta a olhar para porta.

– Bem Sr. João tenho sopa ao lume. Fique bem e por favor não me atormente mais com essa campainha. Não fiz mal a ninguém.

Mas eu cá não desisto. Não está em casa agora mas há de voltar e eu vou estar cá para a receber. Ai vou vou.

Passaram já umas horas. Está a fazer-se noite. A D. Inácia volta a janela.

– Ainda aí está? Olhe que a menina pode voltar tarde…

Oiço a voz da D. Inácia e vejo-a à janela. O gato amarelo está ao lado dela com os olhos muito redondos. Olha-me fixamente mas só até aparecer este pássaro que voa entre nós os dois. Aí os olhos deles despegam-se. Eu concentro-me num espacinho da calçada de onde saltou uma pedra. Tudo me remete para a Joana, até esta pedra fora do lugar, só porque sei que fica à porta dela. Sinto o impulso de pegar na pedra que está ali ao lado, desalojada. Com certeza com jeitinho conseguiria  encaixá-la novamente.

– Oh Sr. João! Venha daí, entre um bocadinho e dou-lhe uma sopa. Hum? – insiste a D. Inácia.

– Deixe estar, eu estou bem.

Tinha-me esquecido completamente de comer. À minha volta acumulam-se pontas de cigarros. Apago mais este cigarro nervosamente. Desejo que a D. Inácia insista e ignore a minha recusa educada. A minha mania da educação tem-me dado cabo de algumas oportunidades.

Oiço a porta da entrada a abrir e salto ansioso na esperança de que fosse certa pessoa. Mas é só a D. Inácia. Levanta-me do chão pelo braço e eu sigo-a com um sorriso que mais deve parecer um esgar de tanto que me custou esticar os lábios para cima.

A casa pequenina está primorosamente arrumada. Lembro-me com vergonha do estado em que deixei a minha própria casa. Vejo que a dona Inácia mudou de roupa. Tirou pelo menos os chinelos velhos com que a vi sempre e pôs um casaco de malha quase novo. A mesa está posta para dois numa toalha de renda. Trata-me como uma visita. Este mimo inesperado comove-me mais do que devia.

Tenho de me controlar para não me precipitar sobre o prato de sopa fumegante. Na televisão passa um programa sobre pessoas com paralisia cerebral que prende a atenção da D. Inácia.

– Para deficientes até falam muito bem não acha?

Deu-me uma vontade de rir este comentário mas era verdade. Falavam bem.

– Há pessoas sem deficiência que fazem pior figura -, respondo.

– Ai isso há! Inácia ri-se com vontade, com o corpo todo. O medalhão que tem ao pescoço abana vigorosamente com a gargalhada. Eu como colheradas de sopa uma atrás da outra. Incrível o que uma sopa de feijão pode fazer pela felicidade das pessoas. Consegui sorrir e quase que me esqueci da Joana. Mas a memória é tramada e traz-me, assim do nada, uma imagem dela nos momentos ofegantes, a cara rosada e pequenas gotas de suor por cima do lábio.

O medalhão da D. Inácia tem um retrato pequenino.

– É o seu marido? -, pergunto apontando com a cabeça para o fio. Inácia abana a cabeça que sim. Toca o retrato com os dedos e os olhos desaparecem para longe.

– É sim. Fomos muito felizes. Fiz tudo por ele. E ele fez tudo por mim. Tive muita sorte. Está boa a sopa?

Nunca teria imaginado o amor ali naquela casa. Mas por todo o lado podia agora ver, entre santas e santinhos, fotos do marido falecido e fotos dos dois em conjunto, a roupa composta, olhando polidamente a objetiva. De mão dada. Sempre de mão dada.

Senti uma breve inveja daquele amor tão diferente do meu e percebi nesse momento que a Joana nunca diria – “Tive muita sorte” – refere indo-se a mim. Talvez nunca sequer falasse sobre mim a ninguém. Ou talvez falasse com um certo escárnio só porque, por exemplo, não sei andar de bicicleta. Talvez eu já pudesse ter percebido que era só eu que queria andar com ela de mão dada pelas ruas. E com isto os meus olhos querem encher-se de lágrimas que controlo a custo.

– Eu casei quando já era quase velha já viu? – disse, batendo com a mão na mesa, como quem reitera uma grande surpresa – Tinha a minha vida, o meu trabalho. Não queria nada mais. Aliás, os homens aborreciam-me. Mas ele apareceu assim sem mais nem menos. Às vezes vale a pena esperar.

Surpreendo-me com a D. Inácia a piscar-me o olho ao mesmo tempo que acaricia o gato amarelo no seu colo. “Vale a pena esperar”, repito para mim próprio. Esperar pela pessoa certa. A pessoa que fará tudo por nós. Que trará o nosso medalhão ao peito.

Lá fora, a porta da entrada faz um barulho violento ao fechar-se com força. Alguém entrou e é ela. Reconheço-lhe o som dos saltos decididos. Vem a gargalhar e fala com alguém. É uma voz masculina que também está a rir.

Levanto-me num salto preparado para sair porta fora e persegui-la pelas escadas. Quero apanhá-la em flagrante e tirar tudo a limpo e perguntar-lhe, provavelmente aos gritos, porque não diz nada, porque não responde ao telemóvel? Porque não vem ter comigo todos os dias? Porque me recusa a mão no meio da rua?

Detém-me o olhar reprovador da D. Inácia que faz abandonar os planos de revolta. Sento-me obediente. A dona Inácia aprova a minha decisão sem me dizer nada. Levanta-se para tirar os pratos de sopa sacudindo o gato amarelo para o chão.

– Bem, está na hora, não acha sr. João? Tenho de ir descansar.

– Está na hora, sim, tem toda a razão.

O 47 já vem ao fundo da rua. Quando a porta abre vejo que a senhora da nódoa azul é a sua única passageira. Tento a invisibilidade ao passar por ela mas a mulher olha-me diretamente nos olhos. Olha duas vezes enquanto os traços do meu rosto percorrem os fios da sua memória até àquele momento desta manhã. Lança-me então um sorriso breve:

– Desculpe a minha fúria esta manhã. Foi um dia mau sabe? A nódoa vai sair com um bocadinho de lixívia. Não fez por mal não é?

Aceno que “não” ainda a medo. Decido retribuir o sorriso. Arrasto os pés em passos lentos enquanto a minha cabeça se vai agarrando a essa ideia de que, um dia, a Joana será como a nódoa azul que desaparece com uma simples lavagem.

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos “Brilho Vermelho” foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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