De pacifista a defensora da Guerra – O percurso singular de Beatriz Pinheiro

por Anabela Silveira | 2017.01.26 - 18:05

 

 

Nota: No centenário do envio de CEP (Corpo Expedicionário Português) para o teatro de guerra na Europa, lembremos o papel activo de Beatriz Pinheiro na defesa da participação de Portugal na I Guerra Mundial

 

Beatriz Pinheiro terminava a conferência, que proferiu a 8 de Junho de 1916, no Liceu Maria Pia, com palavras lapidares: “Façamos todos o nosso dever, e ter-nos-emos impostos à simpatia, ao respeito e ao reconhecimento da Europa; e veremos mais tarde realizado o voto que o Chefe de Estado, o Sr. Doutor Bernardino Machado, formulou a um jornalista francês: – que quando os exércitos gloriosos de França passarem sob o Arco de Triunfo, o povo de Paris e com ele de todo o mundo civilizado aclame os mesmos vivas a França – a Portugal” (Pinheiro 1916, 24).

A republicana e feminista, que denodadamente defendia a intervenção de Portugal no cenário europeu da 1ª Guerra Mundial, era a mesma que, cerca de 20 anos antes, nas páginas da revista Ave Azul, discorria sobre a importância da manutenção da paz, esse “ideal deslumbrantíssimo” pois “a Humanidade já não precisa da Guerra para progredir; é na Paz que hoje estão os elementos do progresso: e o Progresso é a lei da Humanidade”[1].

Incoerência nos discursos? Incoerência ideológica? Ou, pelo contrário, uma clara afirmação política em contexto bélico, quando uma guerra imperial não deixava de ensopar de sangue e dor os campos europeus, as extensas planuras africanas e as estepes asiáticas? Incoerência ou o resultado da maturação de um processo em tudo semelhante ao de outras mulheres que, por essa Europa fora, puseram o mesmo empenho na defesa da manutenção da Paz e no activismo da Guerra? Marc Ferro expressa com clareza essa luta interior por que tanta gente terra terá passado, como foi o caso de Beatriz Pinheiro, ao afirmar:

“Cada cidadão estava persuadido [de que] ao responder ao apelo do seu país, estava a cumprir o dever de patriota e de revolucionário [e que] ao fazer a guerra, os revolucionários – operários e os outros combatentes seriam os obreiros da paz eterna. Belo ideal, essa última utopia da «última das guerras» que animava os soldados. Deste modo, pacifismo e internacionalismo confundiram-se com o indivíduo e o patriotismo, um facto bastante excepcional que só a natureza imaginada desta guerra explica: era considerada por todos como uma guerra de defesa patriótica, logo uma guerra justa; e, de qualquer modo, uma guerra inelutável” (Ferro 2014, 21).

Em 1914, no início do primeiro grande conflito do século XX, Ana de Castro Osório, uma das vozes feministas ligadas ao intervencionismo, esteve na origem de um movimento de voluntariado de apoio à guerra, denominado Pela Pátria, “que tinha o duplo fim de fazer propaganda patriótica e ao mesmo tempo cuidar de angariar donativos e metodizar o trabalho feminino para juntar roupas e agasalhos para os nossos soldados (…) ”.·. A publicação mensal, A Semeadora, propriedade da “Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher”, dirigida por Castro Osório, que se publicou entre Julho de 1915 e Dezembro de 1917, dava a lume, no seu segundo número, uma carta de Beatriz Pinheiro em que esta discorria sobre a natureza de uma gazeta feminista claramente perfilada com os guerristas.

“Que hei-de dizer em relação à «Semeadora»? Que não me satisfaz como a não satisfaz a si. Eu queria um órgão à altura das exigências da propaganda, capaz de levar sugestões e a convicção àqueles que ainda não temos de seu lado, talvez por uma apreciação menos justa das nossas ideias e dos fins que nos propomos atingir. Um órgão que, atraindo as atenções prestigiasse a causa, seria o ideal; mas, se se há-de ficar sempre a meio caminho do ideal, que lhe havemos de fazer? Em todo o caso não quer isto dizer que não reconheça o valor e utilidade ao pequenino jornal, está claro”[2].

Porém, apesar de considerar que o jornal devia ser bem mais assertivo na defesa da intervenção de Portugal na Guerra, Pinheiro não abandonou as suas companheiras de luta, o que veio a ser sintomático na posição que, um ano mais tarde, tomou. A 9 de Março de 1916, a declaração de guerra por parte da Alemanha conferiu espessura à tese dos defensores do intervencionismo luso em teatro europeu, como era o caso do Partido Democrático de Afonso Costa, de quem Beatriz Pinheiro era correligionária. Nesta esteira, D. Elzira Dantas Machado, mulher do Presidente da República, Dr. Bernardino Machado, tomou a iniciativa em constituir um novo movimento feminino de apoio à intervenção portuguesa, a «Cruzada das Mulheres Portuguesas», que encontra em A Semeadora o órgão privilegiado para a disseminação dos seus objectivos e das actividades que se propunha realizar. A 8 de Junho, no Liceu Maria Pia, em Lisboa, onde exercia a actividade docente, Beatriz Pinheiro proferia uma conferência em defesa da participação de tropas portuguesas no cenário bélico europeu, que esteve na origem do opúsculo, A mulher portuguesa na guerra europeia, editado pela empresa que detinha o título de A Semeadora. O produto obtido com a sua venda foi integralmente oferecido à Cruzada das Mulheres Portuguesas.  

Mas afinal, quem foi Beatriz Pinheiro: feminista, republicana, escritora e professora? Oriunda da pequena burguesia duma cidade de província, Beatriz Pinheiro nasceu em Viseu a 29 de Outubro de 1871. Filha de um funcionário dos correios teve acesso a uma educação formal, frequentando, segundo as suas palavras, o ensino primário e liceal. O fim do liceu e o diploma em Ciências e Letras trouxe-lhe a docência, uma das poucas áreas de trabalho acessível a mulheres instruídas do seu grupo social. O gosto pela escrita levou-a, ainda estudante, a colaborar na revista Mocidade. Mais tarde, juntamente com o professor e escritor Carlos de Lemos, com quem casou, fundou e dirigiu a revista Ave Azul que se manteve activa durante dois anos: 1899-1900. Nesta revista deixou muito do seu pensamento republicano, feminista e pacifista, como é exemplo a Chronica, que abre o número 15, de Outubro de 1899. Desde o primeiro momento esteve com a Liga Portuguesa da Paz, fundada em Lisboa a 18 de Maio daquele ano, tornando-se, desde logo, correspondente na cidade natal.

Mal tinha despontado o século XX, ia a Beatriz Pinheiro na terceira década de vida, a militância republicana, sua e de seu marido, a que se aliaram os artigos publicados na revista que ambos dirigiam, mormente aqueles que se prendiam com a defesa do feminismo, alimentaram tais anti-corpos na região que obrigaram o casal a abandonar a cidade. Em 1909 aderia à «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas». Sem nunca deixar de publicitar as suas ideias, nomeadamente quando participou na campanha a favor da aprovação da Lei do divórcio ou na reivindicação do ensino e enfermagem laicos, colaborou em diferentes periódicos como A Beira, Almanaque de Senhoras, Alma Feminina ou A Crónica.

Depois da Implantação da República passou a viver em Lisboa, leccionando, como professora provisória do Liceu Feminino Maria Pia, as disciplinas de Francês, Geografia e História. Em 1913, juntamente com Ana Augusta de Castilho, Ana de Castro Osório, Luthgarda de Caires, Joana de Almeida Nogueira e Maria Veleda, fez parte da comissão portuguesa presente no 7º Congresso Internacional “Women Suffrage Alliance”, realizado em Budapeste. A 14 de Outubro de 1922, aos 51 anos de idade, falecia em Lisboa. Seis meses depois, a 26 de Abril de 1923, em sessão ordinária da Câmara Municipal de Viseu era aprovada, por unanimidade, a proposta do vereador Monteiro Júnior, que convidava “ a Comissão Executiva a, na primeira oportunidade, dar a uma rua ou praça de Viseu, o nome D. Beatriz Pinheiro, em atenção às altas qualidades desta escritora e poetisa ilustre que foi desta cidade”[3]. Mas a oportunidade nunca surgiu e Beatriz Pinheiro é uma personalidade obnubilada na cidade que a viu nascer.

A «Chronica» de Outubro de 1899 foi dedicada à defesa do pacifismo. A autora, numa análise ético-moral, dissertava então sobre a “grande ideia” que brotara do século XIX – a Paz Universal, ou seja, “ a aspiração do Bem, da Felicidade, a aspiração do único, do definitivo, do verdadeiro progresso sobre a Terra”[4]. A juventude de Beatriz Pinheiro, o feminismo assumido, o optimismo que espelhava nos artigos que dava a lume caldeados da crença positivista no progresso como motor social, de onde as mulheres, pelo seu «ardor inexcedível», não poderiam ser arredadas, transformaram-na, num dos arautos do combate ao militarismo e na defesa da arbitragem como forma de resolução do conflito entre as nações. Indo mais longe, bem na calha dos socialistas europeus, sustentava até um desejo internacionalista – a comunidade das nações. Segundo as suas palavras: “as nações fraternizadas numa comunhão perfeita de interesses, de ideias, de sentimentos”[5]. Para a autora, como para tantos outros pacifistas e revolucionários de fim de século, o único combate possível arraigava na “Guerra contra a Guerra[6] – a única guerra já agora admissível para quantos sobre o caso reflictam livres de preconceitos absurdos”.[7]

Beatriz Pinheiro, que parecia estar par do que de mais actual se produzia e realizava na Europa e nos Estados Unidos, fazia referência a um inquérito que a revista L’Humanité Nouvelle [8] publicara sobre a guerra e o militarismo. De entre as personalidades auscultadas, registava a resposta de catorze mulheres, de entre as quais a Baronesa de Suttner. “Todas elas gritaram à uma ali o seu protesto contra esta revoltante monstruosidade que, mercê do nosso estupidíssimo egoísmo, veio até nós lá dos remotos tempos da inicial barbárie”[9]. Para a articulista, as respondentes integravam o movimento feminista internacional, o que não é de todo verdade. A Baronesa de Suttner não era conhecida pela sua filiação ao feminismo, mas sim pelo seu trabalho em prol da paz, do desarmamento e da arbitragem de conflitos, tão do agrado da directora da Ave Azul. Em 1898, a proposta do czar da Rússia às potências europeias para a discussão da questão do aumento de armamento encantou os militantes pacifistas. Apesar das resistências geradas, como foi o caso da Alemanha, delegações de vinte e seis nações [10], a que se juntaram activistas em prol da paz, como a Baronesa Suttner ou a portuguesa Alice Pestana[11], reuniram-se em Haia, entre Maio e Julho de 1899. Da conferência saíram acordos sobre armamento e foi aprovado o primeiro acordo internacional sobre normas de condução da guerra, nomeadamente no que dizia respeito ao tratamento humanitário dos prisioneiros de guerra – militares e civis. Foi ainda assinada uma «Convenção para a Solução Pacífica dos Conflitos Internacionais» e estipulado a criação de um Tribunal Permanente de Arbitragem.

Conquanto defensora duma educação feminina em tudo similar à masculina e batalhar pela entrada das mulheres no mercado de trabalho em perfeita igualdade com os homens, Beatriz Pinheiro não se furtava à concepção oitocentista do papel da mulher na educação dos filhos. Seria então, através da mãe, militante da causa da paz, que primeiramente se faria «guerra à guerra».

“À mulher, parece-me, está reservada uma tarefa das mais importantes (…), essa tarefa é a educação dos filhos (…) que elas terão de preparar para a comunhão d’alma e de coração na grande Ideia, mais tarde, quando forem homens, quando puderem contribuir para a transformação da Quimera de hoje na deslumbrante, na frutificadora Realidade de amanhã. Pela educação dos filhos pode a mulher fazer germinar e dar frutos sazonados à semente lançada aos quatro ventos: nos Gabinetes, pela pena; e nas Academias, pela palavra. Ela o pode, desenvolvendo no espírito da criança os sentimentos da tolerância, de benevolência, de abnegação, fazendo em suma todos os esforços para do coração lhe desenraizar o egoísmo (…) que é a lepra que corrói todo o nosso organismo como indivíduos e por conseguinte como colectividades (…). Carecemos mais ainda do progresso moral do que do progresso intelectual (…) para que o ideal da Paz Universal seja abraçado por todos nós (…). É por isso que digo às mães que façam o que possam para curar a chaga do egoísmo dos filhos, porque o egoísmo é o travão do progresso moral, o maior e mais terrível obstáculo à felicidade do homem sobre a terra ”[12].

 

Com um discurso moralista, colocava o ónus da guerra no egoísmo individual e colectivo de uma geração anterior à sua, que não se coibia em “ser assalariada para matar”, levando povos à ruína, miséria e escravidão. Metia no mesmo saco, mandantes e executores: “os que vão seguros de triunfar são assassinos e são suicidas os que vão mais ou menos certos de que serão derrotados”.[13] Mas, finda a guerra e levado a cabo o desarmamento, o seu optimismo contagiante visualizava um novo mundo, em que as energias, antes desperdiçadas em conflitos armados sem qualquer sentido, seriam canalizadas para o desenvolvimento económico e social dos povos. “Veríamos então”, escrevia, “o sublime espectáculo de todas as nações fraternizadas numa comunhão perfeita de interesses, ideias e sentimentos (…). A Paz, triunfante, estabeleceria da mesma forma o seu reinado de luz e de amor. Porque a Humanidade já não precisa de guerra para progredir: é na paz que estão hoje os elementos do progresso: e o progresso é a lei da Humanidade”.[14]

A reflexão em torno da problemática da Paz, que Beatriz Pinheiro espelhou na Crónica de Outubro de 1899, tinha por objectivo preparar os leitores para a divulgação da fundação, em Lisboa, da Liga Portuguesa da Paz, precisamente no dia em que, em Haia, na Holanda, se iniciava a primeira Conferência de Paz – 18 de Maio de 1899. Explicando que “me pesava não ter até hoje tornado pública a minha adesão entusiástica ao mobilíssimo programa que nela vem singela e desassombradamente desenvolvido”[15], aproveitava para difundir, transcrevendo, os objectivos da novel associação. De salientar que os muitos dos conceitos patentes no programa da Liga – aspiração à Paz universal; a guerra contra a guerra; campanha de propaganda pacífica; irmandade humana; – foram utilizados na produção da Crónica de Outubro de 1899.

Através de «correspondentes», a Liga pensava levar o seu programa e propósitos a todos os cantos de Portugal. Beatriz Pinheiro que, não por acaso foi, em Viseu, uma das primeiras correspondentes daquela agremiação pacifista fora da capital, aproveitou as páginas da Ave Azul para incentivar outros ao combate pela paz.

“Fazendo cordialíssimos votos para que o público atenda (…) tão justo apelo e lhe preste todos os auxílios e simpatias, aqui deixo consignado o meu incondicional aplauso a tão nobre iniciativa bem à altura do nosso século que, aos olhos da Posteridade, se honrará pelas suas Ligas da Paz, como que protestando contra os séculos que só por Guerras da Liga se tornaram dignos de menção na História”. [16]

Dezassete anos depois, o discurso de Beatriz Pinheiro era bem diferente. Indubitavelmente o mundo mudara. A utópica “Guerra à Guerra» ia longe já. Em 1916 a guerra de trincheiras fazia parte do quotidiano europeu. A 6 de Março, a Alemanha declarava guerra a Portugal, aliado antigo de Inglaterra. O governo da “União Sagrada”, no poder desde o dia15 desse mês, insistia na tese intervencionista, com o Ministro da Guerra, general Norton de Matos, a publicar um documento em que esclarecia a posição de Portugal no conflito. A 15 de Junho, Inglaterra convidava formalmente Portugal a tomar parte activa nas operações militares aliadas, sendo constituído o Corpo Expedicionário Português. A partida para o cenário da Flandres seria uma realidade. As hostes pro-intervencionismo e anti-germânicas agitavam-se. A 15 de Abril, no jornal A Semeadora, escrevia Ana de Castro Osório:

“O nosso país está oficialmente em guerra com a Alemanha e os seus aliados (…) Ser pela Alemanha (…) mais não denota do que ignorância e falta de amor pátrio: ignorância por não verem nem compreenderem que o triunfo desse povo veio tarde para a conquista do mundo, e que sem escrúpulo se queriam apoderar do trabalho e da propriedade alheia, seria o esfacelar da nação portuguesa, que só tem razão de existir, continuando a ser, como é, uma potência de primeira classe (…). As mulheres portuguesas (…) encaram este momento com uma serenidade bem difícil de compreender para quem só superficialmente nos conhece (…). Mas se pensou na mobilização dos homens, logo as mulheres se apressaram a fazer uma mobilização em que o movimento mais belo que em Portugal se tem produzido nos últimos tempos na nossa história. A circular que a Cruzada das Mulheres Portuguesas espelhou por todo o país e colónias vem provar aos homens (…) que a mulher portuguesa não recuará ante nenhum sacrifício para honrar o nome de Portugal, manter a sua integridade e a sua riqueza”. [17]

Na conferência que proferiu a 8 de Junho, Beatriz Pinheiro enveredou também por uma linha patriótica, completamente anti-germânica e pro-aliada. Ao contrário do texto de 1899, assume agora um discurso marcadamente político, aproveitando para dar uma aula sobre a resistência portuguesa às ameaças externas. Não era já a jovem cheia de bondosas utopias, mas uma mulher politicamente comprometida com o Partido Democrata, o mais acérrimo defensor do intervencionismo português. Pinheiro mais não fez do que seguir o caminho trilhado por muitas outras mulheres, feministas e pacifistas como ela, que, por essa Europa fora, dos dois lados da barricada, deixaram falar mais alto o patriotismo exacerbado pelo contexto bélico.

Não foi sem um amargo peso na alma que Beatriz Pinheiro iniciou a conferência de Junho de 1916. São suas estas palavras:

“A hora que atravessamos é de angustiosa expectativa para todos (…) principalmente para quantos vivam mais pelo coração do que pelo cérebro (…) agora confusos perante a derrocada dos seus sonhos de paz, das suas teorias de progresso. Quanto a mim, – mulher e pacifista de há vinte anos, fazendo em tempos (…) o melhor que pude e soube, calorosa propaganda da paz mundial – confesso-lhes que me senti, a princípio mais que confusa, horrorizada à vista da hecatombe da guerra actual” (Pinheiro 1916, 5).

Mas então, pergunta-se, o que a levou a defender a participação portuguesa numa guerra que classificava como “pavorosa (…) que há dois anos abrasa num vesúvio de metralha e afoga em um niágra de sangue a Europa toda, que se estende já à África e à Ásia (…) prestes a tornar-se numa guerra mundial” (Pinheiro 1916, 5-6)? Beatriz Pinheiro tinha consciência de que a Guerra marcaria «com pasmo e horror» as gerações seguintes, particularmente as mulheres «por natureza, educação, coração e espírito» amantes da paz. Parecia haver aqui um regresso ao artigo de 1899.

“É que amamos a ordem, a harmonia, a beleza. É que vemos a riqueza, que deveria servir para alimentar, largar e embelezar a vida, consumi-la na guerra e consumi-la para dar a morte, fazer ruínas e espalhar a dor, o luto e a solidão (…). Ora, a mulher, fonte de vida, é a vida que ama, não a morte. As mulheres criam a vida com risco de morte; sabem bem por isso quanto vale a criatura humana (…). Se a guerra não nos chama para combater o inimigo, impõe-nos um sacrifício bem maior do que o das nossas pobres vidas, roubando-nos os filhos para fazer deles carne para canhão (…). Como não protestamos, pois, contra a guerra? Como não nos revoltamos contra esta carnificina inconcebível? E se isto é assim, não haveríamos de entristecer-nos, de angustiar-nos, nós, mulheres portuguesas, com a entrada de Portugal na guerra? (Pinheiro 1916, 6-7).

Beatriz Pinheiro procurou, então, responder a estas inquietações, a que juntou a pergunta mais óbvia que perpassaria pelo coração de muitas mulheres suas contemporâneas: se “a guerra não é connosco, a guerra não é contra nós: é lá fora, é com franceses e ingleses. Para que é que Portugal haveria de tomar partido nela?” (Pinheiro 1916, 7).

A nosso ver, o discurso no Liceu Maria Pia articulou-se em torno de três pontos. No primeiro, mandava alguns recados às mulheres que olhavam negativamente para a decisão portuguesa. O segundo, histórico-político, procurava uma justificação para a entrada activa de Portugal na Guerra. No terceiro traçava o papel da mulher portuguesa durante o conflito.

Começando por perguntar com reagiriam os portugueses em caso de invasão, respondia de imediato: “não seria preciso explicar-lhe[s]  a guerra, justificar-lhe[s] a guerra, fazer-lhe[s] a propaganda da guerra. Em defesa da Pátria todos se levantariam como um só homem”. (Pinheiro 1916, 7). Relacionava então esse levantamento nacional com a resistência portuguesa à «conquista» espanhola, às «invasões» francesas e à «diplomacia brigantina» dos ingleses. E, dirigindo-se particularmente às mulheres, comparava o lar de cada uma com a Pátria de todas, para assim justificar a tomada de posição do governo da União Sagrada:

“Em defesa do lar, nós, as mulheres, faríamos todos os sacrifícios (…) o dos nossos filhos (…) mortos pela liberdade e independência da Pátria. Mas sacrificá-los em defesa de Pátrias alheias, irem combater e morrer lá longe, ao lado de estranhos e por amor de estranhos … Ah! Decididamente, a entrada de Portugal na guerra repugna à razão, e repugna sobretudo ao coração e consciência (…). Portugal entrou na guerra porque era esse o seu dever (…). Devemos estar ao lado da França e da Inglaterra e fazer votos pelo triunfo dos aliados por sentimento patriótico. Mas, quando o amor à nossa terra não bastasse, deveríamos fazê-lo por amor da nossa própria dignidade e até por amor à humanidade” (Pinheiro 1916, 8).

Ao colocar a bandeira da guerra bem para lá do amor pátrio, Beatriz Pinheiro parecia parafrasear o slogan «Guerra à Guerra» que tanto a marcara na viragem de século. Porque, agora, ao defender a guerra do lado da Tríplice Entente, fazia-o em prol da Paz. “Esta guerra é o caos: mas como a luz irrompe do caos, assim desta noite sangrenta há-de a aurora da Paz aflorar, cantante e fecunda, perdurável e gloriosa” (Pinheiro 1916, 8-9). Ao fim e ao cabo, a autora mais não fazia do que inserir-se na corrente europeia que considerava que o conflito bélico generalizado tinha por objectivo acabar com a Guerra e garantir uma Paz ilimitada, fautora de progresso e desenvolvimento. Como se enganavam!

Mas, que outros argumentos apresentava Beatriz Pinheiro para justificar a intervencionismo português? Em primeiro lugar, a secular aliança com Inglaterra. “Portugal ficaria desqualificado, não apenas aos olhos da Europa, mas aos seus próprios olhos se, pedindo-lhe, como lhe pediu, a Inglaterra a sua interferência, ele lha recusaria e se deixasse ficar no seu canto”. (Pinheiro 1916, 10). Usando aqui de um sofisma patriótico, Pinheiro esqueceu-se da relutância inglesa em aceitar tropas portuguesas no cenário bélico europeu. Até aos inícios de 1916, Inglaterra pediu a Portugal uma «neutralidade activa». A 17 de Fevereiro, o governo inglês, em nome da aliança, solicitava ao seu homónimo português a requisição de todos os barcos alemães estacionados em portos lusos, o que aconteceria uma semana depois. A 9 de Março era a vez de a Alemanha declarar guerra a Portugal. Porém, só a 15 de Junho, uma semana depois da conferência de Beatriz Pinheiro, Portugal foi convidado pelo governo britânico a tomar parte activa nas operações militares dos aliados. Referindo-se à aliança com Inglaterra, dizia:

“Esta aliança que nos vinha da monarquia manteve-a e mais a consolidou a República (…). Em meados de Março de 1012, o então ministro dos estrangeiros (…) sintetizou em nove artigos as cláusulas dos tratados vigentes. O 7º bem claramente estatui que no caso de ofensa, invasão ou ameaça a um dos países, o outro, quando para isso solicitado. Deverá enviar-lhe auxílio de homens, de armas, de navios. Não podia Portugal faltar à fé jurada. (Pinheiro 1916, 11).

À aliança com Inglaterra, Beatriz Pinheiro somava o anti-germanismo que grassava em grande parte da sociedade política portuguesa, até pela cobiça dos territórios coloniais em África. Ora, os republicanos, que se tinham insurgido contra o Ultimato Inglês, não aceitavam ser amputados das suas colónias, concretamente no sul de Angola e no norte de Moçambique, onde o exército português combatia o alemão desde 1914.

“Ou queríamos nós, depois de sete séculos de vida autónoma, vergar o pescoço ao jugo teutónico e sucumbir devorados pelo abutre prussiano?! (…). Por ventura podemos ter dúvidas sobre as intenções da Alemanha a nosso respeito? Na África nos vinha ela fazendo de há muito uma dura guerra, tanto mais perigos por isso que dissimulada. Por sermos aliados da Inglaterra? Um pouco sim, mas principalmente porque as nossas colónias lhe despertavam a cobiça. (Pinheiro 1916, 13).

Durante a Guerra de 14-18, a defesa do Império colonial uniu os partidos políticos e grande parte da sociedade portuguesa. Ao fazer parte dessa ampla maioria, Beatriz Pinheiro não só defendia a sua manutenção, condição essencial ao desenvolvimento económico português, como atacava a Alemanha, que chegada tardiamente a África, queria uma larga fatia na partilha do continente.

“A Alemanha de há muito vem pondo olhos cobiçosos nas nossas colónias (…). Basta recordar a Conferência de Berlim em 1955 e o mesmo maquiavelismo com que já então procedeu connosco principalmente no que respeita à bacia comercial do Congo. E desde então, arteiramente[18] (…) tem tentado apossar-se por várias vezes de terrenos nossos tanto no sul de Angola como no norte de Moçambique (…). E tudo isto, note-se, antes ainda de se falar em guerra. Porque depois então, posta de lado a máscara diplomática (…) é que a sua hostilidade, a sua rapacidade se exercem mais às escâncaras, evidenciando-se revoltante e indignamente no vergonhoso saque ao posto de Mazina na nossa África Oriental, e na chacina traiçoeira das guarnições e habitantes do Cuangar e outros postos o Cuango”. (Pinheiro 1916, 14).

Mas o anti-germanismo expressado por Beatriz Pinheiro não se quedava na cobiça colonial. Ia muito mais além e radicava no imperialismo expansionista alemão, a quem acusava de querer transformar Portugal «num principado feudatário da Prússia militarista», contando com a conivência de germanófilos portugueses. Denunciava até uma publicação portuguesa de 1911, com o significativo título A Alemanha maior, em que se elogiava o poder incomensurável do Kaiser. Ela, que defendera a grande comunidade das nações europeias, punha em causa o projecto do professor Oswald: os Estados Unidos da Europa com a presidência alemã e abjurava a proclamação do príncipe Bulow: “«O rei deve estar à frente da Prússia, a Prússia à frente da Alemanha e a Alemanha à frente do Universo». Em conclusão: “a bandeira alemã cobrindo 86 milhões de germanos que governariam a restante população europeia. Este seria, reduzido ao mínimo o ideal do pangermanismo” (Pinheiro 1916, 15-16). Ora, era também contra “o materialismo do pangermanismo alemão e a barbárie opressiva do militarismo prussiano” (Pinheiro 1916, 16) que Portugal devia servir no teatro de guerra europeu, já que em África guerreava há dois anos.

O terceiro ponto do discurso de Beatriz Pinheiro prendia-se com o papel que as mulheres portuguesas deviam desempenhar durante a guerra. Em primeiro lugar e se mais não fosse, deviam sentir orgulho em que os seus filhos fossem lutar pela Pátria «esse lar em ponto grande», nas terras da Flandres, já que muitos deles combatiam em território africano. A falta de educação cívica feminina levou-a, não fosse ela professora, a proferir uma lição sobre o patriotismo feminino ao longo da História de Portugal, trazendo à colação exemplos vários: as mulheres de Diu, as mulheres de Lisboa durante o cerco castelhano de 1383, Deuladeu Martins, Helena Peres, Filipa de Vilhena…

“A mulher portuguesa tem dado através de sete séculos de vida autónoma as mais extremadas provas de devoção patriótica; e a mulher de hoje será a digna continuadora das virtudes cívicas que tanto enobreceram as nossas avós. Simplesmente não será de armas na mão.” (Pinheiro 1916, 19).

Então, que propostas fazia Beatriz Pinheiro às mulheres portuguesas?

“É preciso animar, reconfortar os que partem; como mães, como esposas, como irmãs, como amigas, devemos agir sobre o seu coração e sobre o seu espírito insuflando-lhes coragem, abnegação, patriotismo. E que ao vê-los partir, embora o nosso coração sangre, nossos olhos não chorem: acompanhe-os a dar-lhes força, o nosso confiado, o nosso reconfortante sorriso. Assim fazem as mulheres de hoje nos países que estão em guerra (…). Mas afinal, não foi porventura um espectáculo idêntico o que há dias todos podemos presenciar na partida das últimas tropas para Moçambique? (…) Não é porém só esta missão de carácter social e familiar que a Pátria nos impõe; outras lhe devemos de carácter social (…). Preciso se torne a promover a assistência às crianças e agasalhos aos soldados, organizar hospitais e serviços de enfermagem, subsidiar as famílias dos que partem muitas das quais, por falta do seu braço e do seu trabalho, ficarão sofrendo privações, quantas na miséria, talvez (…). O Estado não pode satisfazer a tudo (…). Precisamos pois de cooperar com o Estado, encarregando-nos duma parte da tarefa a realizar”. (Pinheiro 1916, 20-21).

Como em 1899, quando Beatriz Pinheiro divulgou os propósitos da Liga Portuguesa da Paz, aproveitou o discurso de 1916 para difundir os objectivos da Cruzada das Mulheres Portuguesas, em que se revia, promovendo a sua expansão a todo o território nacional.

“Urge que esse movimento se alargue, se propague, se estenda a todo o país, e que no Norte, no Sul, nas Beiras, não haja um cantinho, por mais ignorado, por mais humilde que seja, donde a mulher não traga, com a sua adesão, o produto do seu labor, do seu esforço, para aumentar, para fecundar este capital bendito, destinado a minorar misérias, a enxugar lágrimas, a florir em sorrisos, e confortos, e incitamentos. Se assim se fizer, se isto se conseguir, se todas as mulheres de Portugal, numa perfeita união de acção, entrarem e trabalharem para esta cruzada, realizar-se-á uma obra admirável e magnífica. E o seu nome ficará como um exemplo na História, que dirá aos vindouros, que elas bem mereceram a sua Pátria”. (Pinheiro 1916, 22).

Mas Beatriz Pinheiro foi ainda mais longe e, à semelhança de outros países europeus em guerra, viu no conflito a oportunidade para as mulheres portuguesas entrarem em larga maioria no tecido produtivo. “Preparemo-nos para substituí-los, para suprir a sua falta, tanto quanto possível, na agricultura, na indústria, no comércio, nos serviços do Estado, em todos os trabalhos em suma, que até hoje lhes estavam confiados” (Pinheiro 1916, 22). Não era este também um dos objectivos da sua luta feminista? Também aqui estava em sintonia com artigos que se publicavam em A Semeadora.

E voltamos à questão inicial. Incoerência ou um processo de maturação ditado pelo contexto histórico? A nosso ver, a republicana e simpatizante do Partido Democrático, Beatriz Pinheiro, soube, para além de ler as contingências dum tempo especial como foi o da 1ª Guerra Mundial, posicionar-se politicamente, não enjeitando a família política a que pertencia. Como a jovem viseense que escrevia polémicas crónicas na revista Ave Azul, nunca deixou de ter a crença utópica na possibilidade da Paz. A guerra aparecia como um compasso de espera, como a via sinuosa para um outro estádio da sociedade, mais justo e pacífico. A participação portuguesa no conflito mundial teria com finalidade última, a afirmação de Portugal Republicano no concerto das nações.

 

 

Fontes Primárias, Periódicas, Informáticas e Bibliografia

 

. Revista Ave Azul. Viseu, nº 15, Outubro de 1899

. Jornal A Semeadora. Lisboa, edição da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, Agosto 1915 a Dezembro 1918

. Pinheiro, Beatriz. 1916. A mulher Portuguesa e a Guerra Europeia. Lisboa, publicação da Associação de Propaganda Feminista.

. Livro de Actas da Câmara Municipal de Viseu, 26/4/1923 a 24/11/1923, Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, Viseu

. Samarra, Alice. “A Guerra 100 anos depois”. In Revista História. Nº 2. 68-83. Porto, edição do Jornal de Notícias, Fevereiro 2016

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[1] Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p 438

[2] Como é recebido o nosso jornal, (carta de Beatriz Pinheiro), A Semeadora, nº 2, 15 de Agosto de 1915, p 2. Em nota, a redacção do jornal tecia o seguinte comentário: “Da nossa querida amiga, a ilustre escritora e professora distintíssima, Beatriz Pinheiro de Lemos, que está ao nosso lado de todo o coração, recebemos a opinião seguinte que está de acordo com a nossa”.

[3] Livro de actas da Câmara Municipal de Viseu, 26 de Abril a 24 de Novembro 1923, Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, Viseu.

[4] Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p 434.

[5] Idem, p 437.

[6] Em itálico no original.

[7] Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p 434.

[8] Revista internacional de ciências, letras e arte, publicada em Paris/Bruxelas, entre 1897 e 1906.

[9] Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p 435.

[10] Delegação oficial portuguesa integrava o Conde de Macedo (Ministro Plenipotenciário em Madrid), o Conde de Selis (Ministro Plenipotenciário em Haia), Agostinho Rolim de Moura (Ministro Plenipotenciário em S. Petersburgo), Capitães Ayres d’Ornelas e Augusto de Castilho, bem como José Ribeiro da Cunha, secretário da delegação.

[11] Natural de Santarém, onde nasceu em 1860, Alice Pestana, mulher culta e viajada, foi escritora, professora, pedagoga, feminista, militante pela paz, foi a responsável pela fundação em Portugal da Liga Portuguesa da Paz. O casamento com o Professor espanhol Pedro Blanco Suarez, levou-a a trocar Lisboa por Madrid onde, em 1929, fechou os olhos.

[12] Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p 435-437.

[13]Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p. 437

[14] Idem.

[15] Ibidem, p 440.

[16] Chronica, Ave Azul, nº 15, Outubro 1899, p. 441

[17] Portugal em Guerra, A Semeadora, nº 10, 15 de Abril 1916.

[18] Entre a Alemanha e a Inglaterra foram estabelecidos dois acordos para a partilha dos territórios portugueses em África. O primeiro em 1899. O segundo em 1913, nas vésperas do estalar do primeiro grande conflito do século XX.

Foi professora do 2º ciclo do ensino básico, leccionando HGP.
É licenciada em História, Mestre em Historia da Educação e Doutorada em História pela UP.
Como investigadora, integra o Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

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