A metáfora – A inevitabilidade no discurso com que se diz o mundo

por Carla Augusto | 2013.11.28 - 15:01

Há uma inevitabilidade no discurso com que se diz o mundo. A metáfora.

Em Outras Inquirições, Jorge Luis Borges apresenta os argumentos de Croce e de Chesterton contra e a favor da metáfora. Partindo da alegoria de Dante, que teria pensado «a razão e a fé operam a salvação das almas» e «a filosofia e teologia conduzem-nos ao céu» até à sua formulação final onde Virgílio e Beatriz substituem os termos anteriores, Borges reforça os argumentos de Chesterton na defesa  da metáfora da seguinte forma: “Por outras palavras: Beatriz não é um emblema da fé, um trabalhoso e arbitrário sinónimo da palavra ; a verdade é que no mundo há uma coisa – um sentimento peculiar, um processo íntimo, uma série de estados análogos – que se pode indicar por dois símbolos: um, bastante pobre, o som ; o outro, Beatriz, a gloriosa Beatriz que desceu do céu e deixou as suas pegadas no Inferno para salvar Dante”. O uso da língua para simbolizar os processos íntimos de vida não esgota “os mistérios da memória e todas as agonias do desejo…”, como escreveu Chesterton, mas pode, pelo contrário, ter ainda outro efeito: o seu uso ordinário tende a hipostasiar esses mesmos processos íntimos. É através da metáfora, como extravasamento e densificação do sentido, que esta limitação pode ser superada.

Beatriz é essa metáfora que se desmaterializa das palavras e se torna acção. É este “descer ao Inferno para salvar Dante”, esta acção de descer ao lugar da expiação sem retorno, a esse lugar onde nunca se escolhe ir, que é importante, porque implode essa significação última de Inferno: o castigo eterno.

Há uma inevitabilidade na política: a metáfora da cidade.

A ideia de usar Beatriz para pensar a cidade tem a ver com essa acção, neste caso, as formas, as acções que permitem contrariar o que se apresenta como total na ideia de cidade e de política. Contra a cidade um fazer a cidade, um a cidade fazendo-se, como lugar, como corpo com densidade e temporalidade, que resiste às aproximações que dela se acercam, que permite a deambulação sem fim, que se estende entre o olhar breve e o habitar demorado. Nessa cidade haverá espaço para um outro corpo, transvestido de cidadão, que exigirá a rua como lugar primeiro de encontro, que assumirá a rua como o lugar próprio das fragilidades com que nos fazemos concidadãos.