Amor de mãe

por Patricia Maia Noronha | 2015.09.26 - 13:25

Teve dificuldade em amar a filha desde o dia em que a criança tinha nascido. Tudo nela a incomodava. Até o cheiro. Nunca lhe estendeu a mão, pelo menos voluntariamente. Nunca uma carícia. Nunca um “gosto tanto de ti”. E nunca, perante os outros, um elogio, uma palavra de carinho.

Imagem @ Peony Yip

Imagem @ Peony Yip

Sara cresceu naquela casa, a cada dia, como o símbolo de tudo o que tinha falhado. Cresceu acentuando todos os erros. Transcrevendo esses erros na sua cara. Os olhinhos pequenos muito juntos. A boca cheia de dentes que nenhum aparelho corrigia. A pele baça, quase cinzenta. A penugem na nuca, no bigode. E o corpo de pêra invertida. Magro em baixo. Gordo em cima.

Ela lutara por exprimir o seu amor de mãe. Perante si própria não admitia este desastre de um amor falhado. Apesar do desamor executava as tarefas maternas que lhe eram exigidas. Alimentou-a. Chegou mesmo a ler estórias de encantar antes da menina ir dormir. Comprou-lhe roupas.

É verdade que as roupas não ficavam bem naquele corpo que, ao andar, parecia um potro desengonçado. Era quase impossível. Mas a menina sorria. Apesar de tudo lhe ficar ridículo passeava de mão dada com a mãe e olhava envaidecida o seu reflexo nos espelhos, lançando depois um breve sorriso infantil à mãe enquanto lhe apertava a mão que ela, a mãe, desejava soltar. Nunca lhe conseguiu retribuir esses sorrisos.

O mais incrível é que Sara a amava. O seu amor falhava mas o da menina crescia imaculado. Um amor devoto. Surpreendia-a, até, a fé desse amor que julgava impossível nos desamados.

Há dias, com uma leveza desconcertante, entrou a saltitar pela sala dentro. Tem 15 anos e ainda saltita.

– Sabes que fui aceite?

– Aceite onde?, atira a mãe acossada, com o comando na mão e olhos presos ao ecrã da TV.

– Vou mesmo participar no concurso!

– Que concurso? Não sei se nenhum concurso….

– Aquele…de beleza…

A mãe não conteve uma breve gargalhada estridente. Controlando com dificuldade o riso, voltou a colocar a máscara de mãe.

– Para que é que te metes nestas coisas? Tens que emagrecer e o aparelho ainda não pôs esses dentinhos no lugar, pois não? E se esperasses mais um ano?

Observou atentamente o rosto da filha desejando, secretamente, vislumbrar um pequeno sinal de mágoa. O vestígio de quem iria desistir de um sonho. Mas a filha sorriu e era um sorriso bonito, sincero. Um sorriso sobretudo brilhante por causa do metal do aparelho.

– Oh mãe eu não quero ganhar nada! As minhas amigas vão, eu quero ir com elas…

Deu-lhe um beijo e saiu novamente a saltitar e a cantarolar uma música que agora ouvia de manhã à noite. A mãe suspeitava que estaria apaixonada e previa o desastre amoroso que aí vinha abanando a cabeça em tom reprovador.

– Eu não quero ganhar nada, repetiu a mãe baixinho imitando a voz da filha.

Os dias seguintes foram insuportáveis. Com amigas a entrar e a sair a toda a hora. Risinhos no quarto a experimentarem maquilhagem e roupas. Sentiu um frio no estômago, um enjoo. Contra todas as probabilidades a filha tinha amigas. E eram amigas de verdade. Por entre as portas, a mãe espiava atenta. Via que trocavam roupa entre elas e davam opiniões (e sinceras!) sobre como a camisola cor-de-rosa ficava com aquelas calças. “Leva, leva, fica-te mesmo bem! Tás linda!”. Deitadas na cama riam sem parar e falavam de rapazes. Abraçavam-se.

Detestava aquelas amigas da filha.

– Aquela Cristina não me inspira confiança…

Atirou, nesse dia, à saída da última amiga. A filha calada. Nestas situações fazia-se desentendida. Ou será que não ouvia mesmo?

– É estranha… não parece boa rapariga, sabes? Não me costumo enganar, insistiu numa voz mais forte.

A filha olhou então a mãe movendo lentamente a cabeça.

– Já escolhi o vestido que vou levar queres ver?

A mãe não queria. Não podia aliás. Não podia porque tinha que ir fazer o jantar e tinha que fazê-lo naquele preciso momento em que a filha lhe queira mostrar o vestido.

No dia do concurso as três amigas saíram lá de casa todas vaidosas e aos risinhos. Levavam os olhos pintados, purpurinas no rosto. Os vestidos colados tornavam os corpos adolescentes irresistíveis. Equilibravam-se em saltos maiores que as faziam vacilar. Mesmo na sua feiura, Sara resplandecia. De mão dada com a melhor amiga brilhava de felicidade. Um brilho que a agredia.

– De certeza que não queres vir, mãe?

Mas as amigas já a tinha puxado porta fora antes que pudesse responder. E de qualquer forma, não. Ela não queria. Tinha o comando da TV na mão mas pelos seus olhos passavam imagens da filha na passerelle com o corpo amorfo e o aparelho nos dentes. Não conteve um risinho ao imaginar a cara do júri e do público.

A porta bateu com tanta força que a mãe estremeceu em cima do sofá e quase entornou o copo de vinho. Sara atirou-se para o sofá, o vestido desarrumado, as mãos estendidas para ela.

– Mãe, toma, é para ti, ganhei para ti!

Na mão de Sara cintilava uma coroa de pedras falsas reluzentes.

– Ganhei o prémio de miss Simpatia. O júri foi unânime. Toda a gente aplaudiu mãe!

As duas estavam sentadas no sofá. E as pedras da coroa refletiam cores por toda a sala num festa improvisada. Refletiam essas cores de propósito para que ela, a mãe, se sentisse humilhada.

– E deram-te isto? – perguntou. Ao mesmo tempo que, sentindo o toque ligeiro de uma mão, a coroa caia no chão.

A menina continuava à esperava de olhos brilhantes. O sorriso inapagável de princesa prometida. Tinha a mão quente encostada à perna da mãe e baixou-se até a coroa caída. Pegou-lhe como se fosse uma joia. Colocou-a na cabeça da mãe.

A mulher viu o seu reflexo coroado no ecrã da TV. Sentiu-se bonita. Mais jovem. Inebriada. Na sua cabeça as coisas misturaram-se todas durante um bocadinho. Aquela coroa era ela nova quando alguém ainda não tinha nascido. E era a sua filha ao seu lado. Encontrou no reflexo da televisão um sorriso. Que era seu. Ou seria o da filha? Com os olhos cansados, desfocados, conseguiu reconhecer-se. Era mesmo o seu sorriso. Encontrou-o e mostrou-o com orgulho à filha.

 

 

Portuguesa, natural de Lisboa. Sou jornalista e também gosto de escrever ficção. O meu livro de contos “Brilho Vermelho” foi vencedor da menção honrosa do prémio Alves Redol 2009. Tenho vindo a publicar esses e outros contos em revistas eletrónicas de Portugal e do Brasil.

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