Caminhos da vida

por Vitor Santos | 2017.08.22 - 12:21

 

 

 

Maria é uma mulher como tantas outras, esposa, mãe e trabalhadora. Vive entre o presente, em que toma consciência da sua própria existência como mulher, e o passado arrastado na sombra de uma sociedade que apenas a conforta.

A inquietação interior atormenta-a. A exigência está presente.

Desassossegada e sincera, vive assustada com a possibilidade de várias pessoas habitarem no seu corpo. O vazio dentro de uma relação não é seu modo de vida. Contradição?! Não tanto quanto possa parecer.

O mundo que pulula dentro de si impele-a para o desconhecido e choca com a terra de ninguém que é a sua realidade atual. Como é possível ter chegado a tal solidão? Como pode amar… ainda… e não se sentir em casa na sua relação? Olha em redor, tantos compartimentos, tantas salas, tantos quartos, mas tudo tão diminuto. Tanto espaço de sobrevivência e tão pouco de vivência. Quando é que se deixaram controlar pelos tabus, pelo formalismo, pelas aparências? Quando é que se esqueceram de se apaixonar todas as manhãs, com o brilho do primeiro olhar? Quando é que deixaram de se seduzir? Quando é que o tremor da pele deixou de revelar anseios irreprimíveis? Quando é que vestir passou a ser um ritual mais importante do que despir?

Apaixonada e cúmplice, sente que o choque entre ambos é inevitável. O amor vive e prospera graças à cumplicidade e não segura ninguém sem ela.

O cansaço que se apodera de Maria leva-a a deixar de procurar o que lhe faz bem e acaba por ceder ao compromisso e conformismo. Mergulha nas redes sociais onde pode ser quem quiser. Onde o elogio é um ato banal e interesseiro. Engana-se a si mesma conscientemente.

A exigência deixa de estar presente.

As atitudes refletem quem é. As palavras são de ocasião.

A vida não a ensina. Devia.

 

 

 

Ilustração de paulo medeiros 2017

Vitor Santos nasceu em Viseu no ano de 1967. Concluiu o Curso de Comunicação Social no IPV. Conta com várias colaborações na Imprensa Regional. Foi diretor do Jornal O Derby.

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