Entre crónicas e contos – O feminismo de Beatriz Pinheiro na revista viseense Ave Azul

por Anabela Silveira | 2018.10.28 - 21:43

 

Entre crónicas e contos

O feminismo de Beatriz Pinheiro na revista viseense Ave Azul

(1899-1900)

Em finais do século XIX, “Viseu […] era uma cidade airosa e desenxovalhada [e] como capital de um distrito bastante vasto, tinha uma vida burocrática que excrescia para os botequins e confeiteiros”[1].

Foi então que, a 15 de Janeiro de 1899, naquela pequena cidade de província de funcionários públicos e comerciantes, era dada à estampa o primeiro número da revista Ave Azul, sendo seus directores o casal Beatriz Pinheiro e Carlos de Lemos, pseudónimo literário de António Cardoso de Lemos[2]. Sem publicidade, suportada por assinaturas previamente recolhidas e, quiçá, pelos seus proprietários/directores, a publicação destinava-se a um público específico, “bastante culto, poliglota (uma vez que a revista publica textos em língua francesa e italiana), moderno ou, pelo menos, tolerante com ideias novas; um perfil que, socialmente, se identifica com o da média/alta burguesia”[3]. No primeiro editorial, saído da pena masculina, elencavam-se os motivos para a sua vinda a lume. Não para preencher lacunas, nem para dar à luz uma «nova teoria de arte», nem tão pouco com objectivos do lucro[4] e de alguma «celebridade».

“A Ave Azul[5]é, pura e simplesmente, uma revista de arte e crítica: mais nada. Nas suas páginas se recolherão versos, quanto possamos, bons; prosas, quanto possamos, correctas; e […], uma vez por outra, para não abhorrecer demasiado, umas notas de Esthetica, ligeiras, comesinhas, ao alcance de todos, de pura vulgarização. Todas as mais secções […] serão meramente noticiosas, mas apenas relativas a Artes e Letras[6]”[7].

Nos dois anos de vigência da revista, Beatriz Pinheiro publicou nove contos[8] e escreveu quatro editoriais, intitulados Chronica[9], num registo profundamente feminista, estatuto assumido e reivindicado pela autora[10]. Para além das Chronicas, dois outros textos, com a mesma denominação, A emancipação da mulher[11], não só demonstram à saciedade a pertença da sua autora ao primeiro feminismo português, como os artigos da Ave Azul podem ser considerados como as primeiras publicações feministas em Portugal. Não por acaso, Ana de Castro Osório que, em 1905, editou a obra, Mulheres Portuguesas, para muitos o primeiro manifesto feminino português, teve um contacto próximo com a revista viseense[12], onde não só publicou como foi objecto de recensões críticas.

A militância feminista de Beatriz Pinheiro provocou violentas e venenosas reacções, com eco na imprensa da época, nomeadamente nos meios católicos onde pontificava o padre Sena de Freitas. Às suas críticas respondeu Carlos de Lemos em três longos e pertinazes artigos publicados na Ave Azul, em que defendia o feminismo e o respeito pelos direitos das mulheres que, então, se começavam a desenhar[13].

O texto Cartas Abertas, que integra o fascículo 6 da 1ª série, em que Beatriz Pinheiro idealizava uma troca de impressões entre duas jovens amigas, Fernanda e Maria, sobre o casamento[14], parece-nos um bom ponto de partida para a análise dos seus textos feministas, pois o estatuto do dote e do casamento, que perpassa pela maior parte dos nove contos insertos na revista viseense, foram a pedra de toque para a defesa dos direitos fundamentais da mulher que se equacionavam em finais de oitocentos.

Chegados aqui, convém apresentar uma biografia, ainda que abreviada, de Beatriz Pinheiro: escritora, feminista, republicana, professora. Oriunda da burguesia duma cidade de província e capital de distrito, nasceu em Viseu, na rua da Nossa Senhora da Piedade, a 29 de Outubro de 1871. Filha de um alentejano de Elvas, funcionário dos correios, Joaquim António Pinheiro, e de Antónia da Conceição Pais, de Paços de Silgueiros, um lugar da freguesia de Silgueiros do concelho de Viseu[15], teve acesso a uma educação formal, frequentando, segundo as suas palavras, o ensino primário e liceal. O fim do liceu e, mais tarde, o diploma em Ciências e Letras, conduziu-a à docência, primeiro do ensino primário e, mais tarde, do ensino liceal feminino. O gosto pela escrita levou-a, ainda estudante, a colaborar na revista académica Mocidade, criada pelo seu futuro marido, Carlos de Lemos, então aluno do Liceu de Viseu. Os dois fundaram, foram proprietários e dirigiram a revista Ave Azul, que se manteve activa durante dois anos: 1899-1900.

A Beatriz Pinheiro não faltava a veia artística: poetisa, prosadora, música – tocava harpa primorosamente -, actriz. Eram célebres os saraus literários em casa do casal Pinheiro-Lemos, frequentados pela intelectualidade do burgo. Em 1906 estreou-se no teatro amador, participando em récitas promovidas pelo Grémio de Viseu e pelo Teatro Viriato. À artista somava-se a mulher feminista, empenhada em causas sociais. Lutava pelo direito das mulheres ao trabalho remunerado, ao salário justo, à educação e ao ensino. Pinheiro foi particularmente activa na sua cidade natal ao defender uma educação feminina e laica. Como presidente da União das Senhoras Liberais de Viseu, fundou, em 1901, Escola Liberal de João de Deus, destinada à educação de raparigas pobres, encerrada em 1909, após sua debandada de Viseu. Dois anos antes, em 1907, foi a responsável pela introdução do projecto das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus. Desde o primeiro momento esteve, de alma e coração, com a Liga Portuguesa da Paz, fundada em Lisboa a 18 de Maio de 1899, tornando-se na correspondente viseense. Pertenceu, ainda, ao Grupo Português de Estudos Femininos, à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e à Associação de Propaganda Feminista. A16 de Novembro de 1915, em Lisboa, foi iniciada na Loja maçónica «Fiat Lux». No ano seguinte, com o nome simbólico de «Clemence Roger», integrou o quadro da Loja Carolina Ângelo, que abandonou em Janeiro de 1920.

Se o desfecho da revista Ave Azul não pôs um ponto final na colaboração de Beatriz Pinheiro com a imprensa do seu tempo, bem pelo contrário, publicando em periódicos como A Beira, Nova Aurora, Almanaque de Senhoras, A Crónica, Alma Feminina ou O Garcia de Resende, o mesmo não aconteceu com a sua permanência na cidade natal. O ambiente adverso quanto à militância republicana e à ideologia perfilhada, claramente assumidas, a que se poderá somar o conservadorismo católico reinante na urbe, teriam obrigado o casal Pinheiro-Lemos a trocar Viseu por outras paragens. A proclamação da República, a 5 de Outubro de 1910, encontra Beatriz Pinheiro em Lisboa, participando na campanha a favor da aprovação da Lei do divórcio ou na reivindicação do laicismo quer no ensino, quer na prática da enfermagem. Em 1911, como professora provisória, leccionava as disciplinas de Francês, Geografia e História no Liceu Feminino Maria Pia, onde, a 8 de Junho de 1916, proferia uma conferência em defesa da participação de tropas portuguesas no cenário bélico europeu, A mulher portuguesa na guerra europeia. Três anos antes, em 1913, juntamente com Ana Augusta de Castilho, Ana de Castro Osório, Luthgarda de Caires, Joana de Almeida Nogueira e Maria Veleda, fez parte da comissão portuguesa presente no 7º Congresso Internacional «Women Suffrage Alliance», realizado em Budapeste.

Aos 51 anos de idade, no dia 14 de Outubro de 1922, Beatriz Pinheiro falecia na capital portuguesa. Seis meses depois, a 26 de Abril de 1923, em sessão ordinária da Câmara Municipal de Viseu, a proposta do vereador Monteiro Júnior, que convidava “a Comissão Executiva a, na primeira oportunidade, dar a uma rua ou praça de Viseu, o nome D. Beatriz Pinheiro, em atenção às altas qualidades desta escritora e poetisa ilustre que foi desta cidade”[16], era aprovada por unanimidade. Mas a oportunidade, de que falava a moção, nunca surgiu e Beatriz Pinheiro é hoje uma personalidade obnubilada na cidade que a viu nascer e onde exerceu uma activa e empenhada militância social e artística.

De acordo com Martim de Gouveia e Sousa[17], a escrita literária de Beatriz Pinheiro, que nunca usou pseudónimos para assinar qualquer peça por si publicada, nem tão pouco se serviu do apelido do marido, inseria-se nas correntes do Decadentismo, do Simbolismo e do neo-romantismo. Se O Enjeitado, o primeiro conto publicado em Ave Azul, num registo neo-romântico, em nada remetia para o universo feminino, o mesmo não aconteceria com todos os outros, em que as heroínas são as mulheres. A mulher que, sem se saber viúva, esperava pacientemente o regresso do marido emigrado no Brasil; a Maria Corcunda, feia, desajeitada, a quem a deficiência notória remetera para o limbo da existência e do esquecimento; Josefa Maria, a bela camponesa beirã, cortejada por dois mocetões de posses, ensombrada pelo assassinato de um, contraía matrimónio com o outro, por sinal o matador. Mas a riqueza seria de pouca dura e sobre o casal pairaria a desgraça e a morte; a filha do mestre-escola seduzida, abandonada com um filho nos braços, ostracizada pela sociedade e infanticida; Margarida, a bela e jovem viúva de um marido a quem não teve tempo de amar; a menina do retrato morta de amor e saudade; a órfã e a paixão proibida pelo filho da sua protectora. Mulheres marcadas pelo abandono, pela tragédia e pela morte: a sua e dos que lhes eram muito próximos. Mulheres disruptivas, numa inconsciente rota de colisão com a norma oitocentista alicerçada no casamento e na maternidade. Mulheres abnegadas, mulheres sofredoras, mulheres que se reinventavam na solidão. Mulheres que se deixam morrer de saudade e de dor. Mulheres que provocam a morte.

As personagens femininas de Beatriz Pinheiro estão, quase todas, envoltas numa teia de fatalidades, que não podem, não querem ou não conseguem romper. De todas, Maria Corcunda representa, a nosso ver, o paradigma da fuga à norma, a síntese em Pinheiro das características da mulher rejeitada pela sociedade burguesa de finais de oitocentos: afastamento dos cânones de beleza da época; auto subsistência; emancipação da tutela patriarcal, seja do pai, do marido ou de um irmão; exercício da maternidade por uma adopção informal.

“ Teria quarenta annos, talvez nem tanto, a Maria Corcunda. Mas dar-lhe-ia sessenta ou mais que para ela olhasse […] illudida por aquelle corpo exaggeradamente pequenino e magro, com a corcunda enorme, muito saliente, que parecia ter garras e sugadoiros, garras para cada vez mais lhe ir enterrando o pescoço entre os ombros, sugadoiros para lhe ir sempre chupando o descarnado peito […]. Pobre Corcundasita! Nascera assim: viera com aquela deformação já do ventre da mãe que se acolhera na Morte para dal-a a ella para a Vida … Entre o pae, homem secco e desabrido, e um primo, orphão de mãe […] que ella, a Maria Corcunda, como todos na aldeia lhe chamavam, por alli se fora creando, tendo pelo pae muito respeito e alguma estima, e pelo primo, esse bello rapaz forte e desempenado […] uma affeição cega, avassaladora […]. Só naquelle seu amor d’ella, profundo, immenso, absorvente, é que elle não reparava, tomando-a decerto por uma creatura à parte, na sua triste deformação física […]. O que ella sofrera! O que ella sofrera [e] acabara por dissolver-se-lhe nas lágrimas choradas sobre o cadáver do pobre rapaz, morto de uma febre que o levara em três dias, quanto mais belo, mais forte e mais cheio de vida parecia. Dois anos volvidos, morreu-lhe o pai e ficou só […]. Senhora d’uma pequena legítima que lhe dava para ir vivendo […]. Agora, se alguma vez tinha inveja às raparigas que iam para a Egreja noivas e vinham de lá esposas […] era só por esses amjinhos loiros que ellas d’ahi por pouco acalentavam nos braços […]”[18].

 

Em A Maria Corcunda são aflorados outras questões e outras problemáticas que tocavam o universo feminino: as diferenças sociais entre dois amantes, – a menina rica e o rapaz pobre -; os seus amores ilegítimos e a criança enjeitada; a fortuna brasileira e a ascensão social; o casamento endinheirado como purificação da nódoa duma gravidez indesejada; a oficialização do filho anteriormente rejeitado.

Mas é em Infanticida, publicado no verão de 1899, que Beatriz Pinheiro aborda a questão do dote, contrapondo a filha de um pobre mestre-escola à feia e desengraçada filha de um brasileiro rico. Enquanto o pai de uma não tinha posses para a dotar, à outra sobrava riqueza. Em síntese: a filha de um mestre-escola, grávida e sozinha, ficou tingida pelo ferrete social de mãe solteira. O sedutor preferiu contrair matrimónio com a descendente rica. A seduzida, pouco depois do parto e no dia do casamento do antigo amante, não só asfixiou o recém-nascido como atirou o cadáver da criança para os pés dos recém-casados. Gravemente doente, transferida da cadeia para onde fora arremessada pelo crime cometido, a infanticida acabaria por morrer na cama de um hospital.

“ […] Fugia, como um vilão às suas responsabilidades e deixava-a a ella só, amarrada a esse filho sem pae, filho que era a sua vergonha e de quem ella seria mais tarde vergonha também! Abandonava-a […] por quem a abandonava? … por uma creatura feia, estúpida, sem valor nenhum […] mas era rica; e, por ser rica, enxote-se uma desgraçada para o lado […]. Não tinha mais que fazer senão resignar-se; ser como tantas outras uma mulher perdida; ver-se deitada ao desprezo, apontada a dedo nas ruas; uma creatura de quem todos se riem e de quem todos se arredam, não vá ella sujál-os com a lama da sua miséria! […] ”[19].

Não por acaso, seria com uma análise muito crítica ao instituto do dote e do casamento que, na revista viseense, se iniciaram os textos feministas de Beatriz Pinheiro

Em forma de missiva e na primeira pessoa, Pinheiro utiliza o texto Cartas Abertas[20] como alerta para uma visão romanceada do casamento. Fernanda, o narrador autodiegético, em carta dirigida a Maria, sua amiga de colégio, comunica que está noiva.

“ […] Fui pedida em casamento!! Quer dizer, sollicitaram a mim a competente permissão para em seguida se dirigirem ao papá!! […] Sou nova, bem sei: vinte e três annos […]; e formosa […]; e queres tu dizer que com vinte e três annos e un palminho de cara que é uma tentação para os homens e um motivo constante de inveja para as mulheres, e havendo a acrescentar que, se não sou rica, tenho comtudo o bastante para viver independente, não há rasão para vir annunciar-te, assim como coisa de prodígio e circumstancia banal e naturalissima de um dos meus admiradores, hoje meu apaixonado, vir sollicitar a honra (sic!) de se unir a mim pelos laços da Santa Madre Egreja?! O que não sabes, minha linda Maria, que o meu apaixonado é … um poeta […] Podia eu lá convencer-me, por ventura, de que um poeta […] o não assustasse entrar na prosa das mil e uma obrigações a que elle sugeita o marido, almoçar, jantar, tomar chá todos os dias com as esposa, assistir aos bailes e jantares officiais, pagar com o mais alegre dos sorrisos as contas da modista de vestidos e da modista de chapéus, ir, na epocha de praias, passar a noite no Casino, para comprazer como os hábitos da esposa elegante e mundana […]? E emfim, – e sobretudo! – podia lá convencer-me  nunca, de que elle não receasse saber ao certo oque venha a ser, num ménage, um lindo grupo de «cabecinhas loiras e olhos cor de saphira», essses deliciosos angitos cuja presença no lar oiço exaltar em teoria a quasi todos por ahi, mas muito principalmente aos poetas? Ora já vês…”[21].

Fernanda, quiçá o alter-ego de Beatriz Pinheiro que foi casada com um poeta, reunia todas as condições exigidas pela sociedade burguesa oitocentista para a concretização de um «bom casamento»: bonita, elegante, medianamente culta, proveniente de uma família que lhe podia assegurar um bom dote. Ao invés, foi a situação disruptiva de muitas mulheres que, a partir da contestação do instituto do dote, levaram Beatriz Pinheiro a reflectir, nas páginas da Ave Azul, sobre a condição feminina. A nosso ver, os seus textos, tão criticados e ao mesmo tempo tão aplaudidos, publicados em Viseu, na viragem do século XIX, tornaram a Ave Azul na primeira revista feminista portuguesa. A Chronica, que abria o fascículo 8, de Agosto-Setembro de 1899, apresenta-se como o primeiro texto em que a autora se assume indubitavelmente feminista.

O artigo do poeta francês Sully Prudhomme, “La femme ao XX siecle”, publicado na Revue des Revues, lamentando a possível perda da «beleza e encanto» da mulher no século XX e a sua aproximação ao «tipo masculino», provocou uma forte reacção em Beatriz Pinheiro. Na Chronica não omitia o que a preocupava: «a questão da mulher» e o famigerado estatuto do dote. Constatava a autora que muitos homens fugiam do matrimónio com mulheres pobres, de que é o exemplo acabado a filha do mestre-escola, personagem central do conto Infanticida. O dote da esposa permitiria ao casal uma vida mais desafogada e aos maridos em particular «instalarem-se comodamente na vida». Perguntava-se, então, como sobreviveriam as raparigas pobres, mesmo «bonitas e inteligentes», sem dote e sem marido.

“E assim, de pouco está valendo hoje à mulher o ser formosa ou intelligente, o ser elegante ou honesta: que o homem, apesar e apparentemente se mostrar rendido a esses bellos predicados […] irá, muito tranquillo e muito satisfeito de si, ligar o seu destino a outra, não importa qual, feia, estúpida, aleijada ou mesmo leviana, uma vez que possua o cubiçado dote […] O que vae ser d’essas pobres raparigas que exactamente por serem pobres não conseguiram arpoar[22] nenhum d’esses senhores? O seu recurso será o benefício dos parentes ou um trabalho ingrato que lhes dará, quando muito, para morrerem de fome, a menos que estendam a mão
à caridade pública, ou se vendam talvez a esses mesmos que, tendo-se vendido por sua vez, já arranjaram ouro sufficiente para as comprar”[23].

Revoltava-se “contra esta miséria, este aviltamento, esta exploração da mulher pelo homem”[24]. Ao sustento por caridade, ao trabalho pouco digno e mal remunerado ou ao caminho da prostituição, propunha um verdadeiro programa de luta feminista:

“que reivindiquem os seus direitos, que façam por conquistar a egualdade civil e política, que sejam nos bancos das Escolas as dignas rivais do mais intelligentes e dos mais estudiosos, e se façam, enfim, médicos, advogados, engenheiros, empregados públicos, tudo – em vez de objectos de luxo ou instrumentos de prazer, seres conscientes e instrumentos de trabalho – numa concorrência leal e decidida com ele, com o inimigo[25], para a conquista do pão de cada dia”[26].

Pinheiro estava consciente de que as suas reivindicações poderiam abalar os alicerces da sociedade em que se movia. Não por acaso, partia para a defensiva, ao escrever:

“Objectar-me-ão, e na apparencia como todo o fundamento, que há já médicos e advogados e engenheiros e empregados públicos que farte; que o proletariado intellectual está sendo o cancro que roe todos os paizes da Europa: que a admissão da mulher a todos os cargos públicos seria o desmoronamento de fond en comble[27]da sociedade tal qual está constituída: isto, e mil e uma outras coisas, sem esquecer a ridicula e feia história do homem a fiar a roca, a coser à machina e a pregar botões, emquanto a mulher se demora lá por fora a jogar no club ou a tocar guitarra pelas ruas ”[28].

E, interrogava-se:

“Mas com que direito faz o homem monopólio de todos estes cargos e condemna a mulher á miséria ou á vergonha, não a chamando a partilhar como sua esposa do pão e dos confortos assim adquiridos? Com que direito a exclue elle iniquamente da ampla mesa do trabalho que a preservaria da miséria e do aviltamento? […] Então a mulher não está, aqui e lá fora, luctando vantajosamente nos bancos das Escolas com os mais intelligentes e com os que mais trabalham, e nos cargos que, a medo ainda, uma ou outra vez lhe confiam, não tem ella provado de sobejo com inteira competência, agora mesmo que pesa sobre ella a velha educação rotineira e o atavismo de tantos e tantos séculos de ignorância e de superstição?”[29].

A luta que Beatriz Pinheiro iniciava pela defesa dos direitos fundamentais da mulher e que hoje, cento e vinte anos depois, em finais da segunda década do século XXI, continua na agenda dos combates feministas, tinha por finalidade o «progresso» da mulher.

 “Que a mulher progrida sempre, que por todos os meios justos ao seu alcance faça por se tornar igual ao homem, para d’uma vez para sempre, acabar esta pretendida superioridade do com o macho[30], e ella deixar emfim de ser a misera escrava emparedada e manietada, o ser secundário, ínfimo, que ora está sendo”[31].

Como Beatriz Pinheiro tinha a certeza de que as suas propostas iam contra a mentalidade vigente e de que a sua aceitação, por mínima que fosse, dependia de mais alterações sociais, defendia um outro modelo educativo masculino:

“O homem, comprehendendo que já não pode desherdar a mulher e obrigal-a a optar entre a miséria ou a vergonha, reformar-se-ha, educar-se-ha melhor: porque, convençamo-nos d’isto, não é só a educação da mulher que carece de reforma, mas a do homem também, sem o que, toda a tentativa de regeneração d’elle, do homem, por ella, epla mulher, pouco fructo dará, que a salutar influencia d’esta vai fatalmente decrescendo à medida que a corrupção e o egoísmo vão alastrando na sociedade. Então, educado o homem doutra maneira, talvez todos elles já não fujam a escolher esposa ou a escolham d’entre as mais dignas, acaba-se d’uma vez para sempre o malfadado engodo do dote”[32].

Terminava esta sua primeira crónica com um veemente apelo a todas as mulheres, fazendo da revolta não só um estado de alma, mas uma plataforma de luta.

“Mas, até lá, avante sempre: lucte sempre a mulher, sem descanso sem trégua d’um segundo. E depois, se o homem se não transformar, se o homem se não regenerar, continue muito embora no seu papel de revoltada, que, por mau que seja, sempre é bem melhor que o tristíssimo papel de ser aviltado e escravisado que neste drama da vida se vê presentemente forçada a desempenhar”[33].

Na Chronica de Outubro de 1899, Pinheiro deambulava entre dois temas que lhe eram muito caros – feminismo e pacifismo. Ao feminismo assumido juntava-se o optimismo caldeado na crença positivista do progresso como motor social, com as mulheres encabeçando as primeiras linhas do combate ao militarismo, na defesa da arbitragem para a resolução do conflito entre as nações.

Em Outubro de 1899, ao publicitar a criação da Liga Portuguesa da Paz[34], não se esquecia de evidenciar o papel das mulheres como artífices da paz, a partir do seu múnus primordial: a educação das novas gerações. Só ela, a mulher, mãe e militante, podia educar para a paz.

“E todo este movimento feminino se me affigura promettedor […] porque á mulher, parece-me, está reservada uma tarefa das mais importantes neste nobilissino esforço para a realização d’um ideal tão alevantado. Essa tarefa é a educação dos filhos […]. Pela educação dos filhos pode a mulher fazer germinar e dar fructos sasonados á semente lançada aos quatro ventos: nos Gabinetes, pela penna; e nas Academias, pela palavra. Ella o pode desenvolvendo na creança os sentimentos de tolerância, de benevolência, de abenegação […] ”[35].

Em nenhum dos textos que escreveu, Beatriz Pinheiro colocou em causa a maternidade, bem pelo contrário. Algumas das personagens femininas dos seus contos carregavam este profundo timbre. Nem todas foram mães biológicas. Nem todas trataram os filhos com desvelo. Em todas a maternidade foi sulcada pela tragédia. A filha do mestre-escola, a abandonada mãe solteira, cometeu infanticídio. Sacrificou o filho e sacrificou-se a si também, porque intuía o triste e atribulado futuro da sua cria. Maria Corcunda, mãe do coração, sucumbe de saudade quando a filha adorada retorna à casa materna. A órfã do último conto, Vae Soli, que amou, como se fosse sua, a filha do seu companheiro de infância que, afinal, nunca nela reparou como mulher. À maternidade trágica dos seus contos, nos textos militantes que escreve, Beatriz Pinheiro contrapõe uma outra maternidade – a educadora pelo exemplo e pela palavra, a que acalenta os direitos e os deveres das gerações vindouras. À mãe desgraçada e infeliz preferia a mãe educadora, indutora de mudança.

Reacções negativas não se fizeram esperar. O fascículo 11, de Novembro de 1899, abria com uma outra crónica, em que, ao procurar defender-se das acusações que lhe tinham sido imputadas, Pinheiro não só propugnava pelos direitos inalienáveis das mulheres como defendia o feminismo. Tendo, mais uma vez, como ponto de partida o libelo acusatório ao estatuto do dote, comentava sarcasticamente:

“Não fiz feminismo[36]essa coisa terrível que atemorisa ainda muita gente por lhe não conhecer, ou por não queres conhecer, bem todo seu alcance […]; fiz humanitarismo simplesmente […]. É nisto – em libertar, em independentar pelo trabalho os milhões de deserdadas a quem nenhum homem lealmente offereça o seu braço para apoio nas luctas da vida – e se resume afinal todo o feminismo bem entendido e sensatamente esclarecido. Uma questão de pão e uma questão de dignidade[37]: libertá-las da fome e libertá-las da ignomínia”[38].

Os «pais de família», especialmente aqueles que sem grandes posses viviam do seu trabalho, não foram esquecidos. Ao dote, que não podiam garantir, propunha o investimento na educação/instrução como ponto de partida para a inserção no de trabalho.

“Para os que vivem do seu trabalho […] e que vêem á sua roda umas poucas filhinhas a quem não poderão salvaguardar das emboscadas do mundo, dotando-as […]. Se as fábricas, se as officinas, se os empregos públicos – a medicina, o foro, as carreiras civis, em suma – lhes fossem, como ao homem, facultadas, passaria a questão do casamento a ser secundária para vós, e descansados poderíeis viver e poderíeis morres descansados, na consoladora certeza de quer as vossas filhas, educadas nos princípios d’honra que lhe houvésseis incutido, tinham, na garantia d’um trabalho honesto, o preservativo mais efficaz contra as seducções do mundo”[39].

Para Beatriz Pinheiro, a entrada das mulheres no mundo do trabalho conferia-lhes não só a independência monetária mas, sobretudo, libertava-as do insidioso estatuto do dote e da dependência de um qualquer marido. A autora levantava, ainda, uma série de pertinentes questões ligadas à honradez e ao desempenho de tarefas justamente remuneradas, sustentando o direito ao trabalho e à emancipação feminina. Atacava as correntes anti-feministas que ligavam a emancipação à masculinização da mulher e à inversão dos tradicionais papéis de género.

“Mas há ainda espíritos de boa fé (que dos outros não me quero aqui occupar) que julgam a emancipação da mulher prejudicial para ella propria, levados talvez, inconscientemente, […] por opiniões, ou interessadas ou mal intencionadas, que de há muito vêem brandando contra este belo ideal cheio de humanidade, falsificando-o e deturpando-o […].E enganados, illudidos, esses espiritos nem chegam a comprehender sequer o verdadeiro significado d’estas duas palavas afinal tão clara: emancipação feminina. Obstinam-se a suppor que emancipar a mulher é masculinisal-a, é rebaixal-a, é desmoralisal-a, é inverter respectivos misteres, decretar a supremacia da mulher sobre o homem”[40].

Contra a pujante corrente anti-feminista, numa altura em que a defesa dos direitos fundamentais da mulher entrava em força na discussão da esfera pública, Beatriz Pinheiro apresentava uma espécie de guião de combate, um verdadeiro manifesto de luta feminista.

“Emancipar a mulher da tutella do homem, sim; mas para conseguintemente a emancipar da miséria, da ignorância e da degradação. Emancipar a mulher da tutella do homem, sim; mas para fazer d’ella o que hoje não é: – um ser intelligente e activo, consciente e independente, sabendo pensar e sabendo querer, bastando a si mesma e a si mesma se completando, cônscia dos seus direitos e mais cônscia ainda dos seus deveres, zeladora da sua honra como coisa que lhe é própria. Emancipar a mulher da tutella do homem, repito: mas para que ela se tone, quando ser possa, credora da sua confiança e da sua estima e seja no lar a companheira que o homem precisa e que tantas vezes – nem sempre sem razão de queixa amargamente de não encontrar; e emancipal-a sobretudo para que ella possa, quando solteira, ganhar honradamente o pão e, quando viúva, não veja morrer á fome os filhos do seu amor”[41].

Para Beatriz Pinheiro, o feminismo tinha por finalidade:

“Pôr a mulher em condições de viver dignamente na sociedade, por meio do seu trabalho, sem precisar de um homem que a mantenha; independental-a do homem, material, moral e intellectualmente de maneira a ella poder ir para o casamento livremente, conscientemente, deixando este de ser para ella um meio de obter pão, uma posição, um arrumo”[42].

 

Aos que achavam «imoral» a cartilha feminista, Pinheiro lembrava que a imoralidade estava na «subserviência», na «sujeição da mulher ao homem», na ignorância. Não por acaso, a autora sintetizava a sua visão do feminismo em três palavras: instrução, educação e emancipação. No futuro, educada, instruída e emancipada, a mulher faria a diferença. Aproveitava, assim, para fazer uma crítica demolidora à instrução e educação femininas oitocentista: “instrucção nula ou deficientíssima”, “péssima orientação”, “dependência moral e phisica”, “nenhuma consciência do seu valor”[43]. Dirigia, então, uma palavra aos futuros maridos:

“A admiração, alguém disse, é um passo para o amor: façam-se as mulheres: e ter-se-ão feito amar. Mas não só admirar pelas galas fúteis da toilette ou pelos encantos dos dotes phisicos […]: façam-se admirar principalmente pelos brilhos d’uma instrucção sólida quanto possível completa; pelas riquezas d’uma intelligencia e d’um espírito aberto a toas as grandes concepções e a todos os nobres ideaes […]; pela plenitude, pela lucidez, pela clarividência, em summa, d’uma razão forte e independente e d’uma consciência recta e inquebrantável”[44].

Segundo o ideário feminista de Beatriz Pinheiro, a efectiva emancipação da mulher estava intimamente ligada ao binómio educação/trabalho. Ora os dois textos com o título “A emancipação da mulher”, publicados em 1900, nos fascículos 4 (Abril) e 6 (Junho) da Ave Azul revelam claramente o pensamento da autora sobre esta problemática.

O primeiro dos artigos, em 25 páginas, abre com uma referência à última crónica[45] em que não só defendia a dignificação da mulher pelo estudo e a sua emancipação pelo trabalho, como aludia a uma maternidade responsável. Críticas não se fizeram esperar. Reagindo, a autora apodou-as de cegas e preconceituosas, rebatendo-as.

“Estamos habituados a ver a mulher, tirante a do povo, educada apenas para a salla, para a côrte[46], para o galanteio, quando muito, para o casamento […] para arranjar marido, para se arrumar, para deixar de dar cuidado aos pães, para ter uma collocação, em summa, a única collocação que lhe concedem: de modo nenhum, para a vida do lar, para os deveres d’esposa e menos ainda para a missão da maternidade e portanto para a gloriosa tarefa de educadora das futuras gerações. D’ahi os gritos de protesto e os risos de desdém com que são recebidos quantos, reagindo contra a rotina, se lembram de dizer que a mulher deve ser educada de outra forma; e que a obrigação do trabalho à mulher, como ao homem, assiste […]. A mulher deve saber trabalhar; deve poder e querer trabalhar; deve trabalhar”[47].

Consolidava o seu argumentário trazendo a lume o exemplo das «mulheres do povo»: a camponesa, que trabalhando de sol a sol ainda encontrava tempo para cuidar da prole; a proletária das cidades a quem era exigido um esforço hercúleo. Essas não eram criticadas por trabalharem. “E ninguém diz nada, e ninguém protesta, e passam todos indifferentemente, olhando sem ver, achando natural até, muito natural: – trabalham para ganhar a vida”[48]. Beatriz Pinheiro defendia que a mulher tinha toda a competência para a prossecução de múltiplas tarefas em vários domínios: – nos «ofícios», nas artes, nas letras, nas ciências. Para o comprovar, apresentava uma série de exemplos de mulheres inventoras que tinha ultrapassado a limitada soleira da porta do lar. Porém, as capacidades e as competências femininas teriam de ser trabalhadas na escola, retornando a um dos temas que lhe era mais caro, a educação e instrução femininas, advogando a entrada das jovens nas escolas secundárias, superiores e profissionais.

A questão da maternidade foi trazida, mais uma vez, à colação, uma vez que os seus delatores continuavam a alegar que o exercício de uma profissão afastava a mulher – burguesa – do lar, do marido e dos filhos. Mas, deixemos que sejam as suas palavras a falar.

“Mas, uma vez emancipada, a mulher pela instrucção e pelo trabalho […] já ella se não sugeitará de bom grado á maternidade como hoje, por lhe pesarem mais os riscoa a que se expõe, os encargos a que se sujeita … Não há tal: não é a mulher intelligente e illustrada, não é a mulher que pelo estudo e pelo trabalho se habituou a ver o sacrifício como razão da sua vida, não é essa, não é, a que se nega aos encargos da maternidade … Não sou eu que o digo: dizem-no os mais illustres sociólogos que da questão da despopulação se teem ocupado. As mulheres frívolas, as mulheres ociosas, as mulheres do mundo […] essas é que pelas estatísticas são acusadas de tal […]. Mas então que inconveniente haverá em que a mulher trabalhe, em que a mulher ganhe honradamente o seu pão, em que ella se prepare para prover às suas necessidades?”[49].

Pinheiro respondia à questão que formulava com uma outra pergunta:

“Porque não havemos de educar as nossas filhas, como os nossos filhos, sob o ponto de vista do trabalho? – Se a elles os preparamos para a vida, para a lucta pela existencia, colocando-os numa carreira, dando-lhes uma profissão, ensinando-lhes um officio: porque não procedermos da mesma forma com ellas, dando-lhes um modo de vida que lhes assegure o pão, em vez de as prepararmos, única e simplesmente – e a maior parte das vezes tão mal! – para o casamento que , alem de tudo o mais, tão precário é hoje, quando a mulher não tem dote?!”[50].

Contudo, as interrogações de Beatriz Pinheiro não se ficavam por aqui, avançando com uma outra directamente ligada com a relação entre os dois sexos em contexto de trabalho. A autora acentuava, então, a problemática do «respeito» que as mulheres deviam exigir aos seus colegas masculinos. Porém, a convivência saudável entre pares carecia de uma outra postura educativa, de um novo sentido imprimido à educação. Pinheiro, que vinha defendendo um outro perfil educativo para os rapazes, lançava para o seio materno um verdadeiro programa de educação masculina,

“Em vez de os deixarmos tornarem-se, pela falta d’educação moral, uns frívolos e uns scepticos, esforcemo-nos todas e todos, os pães, mas sobretudo as mães, por fazel-os antes stoicos e crentes: eduquemol-os no respeito a tudo quanto é respeitável; eduquemol-os, sobretudo, no respeito à mulher e principalmente á mulher que trabalha: e nós veremos depois o que as nossas terão de recear de homens assim educados, assim morigerados. [É assim] que os homens são os primeiros a reconhecer esta flagrantíssima verdade; já respeitando a mulher que, rompendo o preconceito, se atreve hoje a trabalhar; já desposando-a de preferência áquell’outra que possue a sciencia suprema de não saber nada e de não fazer nada; o que é muito mais significativo ainda”[51].

Como estes eixos programáticos estão tão longe das personagens dos seus contos! Como se distanciam tanto das jovens mulheres crédulas, seduzidas e abandonadas, que acreditaram num amor que mais não era do que a fugaz paixão de mancebos marialvas, trocada pela segurança financeira que o dote das futuras esposas afiançava!

No seu argumentário, Beatriz Pinheiro ia muito mais longe, relacionando o respeito entre os sexos com a qualidade da educação formal. Baseada na sua experiência, propunha e defendia um outro paradigma educativo: o modelo da coeducação.

“Eu tenho a radicar-me esta convicção o facto. Por mim concludente, de ter convivido com rapazes desde que comecei a instrucção primária até que conclui a instrucção secundária – desde creança até ser mulher […] Para todos eles[52] fui um camarada, um companheiro, um amigo, um condiscípulo que os auxiliava por vezes e que por vezes auxiliavam; nada mais. Não era uma mulher: era um estudante. [A coeducação] não só acabaria com esse constrangimento, essa indiferença, quando não essa hostilidade entre eles [mas] estabelecer-se-ia entre o homem e a mulher essa atmosfera de confiança, de respeito, de estima que tanto seria de desejar. O homem habituar-se-ia a ver na mulher não só a sua futura companheira do lar, mas também a sua actual camarada”[53].

Com o artigo publicado em Junho de 1900, encerravam-se as publicações feministas de Beatriz Pinheiro na Ave Azul. O texto iniciava-se com divulgação do «Congresso Internacional sobre a condição e os direitos das mulheres» que, três meses depois, em Setembro, teria lugar em Paris, com uma chamava a atenção para os temas em debate[54]. Virando-se para dentro, incitava as suas leitoras a lerem, analisarem e meditarem sobre o programa em causa, de modo a que as discussões na capital francesa servissem de exemplo à luta das mulheres portuguesas.

O fascículo de Junho de 1900 ficou marcado por uma crítica contundente ao modelo vigente da educação feminina, que em nada preparava as raparigas para a vida adulta.

 “Todos nós sabemos que a educação da mulher está inteiramente subordinada ás leis da moda e da galanteria […]: por isso é que ella é ainda puramente decorativa, para armar ao effeito simplesmente, brilhante na apparencia mas no fundo lamentavelmente vasia e inútil […] pois realmente, haverá alguma intenção de utilidade nisso que se ensina ás mulheres: um pouco de francez – e, quando mais abastadas as famílias, de inglez e de allemão também – muzica, vagas noções de história e de geografia, e a factura d’esses bordados incríveis, d’um mau gosto que toca as raias do absurdo e do phantastico […]. Pois bem: as mulheres, umas esquecendo logo, pouco depois de aprendidas, todas essas lindas frioleiras, outras então deslumbrando e envergonhando as companheiras menos sabedoras com o seu vocabulário estrangeiro que affecta quasi desdenhosamente a ignorância da própria língua, essas duas espécies de mulheres, todas são consequência da educação que receberam: as primeiras, com o seu esquecimento, mostram a inanidade do que apprenderam: as outras, com o seu pedantismo, o lado prejudicial d’esse ensino; ambas, ou esquecendo ou tornando-se pedantes, correspondem plenamente […] à absoluta ausência de qualquer intenção pratica ou utilitária no fornecimento d’essa educação”[55].

Se aceitava este modelo educativo para um grupo social muito restrito – a elite -, contestava o seu mimetismo a outros grupos sociais, concretamente ao seu grupo de pertença. E, concluía mordazmente: “não é a instrução que desnorteia a mulher, mas a qualidade de instrução e […] a intenção deploravelmente frívola com que lhe é ministrada”[56].

Beatriz Pinheiro procurou ainda desfazer uma série de preconceitos ideológicos: a inaptidão da mulher na execução de tarefas que exigiam persistência, perseverança e responsabilidade; a incapacidade de um pensamento racional feminino; a dedicação, a renúncia e a obediência como destino fatal de toda a mulher.

“Dizem-nos que somos incapazes de um trabalho aturado e todavia há tantas mulheres com uma tarefa superior às suas forças [.] Dizem-nos que a nossa sensibilidade não nos deixa guiar pela razão: e todavia, perante a lei, somos tão responsáveis pelo menos como o homem. Dizem-nos que a nossa natureza nos leva à dedicação, à renúncia, à obediência [e] o homem serve-se dessas nossas virtudes para nos sujeitar ao seu proveito. Dizem-nos […] que nos alindemos[57], que empreguemos a nossa ociosidade … e a nossa actividade também em mil futilidades próprias do nosso sexo […] e todavia esses mesmos que assim nos falam vão fazer prova da nossa incapacidade”[58].

Contra este fatalismo que exaltando a mulher, de facto, a diminuía, propunha a resistência activa.

“Provar-lhes que sabemos trabalhar e sobretudo que sabemos aprender a trabalhar […] provar-lhes enfim que o nosso espírito também sabe prender-se interessar-se, apaixonar-se por alguma coisa mais sério que todas essas encantadoras bagatelas”[59].

E o artigo terminava em esperança.

“As palavras de aprovação e animação que tenho recebido de muitas senhoras […] fazem-me acalentar a esperança de que a mulher portuguesa há-de acordar em breve para as reivindicações, direitos, enfileirando […] no movimento que por toda a Europa se está operando e de que é prova mais que suficiente o próximo Congresso Internacional de Paris”[60].

Os textos feministas de Beatriz Pinheiro chegaram a casa de muitas e muitas mulheres que se reviram neles. Uma delas foi Maria Veleda que, no fascículo 8/9 de Agosto-Setembro de 1900, da Ave Azul, fez publicar o artigo, “A emancipação feminina”.

  “A educação da mulher é uma necessidade imperiosíssima. Insistir neste ponto seria ociosidade, documentada como tal necessidade tem sido por escriptores de notável talento. Cito a propósito o sympathico nome de Beatriz Pinheiro, cuja attrahente propaganda, acompanhada de exemplos prestigiosos e provas induvidáveis, nos assombra pela minuciosidade cuidadíssima dos pormenores, exactidão de datas, – tudo emfim, quanto se deve impor aos mais refratários á sua doutrina – como uma verdade universal”[61].

No derradeiro número da revista viseense, publicado em Dezembro de 1900, os seus directores, numa crónica a duas mãos, faziam a síntese do trabalho de dois anos. Vale a pena perceber a avaliação aos textos escritos por mulheres:

   “A colaboração feminina, diminuta muito embora, foi honrosíssima […]. Pugnou o melhor que soube e pôde, pela emancipação da mulher, ou seja: pela sua instrução e educação, de forma a ela se tornar, como deve ser […] verdadeira mãe, portanto – conselheira e guia de futuras gerações; e pela pacificação universal, alvo a que deviam tender todos os esforços de quantos os olhos põem mais além do que o triste dia de hoje”[62].

Dos trinta e sete artigos que, ao longo de dois anos, Beatriz Pinheiro publicou na revista Ave Azul, foi nos contos, nas crónicas e em dois textos emblematicamente intitulados “A emancipação da mulher” que irrompe a militância feminista da autora. Se, nos contos, a maior parte das suas disruptivas personagens femininas, revestidas de uma intensa dramaticidade, foram pungentemente tocadas pela tragédia e morte, os textos em torno do feminismo apresentam serenas e bem documentadas reflexões sobre a problemática da mulher. Ao contrário das suas trágicas personagens, todas elas vítimas do contexto patriarcal da sociedade oitocentista, nos artigos que escreveu e tendo como ponto de partida o «estatuto do dote», Beatriz Pinheiro construiu o seu pensamento feminista alicerçado em três conceitos básicos: instrução/educação, trabalho remunerado e emancipação.

O caminho para a emancipação da mulher passava pelo binómio educação e trabalho – coeducação/instrução e o trabalho devidamente remunerado. Para Pinheiro não havia mundos separados. Entre mulheres e homens dever-se-iam estabelecer parcerias responsáveis, ponto de partida para uma sociedade mais justa. Aos seus críticos, respondeu com clareza e sem medo incentivando as mulheres à luta pelo reconhecimento dos seus direitos fundamentais.

Cerca de 120 anos após a publicação da Ave Azul, injustamente esquecida, nomeadamente na cidade que a viu nascer, crescer e despontar para o feminismo que tão denodadamente defendeu e militou, Beatriz Pinheiro merece ser lembrada e os seus textos lidos, comentados e analisados. Mais do que não fosse, porque muitas das metas traçadas continuam, um pouco por todo o mundo, a fazer parte da luta quotidiana das mulheres.

 

Bibliografia

 

Ave Azul, Viseu, 1899 e 1900. Hemeroteca digital. Lisboa

 

LIZ, H. D. Beatriz Pinheiro de Lemos III, Jornal do Centro, Viseu, ano 8, nº374, 33, 15 de Maio, 2009

 

JOAQUIM, T. Menina e Moça: a construção social da feminilidade, Fim de Século, Lisboa, 1997

 

RIBEIRO, A. Um escritor confessa-se, Bertrand Editores, Lisboa, 2016, p. 40-41

 

SILVEIRA, A. Bata preta, cinto vermelho e gola branca, Tese (Mestrado em História da Educação) – Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Portugal. 2005

 

SILVEIRA, A. O pensamento feminista de Beatriz Pinheiro a partir da revista viseense Ave Azul (1899/1900), in II Congresso República e Republicanismo, 2104, Lisboa.

 

SILVEIRA, A. De pacifista a defensora da Guerra. O percurso singular de Beatriz Pinheiro, in Congresso Internacional As mulheres e as Guerras no mundo, 2106, Lisboa.

 

SILVEIRA, A. O protagonismo de Beatriz Pinheiro na revista viseense Ave Azul (1899-1900), Revista Historiae, Rio Grande, 8 (2), 2017, p 77-95.

 

VAQUINHAS, I. “Senhoras e Mulheres” na sociedade portuguesa do século XIX, Edições Colibri, Lisboa, 2000.

 

VAQUINHAS, I. Nem gatas borralheiras, nem bonecas de luxo: as mulheres portuguesas sob o olhar da historiografia (séculos XIX e XX), Livros Horizonte, Edições Colibri, Lisboa, 2005.

 

VENTURA, A. Silêncio e virtude: uma História da Maçonaria Feminina em Portugal, Temas e Debates/Círculo de Leitores, Lisboa, 2016.

 

SOUSA, Martim de Gouveia e Beatriz Pinheiro e o direito das mulheres, disponível em http://aveazul.blogspot.pt. Acesso em 1 de Agosto de 2017.

 

Breve Biografia

Anabela Silveira é Doutorada em História pela Universidade do Porto, com a tese “Dos Nacionalismos à Guerra: os movimentos de libertação angolanos, 1965-1945”. Investigadora do Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL. Tem-se também dedicado ao estudo da feminista Beatriz Pinheiro.

 

…………………………..

[1] Aquilino Ribeiro, reputado escritor português do séc. XX, natural do Carregal da Tabosa, Concelho de Sernancelhe, Distrito de Viseu, onde nasceu no ano de 1885, assentou arrais em Viseu aos 17 anos, para estudar Filosofia com Júlio Alves Martins, sobrinho do Bispo regenerador, D. António Alves Martins. Com o exame feito, ingressou no Seminário de Beja para se preparar para a carreira eclesiástica, o sonho de sua mãe. Na obra autobiográfica Um escritor confessa-se, Aquilino discorre sobre a sua passagem pela cidade beirã, onde passou um ano. (RIBEIRO, Aquilino, Um escritor confessa-se, Bertrand Editora, Lisboa, Portugal, 2016, p 40 e 41).
[2] António Cardoso de Lemos nasceu a 3 de Janeiro de 1867 em Lalim, no Concelho de Tarouca, Distrito de Viseu. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, mas foi professor do ensino liceal, começando a carreira docente no liceu de Viseu, onde tinha sido aluno. Republicano, maçon, humanista e, como escreveu na revista Ave Azul, feminista, foi Presidente da Comissão Municipal Republicana viseense. Perseguido pelas suas convicções políticas, abandonou a cidade beirã, terminando os seus dias de professor no Liceu Passos Manuel, em Lisboa. Ficando viúvo aos 55 anos de idade, veio a morrer na capital portuguesa, em 1954, com a veneranda idade de 87 anos.
[3] http//hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/FichasHistoricas/Ave Azul.pdf, em linha, consultado a 12.3.2017, 20h07.
[4] “Quem conhece o nosso meio sabe bem quanto é diffícil ganhar pela penna o indispensável para viver parcamente, mesmo aos que da penna fazem offício, quanto mais a quem da penna faz simplesmente distracção innocentíssima das poucas horas que o cumprimento […] das suas obrigações officiaes lhe deixa vagas no dia ”, (LEMOS, Carlos de, s/ título, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 1, 1-5, Janeiro, 1899).
[5] Em itálico no original.
[6] Em itálico no original.
[7] LEMOS, Carlos de, s/ título, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 1, 1-5, Janeiro, 1899.
[8] O enjeitado (série 1, fascículo 1, 15 de Janeiro de 1899, p15-22); A espera (série 1, fascículo 3, 15 de Março de 1899, p109-112); A Maria Corcunda (série 1, fascículo 6, 15 de Junho de 1899, p253-268); O crime (série 1, fascículo 7, 15 de Julho de 1899, p292-297); Infanticida (série 1, fascículo 8/9, 15 de Agosto-Setembro de 1899, p 364-380); Duas Almas (série 2, fascículo 1/2, 25 de Fevereiro de 1900, p 29-36); Através dos tempos (série 2, fascículo 5, Maio de 1900, p 271-276); O obstáculo (série 2, fascículo 6, Junho de 1900, p 353-359); Vae Soli (série 2, fascículo 12, Dezembro de 1900, p 693-703).
[9] Chronica I (série 1, fascículo 8/9, 15 de Agosto-Setembro 1899, p 321-327); Chronica II (série 1, fascículo 10, 15 de Outubro 1899, p 433-441); Chronica III (série 1, fascículo11, 15 de Novembro 1899, p 497-506); Chronica IV (série 2, fascículo 1/2, 25 de Fevereiro 1900, p 1-11); Chronica V (série 2, fascículo 6, Junho 1900, p 305-313).
[10] Série 1, fascículos 8/9, 15 de Agosto-Setembro de 1899, p 433-44, 10, 15 de Outubro de 1899, p 433-441, 11, 15 de Novembro de 1899, p 497-506; Série 2, fascículos 1/2, 25 de Fevereiro de 1900, p 1-11, 6, Junho de 1900, p 305-313.
[11] A emancipação feminina I (série 2, fascículo 4, Abril 1900, p 197-222); A emancipação feminina II (série 2, fascículo 6, Junho 1900, p 390-400).
[12] Fascículo 2, de Fevereiro de 1899 – recensão crítica por Beatriz Pinheiro do livro de contos, Infelizes, publicado por Castro Osório em 1899; fascículo 3, Março de 1899 – fragmentos do romance no prelo, Ambições, de Ana de Castro Osório; fascículo 6, Junho 1900 – conto Magusto, de Ana Castro Osório.
[13] LEMOS, Carlos de, A emancipação da mulher (análise crítica de um artigo do reverendo padre Senna Freitas, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 10, 470-493, Outubro, 1899); LEMOS, Carlos de, A emancipação da mulher (ainda o artigo do reverendo padre Senna Freitas, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 11, 522-526, Novembro, 1899); LEMOS, Carlos de, Emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 1/2, 75-87, Fevereiro, 1900).
[14] Série 1, fascículo 6, 15 de Junho de 1899, p 239-244
[15] Cf. Assento do baptismo de Beatriz Pinheiro in Arquivo Distrital de Viseu, cx. 31, nº75, fl. 141
[16] Livro de actas da Câmara Municipal de Viseu, 26 de Abril a 24 de Novembro 1923, Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, Viseu, Portugal
[17] Cf. Martim de Gouveia e Sousa, no blogue Ave Azul, revista de Arte e Crítica de Viseu, entrada “Beatriz Pinheiro e o direito das mulheres”, 4 Junho 2016. (http://aveazul.blogspot.pt).

[18] PINHEIRO, Beatriz. Maria Corcunda, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 6, 233-237, Junho, 1899.
[19] PINHEIRO, Beatriz. Infanticida, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 8/9, 364-380, Agosto-Setembro, 1899.
[20] PINHEIRO, Beatriz. Cartas Abertas, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 6, 239-244, Junho, 1899.
[21] PINHEIRO, Beatriz. Obstáculo, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 6, 239-240, Junho, 1900.
[22] Em itálico no original.
[23] PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 8/9, 321-327, Agosto-Setembro, 1899
[24] Idem
[25] Em itálico no original
[26] PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 8/9, 321-327, Agosto-Setembro, 1899
[27] Em itálico no original
[28] PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 8/9, 321-327, Agosto-Setembro, 1899
[29]PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 8/9, 321-327, Agosto-Setembro, 1899
[30] Em itálico no original
[31] PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 8/9, 321-327, Agosto-Setembro, 1899
[32]Idem
[33] Ibidem
[34] Por iniciativa de Alice Pestana, foi fundada a 18 de Maio de 1899, em Lisboa. Beatriz Pinheiro foi, desde logo, a correspondente delegada no distrito de Viseu.
[35] PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 10, 433-441, Outubro, 1899
[36]Em itálico no original.
[37] Em itálico no original.
[38]PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 11, 497-506, Novembro, 1899
[39]Idem
[40] Ibidem.
[41]PINHEIRO, Beatriz. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 1, fascículo 11, 497-506, Novembro, 1899
[42] Idem
[43] Ibidem
[44] Ibidem1.
[45] Fascículo 11, Novembro 1899.
[46] Em itálico no original
[47] PINHEIRO, Beatriz. A emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 4, 197-222, Abril, 1900.
[48] Idem
[49] PINHEIRO, Beatriz. A emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 4, 197-222, Abril, 1900.
[50] Idem
[51] Ibidem
[52] Referia-se aos colegas de estudos a quem tratava por camaradas.
[53]PINHEIRO, Beatriz. A emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 4, 197-222, Abril, 1900.
[54]Dividido em três painéis, no Congresso de Paris debateram-se questões como o salário feminino, a duração da jornada de trabalho ou abolição da prostituição, a reforma das leis de família e a igualdade direitos civis e políticos.
[55]PINHEIRO, Beatriz. A emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 6,390-400, Junho, 1900.
[56] Idem.
[57]Em itálico no original.
[58]PINHEIRO, Beatriz. A emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 6,390-400, Junho, 1900
[59] Idem
[60] PINHEIRO, Beatriz. A emancipação da mulher, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 6,390-400, Junho, 1900
[61] VELEDA, Maria. A emancipação feminina, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 8/9, 449-452, Agosto-Setembro, 1900.
[62] PINHEIRO, Beatriz e LEMOS, Carlos de. Chronica, Ave Azul, Viseu, série 2, fascículo 12, 657-660, Dezembro, 1900.

 

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP. É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP. Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

Pub